Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.
Todo autoretrato contém partes do autor que o compõe, pois todo traço, em certa forma, denota uma metafísica. Através deles, pode-se ter um breve vislumbre da alma do artista. Poesia Sem Fim (Poesia Sin Fin,2016), o novo filme do cineasta chileno Alejandro Jodorowsky — produzido através de uma campanha de financiamento coletivo — é um autorretrato. Durante as quase duas horas de duração do longa, o cineasta pinta alguns momentos de sua infância e juventude no estilo um pouco atenuado que o consagrou como um dos principais cineastas da vertente surrealista.
Antes de ser cineasta Alejandro – ou Alejandrito – foi ator de teatro, marionetista, circense e poeta. No processo de auto representação, essa variadas formas de se fazer arte não poderiam ser relegadas do procedimento estético do próprio filme. Todo o longa comporta-se como uma grande peça de teatro: Os cenários são erguidos no momento do ato, usa-se fundos falsos que não escondem o procedimento cênico e todas as atuações são extremamente teatrais, expansivas e eloquentes. Outras formas de arte são importantes no decorrer da narrativa, sendo a poesia a força motora de praticamente todo o filme. O grito de fúria de Alejandro, decidindo não seguir aquilo que seu pai lhe impunha – ser médico – e trilhar seu próprio caminho como artista foi através da poesia, em um momento que o jovem Jodorosky teve acesso a um livro do poeta Frederico García Lorca. O cinema, arte que o consagrou como artista para o mundo, não é explicitamente citada em nenhum momento, mas já está presente como o corpo que sustenta toda a narrativa, a linguagem pelo qual a história pode ser contada.
Diferentemente de seus outros filmes, em Poesia Sem Fim vemos a tentativa de se construir uma narrativa mais linear, com apresentação do enredo, clímax e desfecho, algo não muito comum na cinematografia do diretor, com longas cujos enredos são bem conceituais e que dificilmente podem ser definidos como um todo,pois as cenas tem mais força individualmente do que em conjunto. Ao tentar fazer essa passagem narrativa, tem-se a impressão de que Jodorowsky se perde um pouco: O filme começa muito bem, com um bom ritmo e bem divertido, mas acaba se perdendo, ficando por demais arrastado em alguns momentos, deixando o espectador um pouco desnorteado sem saber aonde se quer chegar, como um looping infinito. Não são poucas as horas em que o filme parece acabar mas logo retoma a narrativa em um mesmo ponto já exaustivamente visto. O filme retoma seu ritmo no final, em uma bela cena de conclusão, um diálogo entre o que foi e o que poderia ter sido.Em geral, Poesia sem fim é uma boa experiência para se iniciar na obra de Jodorowsky, ao apresentar tanto sua história de vida, suas motivações e sua arte, de uma maneira bem mais acessível e não por menos desprovida de um certo encanto.
por Pedro Graminha
graminhaph@gmail.com