Por Gabriela Braga (gabriela.santos@usp.br)
A 36ª edição do Festival Internacional de Curtas de São Paulo (Kinoforum), que ocorreu entre 21 e 31 de agosto, exibiu gratuitamente mais de 250 filmes de todos os continentes em nove salas de cinema em São Paulo, como a Cinemateca Brasileira, o CineSesc, o Circuito Spcine, o Museu da Imagem e do Som (MIS), o Espaço Petrobras de Cinema e o Cinusp.

O evento homenageou a produtora Zita Carvalhosa, fundadora e diretora da Associação Cultural Kinoforum, que faleceu poucas semanas antes do início desta edição. Contando com sete de seus filmes, a mostra especial Zita Carvalhosa, Mulher de Cinema foi dedicada à sua carreira de pioneirismo feminino na produção cinematográfica brasileira, que ainda possui predominância masculina.

O festival também celebrou os 25 anos do movimento Dogma Feijoada, cujo manifesto, lançado no Kinoforum do ano 2000, apresenta a importância de debates raciais no âmbito da produção audiovisual brasileira.
A programação foi diversa e contemplou tanto cineastas jovens como os mais experientes, o que possibilitou a revelação de novos talentos com curtas premiados em festivais como Cannes e Veneza. As mostras foram distribuídas em: Internacional, Latino-Americana, Infantojuvenil, Limite e Programas Brasileiros. Houve também uma série de programas especiais, incluindo uma sessão exclusiva com animações produzidas por mulheres do Leste Europeu e um programa dedicado a novos realizadores africanos, o Conexão Áfricas, com curadoria da marfinense Rita Ambeu. Além disso, foram destaque os programas Eco Minds e O Som no Cinema, em parceria com o Festival de Curtas de Clermont-Ferrand.
Também houve espaço para experimentos em realidade virtual na Mostra VR/360°. Um deles foi o caso da Operação Lorca, com a história da escultura de Flávio de Carvalho em homenagem a García Lorca, que foi destruída no período da ditadura por um atentado de um grupo de extrema-direita e posteriormente resgatada por estudantes da USP, liderados por Fernando Meirelles. O projeto pretende ser uma experiência que inclui um filme de longa-metragem, a ser lançado em 2026, acompanhado de uma exposição audiovisual imersiva.

Por que produções audiovisuais de curta-metragem ainda possuem baixa difusão?
Para além do Kinoforum, que já se estabeleceu como um festival internacional prestigiado do audiovisual brasileiro, a distribuição de filmes de curta-metragem ainda permanece aquém da divulgação alcançada pelos longa-metragens. Isso ocorre, contraditoriamente, em meio à uma disseminação massiva de vídeos curtos nas redes sociais, o que pode levar à conclusão de que o formato breve não é o motivo central para o baixo interesse pelos curtas fora de festivais ou plataformas especializadas.
A chave para a compreensão desta contradição pode estar nas especificidades dos curtas, tanto do ponto de vista de sua composição e temática como também de questões materiais e financeiras. O fazer audiovisual frequentemente envolve altos custos com equipamentos, locações, uma equipe multidisciplinar de profissionais, entre outros. A opção por um formato mais compacto pode proporcionar uma produção mais economicamente viável para realizadores com baixo orçamento. Esse cenário já altera a configuração social de boa parte dos produtores de curtas, que passa a incluir estratos que ainda são minoria nos longas, como mulheres, afrodescendentes, pessoas de origem periférica, de diversas identidades e orientações sexuais e jovens iniciantes.

Há, portanto, uma mudança de perspectiva sócio-cultural, que implica em novos temas, outros ambientes e diversas formas de retratar o mundo. Segundo Luiz Massaro Galina, Diretor do Sesc São Paulo, em seu texto de abertura do festival: “Ao favorecer o acesso de cineastas com trajetórias e contextos distintos, essa modalidade contribui para a renovação estética e política do cinema”. E talvez seja por isso que o formato em curta-metragem tenha sido essencial para a iniciação de grandes nomes do Cinema Novo, como Cacá Diegues e Glauber Rocha.
O próprio caráter mais conciso deste tipo de produção possui suas próprias demandas formais, que acabam sendo solucionadas de diferentes maneiras por seus produtores. Uma delas é o desafio de seguir uma estrutura narrativa linear tradicional, com ações iniciais ascendentes que resultam em um conflito, seguido por um clímax, que gera uma busca por soluções, que, uma vez alcançadas, levam a ações descendentes que se encaminham para um encerramento bem delineado. Por outro lado, nos curtas, muitas vezes, é necessário começar já do meio, enquanto o começo fica subentendido. Outra solução é acabar sem um desfecho bem amarrado, comumente esperado nos filmes mainstream.
De maneira geral, os curtas possuem uma tendência maior a um caráter lacunar, em que nem tudo será mostrado diretamente. Cabe ao público fazer inferências para completar as informações a partir da interpretação de recursos poéticos como metonímia, metáfora e alegoria. Uma relação importante, por exemplo, é a que toma a parte pelo todo: uma cena curta pode representar o cerne de uma questão muito maior, que ali está concentrada, assim como uma foto pode congelar um instante que flagra uma situação extremamente complexa.
Em uma comparação com os gêneros literários, o longa estaria para formatos mais narrativos como o romance, enquanto o curta estaria para gêneros mais breves e poéticos, como o conto e o poema. Por isso, ele apresenta maior tendência para a experimentação visual, poética e sonora. Isso também explica a dificuldade de difusão, já que as principais plataformas não costumam apostar em propostas que saiam dos padrões tradicionais de cinema.
Quem se Move (2025), filme de Stephanie Ricci
Para tratar dessas e outras questões que permeiam o Kinoforum, o Cinéfilos entrevistou a diretora do curta Quem se move, exibido na Mostra Brasil. O filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Roterdã de 2025 e venceu o prêmio de Melhor Ficção no Go Short, qualificatório para o Oscar.

Stephanie Ricci, nascida em São Paulo, é bacharel em Cinema pela FAAP, concluiu uma pós-graduação em Escrita na Universidade Nova de Lisboa e atualmente finaliza um mestrado em Curadoria Cinematográfica na Elias Querejeta Zine Eskola, na Espanha, onde recebeu uma bolsa do Programa Ibermedia. Iniciou sua carreira escrevendo sobre cultura para a Folha de S. Paulo e, depois, atuou como produtora e roteirista na Trip TV. Em sua estreia como diretora, com o documentário Liberdade é uma palavra (2020), foi selecionada para o Glasgow Short Film Festival. Atualmente, Ricci desenvolve o seu primeiro longa metragem, Boca da Noite, com o apoio do Hubert Bals Fund.

A diretora conta que escolheu o formato de curta-metragem por questões práticas de carreira, já que ela acredita ser mais fácil iniciar com curtas para posteriormente passar a produzir longas-metragem. Mas a escolha também se deu pelo fato do curta ser um espaço de experimentação estética, de novas linguagens e narrativas e “menos atrelada a cadeias do mercado cinematográfico”. Segundo ela, o curta é mais democrático e traz um maior frescor: “O público fica mais aberto a experimentações de 20 minutos do que experimentações de 2h.”
A narrativa traz uma noite de uma imigrante brasileira em Lisboa, que acaba por condensar questões profundas da identidade latina e de um modo de ser e estar no mundo a partir de uma perspectiva transeunte. Ricci revela que o filme contou com a participação de não-atores, pessoas de seu próprio círculo de amizades em Portugal, o que carrega mais uma camada de subjetividade à proposta. “Porque lá fora você não é ninguém. E você tem que se juntar com mais ‘ninguéns’, digamos assim, para conseguir ter força.”
Ela afirma que a obra parece ser uma breve espiada em contexto maior, mas que contém brechas para extrapolar a própria narrativa. Se é possível definir o cinema como música da luz, por sua conexão entre as artes ligadas ao espaço (visuais) às artes ligadas ao tempo (música e teatro), este curta apresenta uma conexão poética sensível entre fotografia (estática) e som (dinâmico). Ele se desdobra no contraste entre a permanência e o movimento, questão central da protagonista René, que se encontra entre partir de volta ao Brasil ou permanecer de maneira ilegal em Portugal. A situação não se apresenta claramente, mas está para ser inferida pelo espectador a partir dos diálogos e outras pistas.
Logo na primeira cena, uma imagem estática da arquitetura de Lisboa surge ao som instrumental da introdução da música Quizás, Quizás, Quizás (Talvez, talvez, talvez, em tradução livre do espanhol), um clássico latino-americano das incertezas.

Em seguida, ocorre o movimento de bolas de bilhar, e a música passa para a parte cantada, dessa vez em um karaokê de boteco. Quem dá voz à canção é uma mulher trans, figura que também está em trânsito entre identidades de gênero e sexualidade. É neste cenário que surgem os olhos melancólicos de René, cuja situação parece ser comentada pela letra da música:
“Siempre que te pregunto (siempre que me preguntas)
Qué, cuándo, cómo y dónde (qué, cuándo, cómo y dónde, amor)
Tú siempre me respondes (que siempre te respondo)
Quizás, quizás, quizás
Y así pasan los días
Y yo, desesperando
Y tú, tú contestando
Quizás, quizás, quizás
Estás perdiendo el tiempo
Pensando, pensando
Por lo que más tú quieras
¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?”
O “talvez” ou o “entre” podem ser considerados motes centrais, que também surgem no ambiente da escada, onde René tenta resolver questões de um relacionamento confuso por meio de uma conversa truncada, permeada por silêncios, idas e voltas. Momentos de solidão e contemplação do cais da cidade, lugar de partidas e chegadas, mesclam-se a momentos de partilha entre amigos sobre os desafios da migração ou oportunidades de expurgar as tensões em uma festa, retratada como uma série de fotos em sequência, em frames parados, dando movimento ao que seria inicialmente estático. Outra música da trilha sonora que retrata essa dinâmica de “fazer o próprio país” a partir de um encontro com o outro é Fullgás:
“Meu mundo você é quem faz
Música, letra e dança
Tudo em você é fugaz
Você me abre seus braços
E a gente faz um país”
Marina Lima em Fullgás, 1984

Outras temas da entrevista
Cinéfilos – O seu filme traz uma personagem latino-americana tentando se virar na Europa. Como é ser uma diretora latina produzindo em Portugal? Quais desafios essa identidade traz?
Stephanie Ricci – É um filme que, sim, fala sobre imigração e contextualiza algumas precariedades em Portugal, como, por exemplo, a gentrificação e o mercado imobiliário gigantescos. Você não consegue achar um quarto por menos de 500 euros sem janela, quartos muito afastados ou em condições precárias, em casas velhas. Se eu não me engano, em algum período de tempo, talvez ano passado, foi a cidade mais cara da Europa em aluguel, se você for parar para fazer a relação do salário mínimo com o que é pedido pelos proprietários.
São várias as precariedades, e acho que essa personagem também se apoia nesses laços que ela constrói e nessas amizades. Acho que a cena da peça também traz um pouco isso.
Portugal é um país precário, com as suas próprias complexidades, principalmente dentro do contexto cultural. A cultura não é valorizada como é no resto da Europa e o cinema em si é uma arte muito cara. Então, por não ser um país rico, também tem poucos fundos para isso. No meu caso, o dinheiro da produção foi bem pouco: a gente filmou com 7.500 euros. Isso deve ser metade do que, por exemplo, a SPCINE dá para fazer curtas no Brasil. Então, foi um valor muito, muito baixo. A gente realmente fez milagre para a produção desse filme. Mas, ainda assim, eu só consegui esse dinheiro porque eu tive o pensamento de me filiar a uma grande produtora portuguesa.
Tem também a questão mais subjetiva, que é provar o seu próprio valor enquanto latina dentro da Europa. É como se fosse uma carta de validação de que, apesar de ser latina, de não ter distribuído filmes na Europa ou de não ter feito filmes em solo português, tem alguma instituição portuguesa que te respalda. Esse agravante da identidade latina também te faz ter poucos contatos, e, querendo ou não, o cinema é uma arte que se faz com contatos. Se faz conhecendo pessoas e programadores. Começar do zero é muito difícil e, em Portugal ou na Europa, na verdade, não é nem começar do zero, é começar do negativo.
Mas essa comunidade acaba se ajudando. Então, eu fiz esse filme e paguei todo mundo. Para algumas pessoas paguei pouco, mas paguei. As pessoas que não consegui pagar foi por troca de trabalho. Eu fiz, por exemplo, quatro curta-metragens de graça para quatro pessoas diferentes que fizeram funções no meu filme. A gente vai arranjando… O filme brasileiro é resiliente. A gente vai arranjando jeitos de conseguir fazer. Mas eu acho que a nossa força está justamente em se apoiar um no outro.
Cinéfilos – A que você atribui a menor difusão dos curtas em comparação com os longas atualmente?
Stephanie Ricci – Falando especificamente do Brasil, tem uma pouca cultura de consumo de curta-metragens nos dias atuais. Antigamente a gente tinha a lei do curta-metragem, em que era obrigatório passar nas salas de cinema um curta antes de um longa. Isso caiu, então é difícil ver o grande público sequer saber o que é um curta ou sequer ter algum conhecimento ou algum repertório sobre isso.
Mas acho que isso é um papel da cultura mesmo, é um trabalho de base. Acho que não vem do nada e não dá para exigir que o grande público queira ver curta-metragens, porque as pessoas têm que ser educadas. Elas não vão ter um contato com uma coisa espontaneamente.
Isso precisa partir de cima para baixo. Então, por exemplo, a lei do curta era um ótimo caminho, que infelizmente parou. Mas acho que tem outras formas de pensar em como incluir o curta dentro dessa cultura mais popular, mais abrangente.
