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Van Gogh: vida, arte e legado
Moldura
22 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Imagem: Beatriz Crivelari / Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Vincent Van Gogh nasce em 30 de março de 1853 em uma província predominantemente católica ao sul dos Países Baixos.  O hoje considerado um dos maiores pintores pós-impressionistas da história teve uma trajetória densa e complexa que, atualmente, esbarra com romantizações e eufemismos característicos da contemporaneidade.

A vida de Van Gogh foi um acumulado de andanças a fim de buscar um lugar no mundo para si mesmo e para sua função. Não por menos, o desenvolvimento estilístico de sua arte é fortemente associado aos diferentes lugares em que morou: Vincent buscava entender a cultura local e as condições de luz dos ambientes em que passava, embora sempre mantivesse sua própria perspectiva visual.

Os comedores de batata, 1885

“Quanta beleza na arte, desde que possamos reter o que vimos. Jamais ficaremos então deserdados, nem verdadeiramente solitários, jamais sós”, escreve Vincent a Théo, seu irmão mais novo e maior incentivador de sua carreira artística, ao fim do ano de 1878, em cartas que mais tarde viriam a público no livro “Cartas a Théo”. De fato, ele opta por não estar mais verdadeiramente só apenas aos 28 anos de idade, abandonando as tentativas falhas de seguir a vida eclesiástica e dedicando-se às pinturas e desenhos.

Sua andança artística tem início na cidade de Nunes (nos Países Baixos), onde Vincent debruça-se sobre os estudos da natureza morta e  sobre uma paleta repleta de tons tenebrosos – principalmente marrom escuro – pouco correspondente com o estilo vivo impressionista da época. Em 1885, surge seu primeiro grande trabalho: Os comedores da batata.

Floração de um pomar de ameixa, 1887

Pouco depois, muda-se para o município de Antuérpia, na Bélgica, vivendo um período de grande miséria. Preferindo gastar o dinheiro enviado por Théo em modelos e materiais de pintura, sua dieta básica passa a ser pão, café e tabaco. Nesse intervalo, o artista dedica-se ao estudo das cores, inspirando-se na xilografia japonesa e adicionando à sua paleta cores como carmin, azul cobalto e verde esmeralda.

Em 1886, vai para Paris estudar e viver com o irmão. Passa cerca de dois anos na cidade luz, produzindo mais de 200 quadros nesse período.

A saúde abatida, devido a bebedeira e ao fumo, o leva a buscar refúgio na pequena cidade francesa de Arles – onde tem um de seus períodos mais prolíficos. Encantado pela luz e paisagem local, adquiriu sua paleta mais marcante ao adicionar amarelo, azul ultramarino e malva – presentes em suas obras mais aclamadas.

A obra Os Girassóis, de 1888, marca uma fase rara de otimismo na vida o artista, empolgado com a vinda de seu amigo Paul Gauguin (pintor francês) e com a ideia da criação de um coletivo de artistas.

Até hoje não se sabe ao certo a sequência de acontecimentos que levaram Vincent ao agravamento drástico de sua saúde mental. A deterioração de sua amizade com Gauguin e a possibilidade de estar colocando o irmão em dívidas culminam em um surto agudo, no qual o artista mutila sua própria orelha. Van Gogh passa os dois meses seguintes entre sua casa e o hospital, sofrendo crises de alucinações e delírios de envenenamento. Nesse início de tratamento, ele se dedica especialmente aos autorretratos – sua forma de estudo nos períodos de introspecção.

Em meados de 1889, Vincent é internado, voluntariamente, no sanatório de Saint-Rémy e faz dele o ambiente dos cenários de suas pinturas – debruçadas sobre a técnicas de redemoinho, além da captura de ciprestes e oliveiras. Lá, pinta a obra Passeio ao Crepúsculo, exposta no Museu de Arte de São Paulo, e seu trabalho mais aclamado: Noite Estrelada.  

Van Gogh deixa o hospício cerca de um ano depois, mudando-se para o vilarejo francês de  Auvers-sur-Oise a fim de ficar mais próximo de Théo e do médico que cuidava de seu caso. Seus últimos meses de vida são emblemáticos e retratados em várias obras nos campos de trigo. O artista foi marcado por uma melhora física e mental impressionante, seguida de uma recaída drástica à melancolia e solidão – que culmina em seu suicídio.

Noite Estrelada, 1889

O diagnóstico de Vincent ainda é um caso aberto e pertinente com diversas teorias. O artista possivelmente sofreu de epilepsia do lobo temporal, uma condição que o levava à necessidade contínua de pintar e desenhar. Outra tese comumente apontada é o diagnóstico de transtorno bipolar – o que explicaria as abruptas séries maníacas e depressivas, notáveis até mesmo em suas cartas ao irmão.  Também há a possibilidade de intoxicação com chumbo, componente presente na tinta amarela, tanto pelo contato prolongado com a substância quanto pela sua ingestão.

Passeio ao Crepúsculo, 1889

O consumo da tinta trataria de uma tentativa de suicídio que, entretanto, nos últimos tempos, vem sendo remodelada a ponto da construção de uma narrativa em que o pintor consumiria a substância na ideia de que a cor o faria feliz. Decorrente disso, a internet encheu-se de textos que associavam a persistência em algo tóxico – como uma relação – a fim de atingir felicidade e com o questionamento “qual sua tinta amarela?” ou “já tomou sua tinta amarela hoje?”.

A romantização de uma situação como essa exalta o ideal romântico de artista torturado e a personalidade problemática, levando ao agravamento da banalização da saúde mental e elevação de ideias autodestrutivas. Seria cômico se não fosse trágico (e horrível) que Vincent, hoje, é muitas vezes utilizado para romantizar os males pelos quais padeceu – e contra os quais lutou durante toda sua vida. Nas cartas trocadas com o irmão, postumamente publicadas, Van Gogh relata continuamente sua vontade de melhorar – para si mesmo, para sua arte e para aqueles que se importam com ele – chegando a optar pela internação voluntária e até mesmo mudar-se de cidade. Em abril de 1882, ele escreve a Théo “ainda que frequentemente eu esteja na miséria, há, contudo, em mim uma harmonia e uma música calma e pura”.  

Campo de Trigo Com Corvos, 1890

O reconhecimento de Van Gogh foi lento e gradual. Vendendo apenas um quadro enquanto vivo – Vinhedo Vermelho – trabalhou durante mais de dez anos pela perspectiva de fazer o que ama e com a ideia de um propósito maior ao fim da sua trajetória de dedicação contínua à arte. “Pois grandes coisas não se fazem só por impulso e são o encadeamento de muitas pequenas coisas reunidas em um todo” – escreveu ele a Théo, o maior apoiador e divulgador da sua arte, tanto em vida quanto postumamente.

Vinhedo Vermelho, 1888

Após a morte de Vincent, a expansão de sua obra tem início com pequenas exposições entre suas amizades artísticas, havendo em 1891 uma retrospectiva de seu trabalho, em Bruxelas. A fama de Van Gogh atinge seu primeiro ápice antes da Primeira Guerra, com a publicação, em 1914, das cartas que trocava com o irmão e ficaram em posse da esposa de Théo depois de seu falecimento. O conteúdo das correspondências dá voz ao extraordinário lado letrado do artista, aprofundando sua história de maneira poética e inaugurando o mito de Van Gogh como brilhante artista não compreendido.

Com a morte da esposa de Théo, o sobrinho de Van Gogh herda a propriedade sobre as obras e cartas do tio. Assim como seu pai um dia fez, passa a trabalhar para que o legado de Vincent não seja esquecido. Na década de 1950, ele providencia a publicação de todas as cartas do tio em forma de um livro intitulado “Cartas a Théo”. A partir de 1960, inicia uma negociação com o governo holandês a fim de conseguir subsídios para comprar peças do artista que estavam em posse de terceiros, com o projeto de criar um espaço para que o trabalho de Van Gogh fosse exibido nas melhores condições possíveis. O Museu Van Gogh é inaugurado em 1973, em Amsterdã, sendo hoje o segundo museu mais popular dos Países Baixos.

Em 2017 foi lançado o filme Com amor, Van Gogh (Loving Vincent) – escrito e dirigido pela artista Dorota Kobiela e seu marido, Hugh Welchman, que conta a história da vida do pintor em seus últimos anos. A produção contou com uma equipe de 115 pintores que produziram cada um dos 65 mil quadros que deram vida ao primeiro filme totalmente pintado.

Auto-retrato, 1889

Devido a essa expansão de seu trabalho nas últimas décadas, Van Gogh muitas vezes tem sido classificado como mais um símbolo da “cultura pop”.  Textos surgiram criticando a popularização de sua obra como resultado de uma veneração repentina a mais um artista morto. O incômodo desproporcional com a disseminação da figura do pintor – bem como sua história – é egoísta, uma vez que limitar o conhecimento das pessoas de uma figura artística é limitar a arte em si. Van Gogh morreu sem ter o reconhecimento merecido, mas vive a todo momento que sua história e sua arte inspira ou realmente toca alguém.

Vincent escreveu a Théo uma carta no início de sua andança artística em que dizia “é bom amar tanto quanto possamos, pois nisso consiste a verdadeira força, e aquele que ama muito realiza grandes coisas e é capaz, e o que se faz com amor está bem feito”. Talvez nessas breves linhas seja possível abreviar um pouco a essência do que Van Gogh representa e passa aos seus admiradores até os dias de hoje.

Vincent morreu nas primeiras horas da manhã de 29 de julho de 1890. Deixou quase 900 quadros, mais de mil obras em papel, centenas de cartas e um legado que vive e inspira pessoas de todo mundo mesmo a mais de cem anos após sua morte. E não há narrativa sobre tinta amarela ou banalização de sua história que mude isso.  

por Samantha Prado
sampradogp@gmail.com

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