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Seguindo o paradeiro de “O Irmão Alemão”.
Na Estante
20 maio 2015 | Por Jornalismo Júnior

Chico Buarque lançou em novembro de 2014 o seu quinto romance, intitulado “O Irmão Alemão”. O livro mistura relatos autobiográficos com elementos fictícios, e o autor traça ao longo da história linhas ora tênues, ora firmes que separam essas passagens.

Chico Buarque de Hollanda descobriu aos 22 anos que seu pai, Sérgio Buarque de Hollanda, tinha um filho alemão. Este foi fruto de uma relação que Sérgio teve com Anne Ernst no período em que morou em Berlim. Enquanto se preparava para escrever mais um livro, Chico, aos 70 anos, leu várias obras, entre elas “Austerlitz”, de W. G. Sebald e “Paris, a festa continuou”, de Alan Riding, que o deixaram inquieto sobre o paradeiro desse irmão. A dúvida acabou virando o fio condutor de seu romance, e a editora Companhia das Letras contatou o historiador brasileiro Sidney Chalhoub para conduzir as investigações sobre o paradeiro de Sérgio Ernst, com a ajuda de João Klug (historiador) e Dieter Lange. As descobertas feitas nessa investigação, somadas a passagens puramente fictícias constroem “O Irmão Alemão”.

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Sérgio Buarque de Holanda foi um importante historiador brasileiro. Imagem: Divulgação.

Francisco de Hollander, personagem principal do romance, é um professor de português medíocre no contexto da ditadura militar brasileira. “Ciccio”, como é chamado pela mãe italiana Assunta, descobre em um dos muitos livros que compõem a biblioteca de seu pai, Sérgio de Hollander, um bilhete em alemão de Anne Ernst. O personagem já sabia da existência de um irmão alemão, mas passa a partir daí a se perguntar onde ele estaria e se, ao descobrir seu paradeiro, conseguiria se aproximar mais do pai, que prefere os livros e o seu irmão mais velho, Mimmo.

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Documento que faz parte do acervo da família Buarque de Holanda. Imagem: Reprodução.

O livro vai além de histórias relacionadas diretamente à busca de Sérgio Ernst, mas pode deixar os leitores que gostam de descrições um pouco insatisfeitos. O autor faz reflexões ao longo da história sobre relações pessoais, mas não aprofunda as apresentações de personagens ou espaços físicos que permeiam a obra. Chico Buarque repete o que fez em “Leite Derramado” e opta por explorar a construção da personagem principal através de suas reflexões e diálogos.

O espaço físico é construído através de relações com o sentimento das personagens. A biblioteca de Sérgio de Hollander, por exemplo, é explorada pelos olhares das personagens que por ali circulam, e não através de passagens descritivas. Quem leu o autor não se surpreenderá nesse aspecto, mas ele inova agora ao estabelecer vínculos de verossimilhança com a sua própria vida. Em “Leite Derramado” esses vínculos se davam com contextos históricos.

Para os que já ficaram curiosos em saber mais sobre “O Irmão Alemão”, fica o vídeo divulgado pela Companhia das Letras no qual Chico Buarque lê um trecho do livro:

Há momentos em que realidade e ficção ficam muito próximas na história e, por conta disso, Chico Buarque conseguiu em “O Irmão Alemão” agradar tanto os que o admiram como músico quanto os que o admiram como escritor. A história prende o leitor, os capítulos se encerram na hora certa e deixam sempre uma sensação de “quero mais”. O autor não engessa suas histórias, sabe como dialogar com o leitor e deixa que esse participe da obra fazendo seus próprias reflexões e inferências. Habilidade de músico, que sempre soube a hora certa de entrar e sair do palco. Fica a torcida para que Chico Buarque ainda escreva muitos livros a serem adorados e criticados, afinal…

 

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Por Natália Belizario Silva
nabelizarios@gmail.com

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COMENTÁRIOS
deise antonia souza
Olá Natalia, Ótima Pesquisa. Parabéns pelo texto.
21 maio 2015
 
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