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Uma paixão febril
Na Estante
16 dez 2016 | Por Jornalismo Júnior

Livros que têm o futebol como principal assunto não são exatamente a coisa mais comum de se ver em uma prateleira de qualquer livraria. Os que possuem essa característica, portanto, deveriam ser leitura obrigatória ou, no mínimo, de interesse de qualquer amante do esporte mais popular no mundo. Destes, Febre de Bola (Companhia das Letras, 2013), do britânico Nick Hornby, precisa estar no topo da lista.

Publicado em 1992, o livro nos possibilita afirmar que é possível ter uma vida construída em torno do futebol. Torcedor apaixonado pelo Arsenal, clube do norte de Londres, Hornby escreveu a obra dividindo-a em crônicas que remetem, todas elas, a jogos de futebol que ele assistiu desde os seus 11 anos, em 1968. Pode ser considerada uma autobiografia bem peculiar, em que o autor recorre ao fanatismo pelo time e suas idas ao estádio para explicar dias, semanas e anos que são destruídos ou salvos por fracassos ou sucessos de seu time.

É importante ressaltar que o Arsenal é o time de maior torcida na capital da Inglaterra e também o maior vencedor de Londres. No entanto, é também famoso por decepcionar seus torcedores em horas decisivas – e isso se intensificou no período retratado por Nick no livro. O detalhe acaba deixando a leitura mais cômica, ao mesmo tempo que ajuda a ver como a relação do autor com o esporte ficava cada vez mais profunda e verdadeira, sem a dependência de alegrias e bons resultados.

Como o próprio Hornby descreve em sua primeira crônica, o sentimento pelo Arsenal começou repentinamente, ao ir no seu primeiro jogo, com seu pai, “sem pensar no sofrimento e nos transtornos que aquilo ia me trazer”. A partir dali, o Arsenal e sua fase ruim lhe acompanharam nos momentos mais marcantes: na separação dos pais; na rebeldia da adolescência; na ida à faculdade em Cambridge, onde ele adotou o pequeno time da cidade, que substituía o primeiro nos dias em que ele não podia estar em Londres; na escolha pela profissão de escritor, que não atrapalharia seu fanatismo e suas recorrentes idas aos jogos; nos romances; e até na realização de comprar uma casa na rua de seu estádio, já adulto e casado.

A maior prova de identificação de Nick com o futebol e com seu time se dá no momento que ele considera ser o melhor da sua vida. No último minuto do último jogo do campeonato de 1988/1989, o Arsenal fez o gol que lhes garantiu o título após 18 anos de espera. E ele, pensando em toda a euforia que sentiu no dia, começou a refletir, tentando comparar isso a outro momento possível da sua vida. É algo mais inesperado que um nascimento de um filho. É algo que possui um êxtase coletivo, diferente de ter ganho na loteria. Um orgasmo? Não. Orgasmos são repetidos e conhecidos, segundo ele. Um título como aquele, de jeito nenhum. Finalmente, a conclusão é que não existe nada que ele tenha cobiçado por duas décadas, nada que ele tenha cobiçado da mesma forma sendo uma criança e um adulto. Aquele gol tinha sido o ápice.

“Então, por favor, sejam tolerantes com aqueles que reputam um momento esportivo como o melhor na vida. Não é que nos falte imaginação, nem que nossas vidas tenham sido tristes e improdutivas; é só que a vida real tem menos cor, é mais chata e contém potencial menor para um delírio inesperado”, escreve Hornby. Febre de Bola é apaixonante, verdadeiro e único no seu gênero. É fundamental para um fanático por futebol, sim, mas também necessário para qualquer um que queira compreender uma paixão tão incrível como essa.

Por Diogo Magri
dmagri07@gmail.com

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