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Sete livros africanos que você precisa conhecer
Na Estante
10 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Júlia Mayumi / Jornalismo Júnior

Embora a Lei 11.645/08 torne obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, a realidade é que a maioria das pessoas sabe pouquíssimo sobre esse continente tão grande e diverso. Conhecida apenas pelos seus altos índices de pobreza e por conflitos que parecem não ter fim, a África abriga mais de um bilhão de pessoas, 54 países e é considerada o berço da humanidade – os primeiros registros de vida humana foram encontrados naquele continente. Histórias africanas foram contadas em filmes e livros hollywoodianos e europeus durante décadas, mas já passou da hora de as conhecermos pelos olhos de seus protagonistas.

 

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria)

Famosa autora feminista, muito conhecida por suas palestras no TED Talks “Todos devemos ser feministas” e “O perigo de uma única história”, Chimamanda é parte de uma família de professores. Nasceu em Lagos, a maior cidade da Nigéria, e mudou-se para os Estados Unidos. Americanah narra as vivências de Ifemelu, uma nigeriana que se muda para a Filadélfia para fazer faculdade de Comunicação. A jovem, imigrante e negra, sofre muito com o preconceito e decide, então, criar um blog para falar sobre suas experiências. Trazendo temas muito atuais, como estereótipos, machismo e xenofobia, o livro é considerado uma das mais importantes obras da literatura africana contemporânea.

 

Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria)

Diferentemente de Americanah, esse livro é um romance histórico que se passa durante a guerra civil que buscou a criação do estado de Biafra – que durou três anos e gerou 9 mil mortes. Olanna, uma jovem herdeira de uma família nigeriana milionária que leciona sociologia na Universidade de Nsukka e vive com um catedrático revolucionário, Ugwu, um jovem de uma aldeia pobre que é contratado por Odenigbo (amado de Olanna) como empregado doméstico, e Richard, um jornalista inglês que vai para a Nigéria a fim de escrever um livro sobre a arte local trazem os fatos mais cruéis e os desenrolares mais sutis dessa história. Através de pesquisas que incluíram membros de sua própria família, a autora apresenta aos leitores ocidentais o estado de Biafra, descrevendo sua origem e seu destino de forma coesa, precisa e, em certos momentos, didática, relacionando esses acontecimentos às vidas particulares dos personagens, sem se afastar da proposta ficcional do romance.

 

A Última Tragédia, de Abdulai Sila (Guiné-Bissau)

Abdulai Sila é guineense, engenheiro formado na Alemanha e condecorado como Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras pelo Estado francês. Uma de suas principais obras, A Última Tragédia se passa no período colonial e narra a história de Ndani, uma jovem moradora de uma aldeia que foi “diagnosticada” pelos chefes religiosos de sua região como “portadora de maus espíritos, que fariam de sua vida uma sucessão de tragédias”. Ela passa a trabalhar como empregada para uma família de brancos numa cidade próxima e é introduzida ao catolicismo, adotando o nome Daniela. Descobrindo mais sobre o mundo do colonizador e sobre o seu próprio, a vida de Ndani é uma metáfora da história do país: enquanto sua alma está assolada por espíritos ruins, a Guiné-Bissau é ocupada por invasores europeus.

 

O Planalto e a Estepe, de Pepetela (Angola)

Pepetela é um intelectual angolano que lutou pela independência de seu país; suas experiências com os grupos paramilitares deu origem a O Planalto e a Estepe. Narrado por Júlio Pereira, um jovem angolano branco que, após terminar o colégio com ótimas notas, recebe uma bolsa de estudos e vai estudar em Coimbra. Depois de perder a bolsa por notas abaixo da média, vai para Marrocos participar da Revolução que se desenrolava por lá. Ao se unir ao grupo, é mandado para Moscovo (Moscou, na Rússia) para aprender russo e estudar Economia; assume um papel importante no comando do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e organiza os exércitos que lutam contra os colonizadores. Além das questões políticas, o livro também foca no amor de Julio por Sarangerel, filha de um importante ministro da Mongólia. Após um breve namoro, a moça engravida e os pais dela, descobrindo sobre o romance, a mantém distante de Julio.

 

O mundo se despedaça, de Chinua Achebe (Nigéria)

Um dos principais autores do séc. XX, Chinua Achebe escreveu O mundo se despedaça com apenas vinte anos de idade, e o livro acabou por se tornar uma referência para historiadores e antropólogos a respeito de como vivia o povo igbo nos anos anteriores à chegada dos colonizadores à Nigéria. Okonkwo é um homem corajoso, que traz em si todos os costumes de seu povo, se tornando, graças ao trabalho árduo, um dos líderes de sua tribo. Tudo começa a mudar quando os brancos chegam ao pequeno povoado, e, ao descumprir uma das principais tradições de sua cultura, Okonkwo vê sua vida mudar drasticamente.

O livro narra detalhadamente os costumes igbo e como se deu o choque entre a população nativa e os invasores; é muito interessante, por exemplo, descobrir que, para os igbo, a plantação de inhame é digna somente dos homens – as mulheres plantam feijão e outros alimentos “menos nobres”. A representação das mulheres e o tratamento dado às crianças que nascem com deficiência é realista, e o autor não faz qualquer juízo de valor – é neutro mesmo diante de práticas que seriam consideradas atrocidades por outras culturas, permitindo que o leitor tenha um panorama claro da realidade igbo da época.

 

A mulher de pés descalços, de Scholastique Mukasonga (Ruanda)

A principal convidada da FLIP 2017 escreveu este livro em memória de sua mãe, Stefania. Quando jovem, a autora viveu durante a guerra civil ruandesa, que ficou internacionalmente conhecida devido ao filme Hotel Ruanda. A mulher de pés descalços é um livro um tanto maçante, mas bastante interessante. Praticamente um estudo antropológico, a obra narra detalhes da vida de Stefania e sua fuga para que sua família não se tornasse uma das milhares famílias tutsis assassinadas durante a guerra. Mesclando memórias de momentos de paz, quando Stefania era uma síntese das funções da mulher na sociedade tutsi, e a fuga dos conflitos, quando ela tenta manter ao máximo as tradições e dar uma aparência de normalidade aos seus filhos.

 

Mulheres de cinzas, de Mia Couto (Moçambique)

Mia Couto se define mais como um autor de crônicas do que de romances, mas o primeiro livro da trilogia As Areias do Imperador prova que o autor é genial em todos os gêneros. O livro tem dois protagonistas: o Sargento Germano de Melo, português, e Imani, uma garota que vive no vilarejo de Nkokolani. O contexto é o final do séc XIX, quando Portugal já tinha dominado quase toda Moçambique; Nkokolani ficava no Estado de Gaza, um grande império dominado por Ngungunyane. Germano é enviado ao vilarejo pelo comando de Portugal para a batalha contra o imperador africano, e é lá que conhece Imani, que aprendeu a sobreviver sendo quase invisível. Abordando a questão feminina de forma crua, porém sensível, e as questões identitárias e territoriais de Moçambique, Mia Couto usa sua prosa poética com perfeição, narrando a história de seu país com detalhes.

Por Júlia Mayumi 
juliasueyoshi@gmail.com

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