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Vice e o poder norte-americano de nos matar de tédio no cinema
CINÉFILOS
29 jan 2019 | Por Cinéfilos

Forte candidato ao Oscar de melhor ator, Christian Bale é o protagonista do longa Vice (Vice, 2018), biografia romanceada de Dick Cheney, vice-presidente de George W. Bush (2001 – 2009). O filme traz a história do político, que começou como estagiário do congressista Donald Rumsfeld (Steve Carrell) e chegou à Casa Branca.

A presença contínua de um narrador e os trechos de imagens da época dão um ar documental ao filme, tornando a premissa de ser “baseado em fatos” mais crível. O tom sarcástico que acompanha tanto o narrador quanto as falas dos personagens e a escolha das imagens mostradas provoca risadas dos espectadores mais atentos.

A montagem do filme é particularmente interessante, pois são intercaladas cenas com os atores, gravações antigas e cenas do mundo animal que traçam um paralelo inesperado com o enredo. Quando um dos personagens descobre algo que pode lhe trazer vantagens, por exemplo, aparece na tela uma filmagem de um leão capturando sua presa.

Apesar do filme ser sobre Dick Cheney, sua esposa, Lynn (Amy Adams) tem alguns momentos de protagonismo muito interessantes. Apesar de defender pautas conservadoras, Linda Cheney é retratada como uma mulher forte, inteligente e habilidosa. Sua presença é usada pelos roteiristas para tratar de desigualdade de gênero em alguns momentos, mas o assunto não chega a se aprofundar. São poucas as cenas em que Lynn tem protagonismo, de forma que não há espaço no roteiro para uma discussão maior.

Amy Adams como Lynn Cheney; a esposa do vice-presidente tem momentos de protagonismo, mas são curtos [Divulgação]

Vice apresenta o protagonista como um homem esperto, manipulador e ambicioso, que faz de Bush Jr. sua marionete e comete atos extremamente questionáveis em sua carreira política. O diretor (Adam McKey) tenta trazer um olhar crítico às medidas tomadas por Cheney, mas Christian Bale traz um sujeito que nem por um segundo pensou sobre as implicações éticas de suas posições. Não há qualquer momento em que o protagonista questiona se suas decisões são corretas ou pesa prós e contras. Apesar de pretender soar como crítica, o filme na realidade é uma grande ode à história estadunidense e ao seu poder de comandar a política internacional. Apesar de questionar a política de Cheney, o diretor parece não deixar de se impressionar com o poder e a firmeza do vice-presidente.

Em uma produção claramente dirigida ao público norte-americano, Vice é mais uma vez um filme estadunidense que quer enaltecer o poder bélico, político e cultural do país, ao mostrar como o discurso do então secretário de Estado Colin Powell (Tyler Perry) no Conselho de Segurança da ONU afetou a política internacional e como uma reunião entre dois homens terminou no bombardeamento de um país, por exemplo. Só o fato do próprio Vice estar em salas de cinema do mundo todo já demonstra como a cultura das terras do Tio Sam é influente.

Um longa que não merece ocupar as programações dos cinemas brasileiros que, honestamente, tem coisas melhores para passar. Em tempos de representatividade e minorias conquistando espaço, um filme falando sobre a história dos Estados Unidos com quase 100% do elenco branco (excetuando um advogado leste-asiático e um político negro que é obrigado a obedecer ordens com as quais não concorda) não deveria mais gastar o dinheiro de Hollywood 一 nem dos nossos bolsos. Alguém avise aos norte-americanos que eles não são o centro do mundo.

Vice estreia em 31 de janeiro, e você pode conferir o trailer abaixo:

por Júlia Mayumi
juliamayumi@usp.br

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