Por Maria Luiza Negrão (marialuizacnegrao@usp.br)
Ao sair de casa em uma fria manhã de verão, não imaginei que assistiria à emocionante trajetória de uma barata infectada por um fungo ao som de One Way Or Another na telona do cinema. Quem me dera, no entanto, que essa fosse a única bobagem de Alerta Apocalipse (Cold Storage, 2026), que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (29).
A trama acompanha os protagonistas Travis (Joe Keery) e Naomi (Georgina Campbell), funcionários de um armazém que outrora fora um estabelecimento oficial do exército dos Estados Unidos. Um dia, o expediente toma um rumo diferente do tédio cotidiano quando um fungo guardado nos confins da empresa sai do controle e passa a infectar pessoas e animais desordenadamente. A partir daí, com a ajuda do agente de bioterrorismo aposentado Robert Quinn (Liam Neeson), a dupla é catapultada para o nível de agentes especiais e corre contra o tempo para salvar toda a vida no planeta Terra.

[Imagem: Divulgação/StudioCanal]
O longa é adaptado do livro de ficção científica Contágio (HarperCollins, 2019), escrito por David Koepp — roteirista do filme e também dos clássicos Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993), Missão Impossível (Mission: Impossible, 1996) e Homem-Aranha (Spider-man, 2002). Agora, a qualidade variável da filmografia de Koepp, que também assinou A Múmia (The Mummy, 2017), sofre mais um baque com Alerta Apocalipse.
Para ser justa e não dizer que tudo nele é ruim, preciso apontar duas coisas positivas. A primeira é a fotografia, que de quando em quando entrega composições interessantes. A segunda é a iluminação que é verdadeiramente ótima em meio à moda de gravar filmes tão escuros que mal dá para ver. E os elogios param por aqui.
Mais absurdo do que toda a catástrofe se desembolar dentro de um só dia é o excesso de bobeiras do enredo. O fungo, como explicado na introdução do filme, havia sido enviado para fora do planeta pela National Aeronautics and Space Administration (NASA, sigla para Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço), e voltou à atmosfera terrestre quando a bugiganga que o carregava se destroçou. Com as modificações genéticas propiciadas pelas condições astronômicas, o organismo se tornou extremamente letal e o governo soube disso, mas achou de bom tom guardar uma amostra do perigo escondido em uma cidade no meio do nada.
Para piorar a situação absurdista, o filme é um amontoado de clichês do gênero apocalíptico. Os Estados Unidos precisam salvar o mundo de uma ameaça que, para começo de conversa, foram eles mesmos que causaram. Um grande infortúnio faz com que cidadãos comuns precisem vestir trajes de herói para salvar o mundo. Por um infortúnio maior ainda um militar aposentado precisa reviver seus dias de atividade e se juntar aos meros cidadãos. E um dos cidadãos, aparentemente covarde, é munido subitamente de uma enorme coragem só por causa dos lindos olhos da outra cidadã.

[Imagem: Divulgação/StudioCanal]
Seria insensato cobrar um roteiro brilhante ou efeitos especiais magníficos de qualquer filme do gênero. Mas se o enredo é fraco, as performances são básicas e os efeitos são medíocres, os personagens poderiam, pelo menos, serem carismáticos ao ponto de merecer torcida em meio ao caos. Travis e Naomi, no entanto, só me fizeram torcer para que o filme acabasse logo. Alerta Apocalipse pode funcionar bem como som ambiente de noitadas de pizza com os amigos ou um doomscroll no TikTok mas, como um filme, é desastroso do início ao fim.

Alerta Apocalipse já está em exibição nos cinemas. Confira o trailer:
*Imagem de capa: Divulgação/StudioCanal
