Home Na Estante Simone de Beauvoir na contemporaneidade
Simone de Beauvoir na contemporaneidade
Na Estante
05 nov 2019 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

“Não se nasce mulher: torna-se”. Essa é uma das frases mais conhecidas da filósofa existencialista e pensadora feminista Simone de Beauvoir, mencionada no início do segundo volume da obra O Segundo Sexo, publicada originalmente em 1949. Mas o que exatamente esse trecho significa?

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro.”

Em outras palavras, é a conjuntura social que determina o papel da mulher, o que contraria a filosofia existencialista, na qual o ser humano, por si só, deve “criar a si mesmo”.  É importante diferenciar gênero e sexo, como a própria autora pontua. Enquanto o sexo está diretamente relacionado com a biologia do indivíduo, ou seja, seus hormônios e seus órgãos reprodutores, gênero é uma questão de identidade, relacionada com a psicologia a socialização e o comportamento do sujeito. A filosofia existencialista considera justamente o gênero, pois não é predeterminado.

Mesmo passados 70 anos da publicação da obra, o pensamento sobre a emancipação feminina permanece atual, pois, apesar de ter evoluído, a situação feminina ainda não é igual, ou no mínimo próxima, à do homem.

Mas como O Segundo Sexo dialoga com o atual movimento feminista?

María Luisa Femenías, doutora em filosofia e professora da Universidad Nacional de La Plata, na Argentina, considera a obra “indispensável”, não apenas pelas respostas oferecidas, mas também pelos problemas suscitados, os quais “em muitos casos seguem vigentes, mesmo que historicamente algumas respostas tenham sido superadas”. 

Carla Rodrigues, professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), complementa: “O livro foi decisivo não apenas pelo seu conteúdo em si, que já era, então, revolucionário, mas também para impulsionar uma série de reflexões sobre a condição da mulher que hoje podemos chamar de teoria crítica feminista”. Sua crítica, no sentido filosófico do termo, refere-se ao destino da mulher, o qual impõe subalternidade, restrição de liberdades, dependência e exploração, de modo que Beauvoir “proporciona aberturas teóricas e práticas políticas que, se se modificaram ao longo desses 70 anos, em nada perderam a atualidade e a força”.

Em relações entre passado e presente, Beauvoir impressiona na contemporaneidade se ideias e argumentos. 

O livro se inicia com a abordagem da condição de inferioridade da mulher, consequência da estrutura social, visto que biologicamente não há argumentos que determinam um nível de hierarquia entre os sexos. Como, segundo a autora, a sociedade é masculina, o homem seria o positivo e neutro (ou seja, o termo homem como relativo a ser humano) e a mulher, negativo. Isso se reflete na linguagem. Na língua portuguesa, por exemplo, sempre usamos o masculino como algo neutro, mesmo que estejamos nos referindo a 100 mulheres e apenas um homem.

Como o universo é masculino, a mulher é vista como “o outro”, de forma que surge o conceito de “mistério feminino”, referente à não compreensão da mulher. Simone observa que, quando não entendemos um homem, não dizemos que há um “mistério masculino”. Diante da incapacidade masculina em lidar com a alteridade, criam-se estereótipos de histeria e sentimentalismo como características inatas de uma mulher. Se ela reclama de sua situação de inferioridade social, dizem apenas que é exagero ou TPM (Tensão Pré Menstrual). Nem preciso dizer que a sociedade não avançou muito nesse aspecto.

A psicanálise também diferencia os gêneros durante o tratamento. Conforme a autora, nesta ciência enquanto o homem é definido como ser humano, a mulher é tratada como fêmea. Simone adiciona: “Todas as vezes que ela [mulher] se conduz como ser humano, afirma-se que ela imita o macho.”

Sobre a mulher no mercado de trabalho, Simone diz que, a partir da Revolução Industrial, na qual as mulheres tiveram maior representação na mão de obra, a condição feminina passou a ser mais vinculada à produção do que à reprodução. O trabalho retira da mulher o papel de ser apenas “reprodutora”, o que auxilia em sua independência. Mas, mesmo com sua inserção, as condições de trabalho entre mulheres e homens não são as mesmas:

Como outra faceta do início de independência feminina, espera-se da mulher que consiga conciliar a maternidade com a carreira, o que nem sempre é fácil. Afinal, ainda há na sociedade a cultura de que a mulher é (a única) responsável pelo lar, de modo que os serviços domésticos são delegados somente a ela, e não divididos com o marido. Em relação à maternidade, Carla comenta: “[Simone de Beauvoir] chamou a atenção para o fato de que as mulheres não conseguiam ser valorizadas quando eram mães, porque a maternidade era compreendida apenas como um ‘destino biológico’, pois só o que tem valor social é aquilo que supera o biológico em direção à cultura”. Consequentemente, ocorre uma redução do corpo da mulher à função reprodutora.

Quanto ao trabalho, María Luisa expõe: “as mulheres sempre conciliaram maternidade e trabalho. Não vejo porque não poderiam conciliar maternidade e carreira, como uma forma de trabalho. O problema é que seria infinitamente mais sensato se as tarefas domésticas fossem repartidas em igual medida para homens e mulheres”. E nesse aspecto, explica que há uma questão de classe, pois mulheres ricas podem pagar a outras para cumprirem “suas” funções domésticas, enquanto as pobres devem realizar tudo sozinhas. A noção de “liberdade” é atingida, pois a mulher não consegue seguir o seu projeto de vida, sujeitando-se ao que lhe foi imposto socialmente desde seu nascimento.

Surge algo fundamental à autonomia feminina quanto ao próprio corpo: o birth control (controle de nascimento), baseado em métodos anticoncepcionais e no aborto – ainda mantido como tabu na sociedade. A partir do controle de natalidade, a mulher tem o direito de escolher se de fato deseja ter filhos, e qual seria o melhor momento para tê-los. Ela conquista maior liberdade sexual, já que o ato sexual não possui mais apenas a finalidade de reprodução. O prazer masculino deixa de ser o único relevante e o feminino ganha destaque, embora permaneça pouco comentado. Do mesmo modo, o orgasmo feminino também se mantém um tabu.

O aborto é analisado na obra de duas maneiras. Primeiro, como uma questão de saúde pública, pois, conforme os dados trazidos, a quantidade de mulheres que realizam aborto na França da década de 1940 é significativa, assim como a porcentagem de mortes durante o procedimento. Trata-se de uma questão além da “moral”: não há como impedir as mulheres de abortar, afinal, elas têm o direito de escolha sobre o próprio corpo, mas é possível garantir que o procedimento ocorra de maneira mais segura e humanitária. Também há uma diferenciação de classe, pois mulheres mais pobres não possuem condições de abortar de maneira segura.

A segunda análise se fundamenta na hipocrisia com a qual o aborto é tratado na sociedade. No segundo livro, a autora comenta: “Cabe observar que a sociedade tão encarniçada na defesa dos direitos do embrião se desinteressa da criança a partir do nascimento”. Isso ocorre sobretudo com base na opinião masculina: “É preciso acrescentar que os homens que mais respeitam a vida embrionária são também os que se mostram mais diligentes quando se trata de condenar adultos a uma morte militar”, como também é dito na obra. 

Em relação às críticas associadas ao aborto, Simone complementa: “Vê-se a que ponto o antifeminismo é ainda vivo pela obstinação de certos homens em recusar tudo o que pode libertar a mulher.”

Outra questão trazida é O Segundo Sexo diz respeito às diferenças sociais. Para Beauvoir, um dos principais problemas da propagação do feminismo é o fato de muitas mulheres da burguesia serem coniventes com o machismo devido aos seus privilégios de classe. Muitas não são favoráveis à emancipação feminina, pois isso significaria sua igualdade com as mulheres de classes inferiores.

Entretanto, Simone acaba prendendo-se à análise burguesa-Ocidental da situação da mulher. Para Carla Rodrigues, “infelizmente, esse problema não está apenas em O Segundo Sexo, mas em toda a filosofia europeia de matriz grega”. Porém, ela adiciona depois que não podemos reduzir a importância da obra devido a este fato. Precisamos “cotejar a filosofia de Beauvoir com o de outras pensadoras feministas que, espalhadas pela América Latina, África e alhures, puderam se valer do que há em comum na experiência de todas as mulheres, a opressão”.

María Luisa Femenías, por sua vez, não acha que esse aspecto seja um problema. “Pelo contrário, creio que [a análise apenas Ocidental] valoriza a obra, porque mostra a prudência de Beauvoir em não explorar sociedades cuja história conhecia menos”. A partir dos estudos beauvoirianos, mulheres de outras devem ser influenciadas a “tomar a palavra e fazer seus próprios relatos.”

Apesar de trazer uma visão avançada e contemporânea diante seu tempo, Beauvoir deixa transparecer que também é resultado do pensamento da época, e elabora ideias hoje consideradas retrógradas. . De acordo com Femenías, a perda da atualidade de alguns capítulos alude à informação científica oferecida, como novos descobrimentos sobre o DNA que atualizam o capítulo sobre a biologia dos sexos. As  incidências em conformação aos estereótipos de gênero, no entanto, são as mesmas. Além disso, algo primordial que se conserva relevante é a afirmação de que nada na natureza justifica uma ordem social discriminatória.

Rodrigues, por sua vez, pensa de maneira diferente. “A obra não é feita de informações, mas de reflexões, conceitos, pensamentos críticos. Não é possível pensar na ideia de ‘validade’. No entanto, quase tudo que há de importante tem sido constantemente revisto e posto em debate”. É o caso da ideia de uma condição universal da opressão da mulher, a qual foi desconsiderada aos poucos. Com a recusa à universalidade, permitiu-se que os movimentos feministas avançassem para enfrentar a diferença entre as próprias mulheres. 

“Hoje, já trabalhamos com essas diferenças, de modo que uma mulher negra no Brasil é diferente de uma mulher negra nos EUA, que uma mulher branca rica é diferente de uma mulher branca pobre, que uma mulher indígena é diferentes de uma mulher oriental”. Para ela, não há mais possibilidade de estabelecer uma universalidade. “A crítica a essa universalidade tem sido fundamental para o desenvolvimento dos movimentos feministas”.

Há um aspecto externo à obra de Beauvoir que reflete a cultura machista. Segundo María Luisa, “muitos teóricos, tanto homens quanto mulheres, consideram sua obra um apêndice feminista da obra de Sartre”, o que não é verdade. Ela informa que “sempre se pensou em sua obra como uma versão ‘inferior’ ao existencialismo sartreano, e nunca se viu a influência que ela mesma tinha na obra de seu companheiro”. E adiciona: “creio que é preciso lê-la por si mesma e calibrar o verdadeiro valor de suas contribuições”.

Femenías finaliza: “O feminismo de Simone de Beauvoir não pode ser lido por fora de sua filosofia existencialista; ambos aspectos se reforçam e se enriquecem mutuamente.” É preciso relê-la criticamente e “examinar suas contribuições desde a situação de cada indivíduo, situando-a nos contextos sócio-históricos atuais e reconhecendo as muitas portas que abriu com sua reflexão filosófico-feminista”.

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*