Por Matheus Andriani (andrianimatheus@usp.br)
Na última quinta-feira (19), o auditório Freitas Nobre, do Departamento de Jornalismo e Editoração da Universidade de São Paulo, recebeu a jornalista e crítica de cinema Isabela Boscov. Em mais uma edição do Jota Conversa, a ex-aluna da ECA-USP revisitou sua trajetória profissional e discutiu os caminhos que a levaram à crítica cinematográfica, além das mudanças no jornalismo cultural e na forma como o público se relaciona com o cinema.
Ao longo do bate-papo, Boscov falou ainda sobre a importância da busca por repertório para quem deseja atuar na área, analisou o peso de premiações como o Oscar e refletiu sobre o mercado de trabalho e os diferentes caminhos possíveis para estudantes de jornalismo.
Uma ex-ecana de sucesso
Ao relembrar sua passagem pela ECA, Boscov destacou que as trocas com os colegas foram uma de suas maiores memórias como aluna. Egressa do curso de Rádio e TV, ela relata que havia uma construção coletiva de conhecimento, um “curso paralelo”, em que cada um contribuía com seus próprios repertórios, seja em cinema, música ou outras áreas: “Essas pessoas estão na minha vida desde então. E eu acho que essa é uma das experiências mais valiosas que tenho. Ninguém consegue ser jornalista sozinho. Ninguém consegue fazer nada sozinho”.
Sua entrada no mercado também foi atravessada por essas relações. Após um período fora do Brasil, conseguiu uma vaga no Jornal da Tarde por meio de contatos da faculdade, o que iniciou uma trajetória que a levou por diferentes editorias da Folha de S.Paulo até chegar à crítica de cinema na revista Veja, onde permaneceu por mais de quinze anos.
Entre essas experiências, a jornalista destacou especialmente sua passagem pelas editorias de Ciência e Cotidiano, inicialmente longe de seu objetivo. Foi a partir daí que desenvolveu algo que afirma ser de extrema importância na carreira: a necessidade de compreender com clareza um assunto antes de comunicá-lo. “Pergunte, pergunte, pergunte, até ter certeza de que você entendeu”, afirmou, ao explicar que um jornalista não deve ter medo de questionar a fonte quantas vezes forem necessárias.

O jornalismo em diferentes formatos
Para Boscov, a crítica não deve ser vista como um veredito final, e sim como um convite à reflexão. “A ideia da crítica para mim é iniciar um diálogo”, explicou. Em vez de impor uma opinião, o crítico deve apresentar argumentos que ajudem o público a formar seu próprio entendimento sobre a obra.
Essa forma de ver a crítica é o que sedimenta seu trabalho na internet. Ao passar para o vídeo, a jornalista manteve a mesma estrutura que já usava nos textos, mas de um jeito mais espontâneo. Segundo ela, essa mudança foi natural, já que esse modo de organizar as ideias já fazia parte da sua rotina depois de anos de trabalho em redação jornalística.
Boscov também rejeita a ideia de criar uma persona de forma estratégica para as mídias sociais. Seu estilo, marcado por comentários e expressões que muitas vezes viralizam, surge de forma natural, sem planejamento. “Se a pessoa bola meme, ele nunca vai dar certo”, disse, ao comentar sua relação com o público nas redes. Ao ser questionada, destacou o “bárbaro” como seu bordão favorito e afirmou nunca terpercebido que usava a expressão com tanta frequência.
“Quando você está escrevendo todo dia há 30 anos, na hora que você começa a falar, essa estrutura já é sua segunda natureza também. Talvez eu fosse muito diferente se tivesse começado pelo vídeo. Vai saber como eu seria.”
Isabela Boscov
Oscar e o peso das premiações
Ao falar sobre o Oscar, a crítica destacou que enxerga a premiação com certo cuidado e defendeu uma visão mais equilibrada, especialmente quando envolve a expectativa em torno de produções brasileiras. Para ela, é natural torcer, mas é preciso entender o contexto da disputa.

Boscov comentou algumas das produções da temporada e avaliou os resultados deste ano. Ela disse que gostou de Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, 2025) e reconheceu qualidades no vencedor, mas admitiu frustração com o fato de Pecadores (Sinners, 2025) não ter levado o maior prêmio da noite. Segundo a crítica, o filme se sobressai por ser uma produção original em um cenário dominado por adaptações, algo cada vez mais raro. Ela também apontou a relação da obra com o momento atual dos Estados Unidos. Ainda assim, lembrou que havia vários concorrentes fortes e que outros resultados também seriam justos.
Ao analisar a cerimônia de forma mais ampla, a jornalista foi direta ao definir o seu papel: “O Oscar está acontecendo, é um brinde da indústria americana para a indústria americana. No terreiro da indústria americana, cheio de nomes da indústria americana. Então, eles geralmente vão dar preferência ao que se parece mais com eles mesmos”. Para Boscov, isso ajuda a explicar muitas escolhas e porque nem sempre filmes de fora dos Estados Unidos recebem o mesmo reconhecimento.
“A premiação em si não necessariamente tem relação com a qualidade do que você está vendo. É super concurso de miss.”
Isabela Boscov
Boscov também revisitou o início da sua relação com o cinema e contou momentos marcantes da infância. Ela lembrou de quando, ainda muito nova, ficou sozinha em frente à televisão e assistiu A 20 Milhões de Milhas da Terra (20 Million Miles to Earth, 1957). Ao descrever a obra, disse: “É um filme de um lagartinho que cai de Vênus na Terra e começa a crescer, crescer, crescer, e arrebenta as correntes e destrói o Coliseu. Gente! Juro! Até hoje eu lembro desse filme. É genial”. Para ela, esse tipo de vivência ajuda a explicar não só seu interesse pela área, mas também sua preferência por narrativas que provocam emoção.
