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Sexualidade feminina narrada no palco
Em Cena
12 nov 2019 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br) 

Monólogos da Vagina, criada em 2000, possui um nome que gera, em primeiro momento, um estranhamento. Seria uma vagina conversando sozinha? É um espetáculo de comédia, mas com reflexões profundas sobre o tabu ao que se refere a sexualidade feminina, como pelos, menstruação, autoconhecimento sexual, orgasmo e liberdade.

O palco apresenta três atrizes, Maximiliana Reis, Sônia Ferreira e Cacau Melo, que interpretam diferentes papéis ao longo da peça. Cada cena corresponde a um monólogo, o qual traz novas personagens. O exercício da fantasia e da imaginação é interessante, visto que apenas três pessoas são capazes de representar vários tipos de mulheres e, de forma ampla, o universo feminino.  

As artistas contam que a peça foi produzida a partir de mais de 200 entrevistas com diversas mulheres de diferentes idades, etnias, orientações sexuais e histórias de vida. As entrevistas foram selecionadas para criar um roteiro com vários monólogos – como o próprio nome sugere – sobre um assunto importante, porém pouco discutido: a sexualidade feminina. As narrativas conseguem atingir um público maior por meio do humor, muitas vezes de teor sexual.

No início, as protagonistas comentam sobre como o termo “vagina” é feio, desagradável e até repulsivo, de modo que as pessoas procuram termos alternativos. Alguns exemplos são citados, mostrando inclusive as diferenças regionais no Brasil. A partir disso, refletem sobre como o órgão sexual feminino se encontra em um local obscuro, o que impede muitas mulheres de conhecerem o próprio corpo. Isso é fortalecido com o preconceito, inclusive, da masturbação feminina: poucas mulheres sentem-se motivadas a tocar-se e, o que gera intensa dependência de outra pessoa para sentirem prazer.

No primeiro monólogo, existe uma reflexão sobre pelos e depilação. A personagem retratada não se sentia à vontade para se depilar – e achava um grande incômodo quando os pelos estavam crescendo e incomodavam sua pele –, mas apenas o fazia para agradar o marido, que ameaçava encontrar uma amante. Depois de anos de submissão, decidiu libertar-se e deixar seus pelos crescerem naturalmente: “O pelo é como uma folha que envolve e protege a flor”.

A primeira menstruação também é abordada a partir de distintos relatos. Em alguns, é vista de maneira positiva, uma passagem para a vida adulta, o marco de tornar-se “uma mocinha”. Em outros, a visão já é negativa: um fardo, um incômodo que estará presente pelo resto da vida. No entanto, independentemente da opinião, há um consenso da menstruação como um fenômeno que choca qualquer garota. As atrizes sabem retratar de maneira cômica a insegurança das meninas ao menstruarem pela primeira vez. A falta de informação e a vergonha de perguntar sobre o assunto as coloca em situações desagradáveis, como esconder os absorventes no porão para os pais não saberem que a filha já estava nessa fase.

O autoconhecimento é o ponto central, adquirido a partir do conhecimento da própria vagina e da descoberta do clitóris, fonte do prazer da conquista do orgasmo, também raro para muitas. Há até um relato da descoberta histórica do clitóris, no século XVI. Denominado “teta do demônio”, foi um dos pressupostos para acusar uma mulher de bruxaria e queimá-la na fogueira. A partir disso, as atrizes comentam sobre os tipos de gozo e gemidos – a “linguagem secreta dos nossos desejos” –, talvez a cena que mais tenha feito o público rir.

O momento de maior tensão é quando a temática do estupro é abordada. Neste momento, acaba-se a comédia e só há lugar ao drama. O monólogo Minha vagina era a minha vila fala sobre o caso da Guerra da Bósnia, conflito armado da década de 1990 em que o estupro era utilizado como tática sistemática de guerra. As vilas foram invadidas por soldados e as maiores vítimas foram as mulheres.

Quando a personagem diz que vários soldados chegaram com rifles em sua vagina e que a violência rasgou seu órgão e ainda soltou um pedaço de seu lábio, surge um sentimento de descrença na humanidade, sobretudo no homem. Como pode alguém ser capaz de violar a parte mais íntima de um indivíduo? As lágrimas são inevitáveis nessa cena, gerando uma mistura de raiva, tristeza e desgosto. É preciso de um momento de silêncio para poder retomar o roteiro.

O monólogo Minha vagina: eu, por sua vez, retrata um “workshop da vagina” como ferramenta de promover o autoconhecimento feminino. Incentivadas a desenhar e amar sua própria vagina, muitas mulheres comentam que nunca haviam imaginado o órgão como parte do próprio corpo. Por possuir muitas camadas, é pouco olhada e torna-se algo abstrato, um outro mundo. A partir do autoconhecimento é possível afirmar que “vaginas foram feitas para a liberdade” e “querem comunicação e conforto”, como dito no monólogo.

A frase que sintetiza toda a peça talvez seja: “Minha vagina quer amor e respeito, quer ser tratada com dignidade”, comentada por uma das personagens. O retrato de todos os momentos inconvenientes vividos por mulheres demonstra isso. Vaginas, mulheres, não querem ser menosprezadas.

A sexualidade não é retratada apenas sob o viés heterossexual de inconformidade com a dominação masculina. A situação das lésbicas também é representada, a partir de mulheres que procuram “fazer vaginas felizes”, gerando o prazer entre mulheres.

A peça termina com o início da vida. O monólogo Eu estava lá no quarto branco quando a minha vagina se abriu retrata o parto. A cena reflete sobre como “todas nós esquecemos das vaginas”, o que não deveria fazer sentido, pois todo mundo vem da vagina. Por que esse assunto, então, é pouco abordado? O espetáculo não fornece nenhuma resposta, apenas instiga novas perguntas e contestações sobre a situação da mulher.

As narrativas apresentadas fazem refletir sobre a importância da discussão sobre sexualidade feminina. O conhecimento sobre o próprio corpo é um pressuposto básico para a liberdade e busca pela igualdade. O nome da peça pode gerar a falsa impressão de ter sido escrita apenas ao público feminino, o que não é verdade. O tema deve ser comentado com todo mundo, sendo a peça de interesse público.

Monólogos da Vagina completou 19 anos dia 19 de abril e só conta com mais duas apresentações. A peça ainda estará disponível no Teatro Gazeta nos dias 16 e 17 de novembro. A classificação etária é para 12 anos e o ingresso custa 80 reais – o que, infelizmente, restringe o público e dificulta a disseminação de um tema tão importante de ser divulgado.

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