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Todos os caminhos levam à orquestra

Artistas clássicas compartilham histórias marcadas por trajetórias e instrumentos diferentes, mas experiências e lugares comuns
Um homem negro tocando flauta, e ao seu lado, uma mulher branca tocando violino. Ao fundo, um cenário que remete às salas de apresentações musicais
Por Débora van Pütten (deboravp@usp.br)

Fazer parte de uma orquestra — seja ela sinfônica, filarmônica ou de câmara — é um dos objetivos de artistas que estudam música clássica. Alcançar esse sonho exige preparação rigorosa.

Três artistas: Angélica Vianna, harpista de Belo Horizonte, Minas Gerais; Camila Barrientos Ossio, clarinetista de Cochabamba, na Bolívia e Cibelle Donza, maestra e compositora de Belém do Pará compartilham, em entrevistas ao Sala33, um pouco de suas histórias pré, durante e pós orquestras.

Angélica Vianna, harpista autônoma

Angélica e sua harpa
 [Imagem: Angélica Vianna/Arquivo pessoal]

“A primeira orquestra profissional que eu participei, quando ainda era menor de idade, foi a Sinfônica de Minas Gerais, no Grande Teatro do Palácio das Artes, fazendo a segunda harpa da obra Quadros de uma Exposição do compositor Mussorgsky”, afirma a harpista.

Angélica Vianna, 55, faz parte de uma família de músicos e, por isso, foi incentivada a estudar o assunto desde criança. Antes de receber educação formal em música, seu pai já a ensinava a ler partituras. Sua mãe, também harpista, fez com que ela começasse a estudar o instrumento em casa.

O Centro Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde estudou durante a infância, oferecia disciplinas opcionais para formação musical que ela fazia sempre. Assim que pôde, entrou no Conservatório de Música da UFMG para, de fato, iniciar sua formação em harpa.

Vianna teve várias experiências mesmo antes de se formar harpista: fez apresentações na escola fundamental — inclusive com a orquestra da escola — formou um grupo de músicas antigas que se apresentava na capital mineira e em cidades do interior e tocou como harpista convidada da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG). 

A mãe da artista a introduziu à dinâmica de funcionamento de uma orquestra, o que Vianna considera muito importante, já que, segundo ela, muitos músicos jovens chegam despreparados, sem saber reconhecer os significados dos movimentos feitos por maestros. “Minha mãe era a harpista principal da Sinfônica e ela me ensinava como um maestro indica as entradas, como eu devia me comportar dentro da hierarquia de uma orquestra e me iniciou em tradições, como a de agradecimentos aos aplausos da plateia”, compartilha.

Foi a mãe também que a apresentou à professora Acácia Brazil de Mello, harpista brasileira de referência mundial e neta do médico e sanitarista Vital Brazil. Bem como  auxiliava a filha, que não falava inglês, a ter contato com harpistas estrangeiros que iam a Belo Horizonte, ao atuar como intérprete.

Chegada a hora de entrar em uma graduação, escolheu bacharelado em harpa na UFMG. Com apoio da família e, apesar de gostar de outros assuntos, como química e literatura, Vianna afirma não ter tido dúvidas na hora de tomar a decisão. 

Pintura de Donna Norine Schuster que recebeu o nome de “O’er Waiting Harp Strings”, em homenagem à música homônima composta por Mary Baker Eddy 
[Imagem: Donna Norine Schuster/Wikimedia Commons]

Depois da faculdade, o próximo passo da harpista foi o mestrado. O objetivo era fazê-lo na Universidade de Indiana, que na época oferecia o melhor curso de harpa. Porém, para tanto, precisava escrever um projeto de pesquisa a fim de pleitear uma bolsa de estudos com o governo brasileiro. Enquanto esperava o resultado, Vianna iniciou a formação na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Passados seis meses, a artista recebeu a bolsa da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e se mudou para os Estados Unidos (EUA).

Ao finalizar o mestrado, voltou para o Brasil. Desde então, revela já ter tocado com praticamente todas as orquestras brasileiras. Suas últimas apresentações, por exemplo, foram nos dias 24 e 25 de setembro de 2025 com a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (OSES).

Quando fala sobre tocar em orquestras, Angélica Vianna gosta de frisar que “o exercício de música clássica é uma atividade pesada e estressante”. Além de ser uma profissão que exige disciplina, ainda envolve  hierarquias e relações de poder desiguais. “No Brasil e fora, músicos tomam remédios para ir a ensaios e muitos ficam com distúrbios provenientes de humilhações e de pressão para serem perfeitos como máquinas”, a harpista explica. 

Além de orquestras, tocou em grupos de câmara,  em shows de música popular e fez inúmeros solos e apresentações com corais. Fora de espaços tradicionais, tocou em casamentos ao ar livre, em igrejas, em festas, em parques, em inaugurações de lojas. Performou com artistas como Roger Waters, do Pink Floyd, e com seu primo, Marcus Viana, em shows da trilha sonora da novela O Clone

Vianna comenta que trabalhar no Natal de um manicômio foi a experiência mais marcante que ela vivenciou. “Voltei no ano seguinte  para mais uma apresentação de Natal e a enfermeira me contou que, depois do ano anterior, o hospital passou a colocar música de harpa nos corredores, porque parecia acalmar os pacientes.”

Camila Barrientos Ossio, clarinetista

Camila Ossio e o seu clarinete
 [Imagem: Camila Barrientos Ossio/Arquivo pessoal]

Um disco com o concerto completo de Mozart para clarinete e um jogo do Aladdin no Super Nintendo permitiram que Camila Barrientos Ossio, 39, conhecesse o instrumento que tocaria pelo resto de sua vida.

O Instituto Eduardo Laredo, escola primária público-privada que Ossio frequentou, tem a educação artística dos alunos como prioridade. Na Bolívia, ela era praticamente a única escola com essa proposta. 

Nesse cenário, quando estudantes completavam nove anos, era esperado que escolhessem dois instrumentos que gostariam de aprender a tocar, em ordem de preferência. A artista, então, elencou dois instrumentos de sopro: o clarinete e, se não fosse possível, a quena, que é um instrumento andino — tradicional de comunidades indígenas na região dos Andes.

O som da quena, instrumento de sopro andino, é descrito como límpido e expressivo
 [Imagem: MI PERÚ/Wikimedia Commons]

O que parecia ser difícil, visto que não havia professor de clarinete na Bolívia, certamente não foi impossível. Mesmo com esse entrave, aos dez anos, Camila Ossio começou a estudar o instrumento sob a orientação de Edward Wolf, trompetista estadunidense.

 “Em mundo ideal, penso que estudaríamos música desde cedo. Crianças estão muito abertas à música, às artes e é triste não aproveitar isso.” 

Camila Ossio, clarinetista

A,  clarinetista estudou o instrumento na mesma escola até o final do ensino fundamental. Nesse tempo, passou a ser conhecida no país como uma boa clarinetista. Isso abriu portas e permitiu que ela se apresentasse no Chile como primeiro clarinete de uma banda — lugar de liderança semelhante ao do spalla na orquestra —, e permitiu que se apresentasse com orquestras na Bolívia e na Venezuela.

Ao mesmo tempo, Ossio se deparou com uma dificuldade em imaginar uma vida de música profissional na Bolívia. Por essa razão, com incentivo do professor e de uma bolsa de estudos, convenceu os pais a permitirem estudar clarinete no Centro Interlochen de Artes, nos Estados Unidos. “Com 14 anos fui estudar nos Estados Unidos sozinha e nunca mais voltei a morar na Bolívia”, diz.

Os anos de ensino médio de Camila Ossio foram marcados pelos sons do clarinete, por estudos aprofundados em música e outras artes. Mas, também foram definidos pela saudade de casa e dos pais e por choques culturais, fosse por precisar falar uma nova língua, fosse por enfrentar o frio do inverno que, segundo ela, era sempre desafiador. 

Interlochen é uma escola que se relaciona diretamente com a comunidade. Os alunos fazem várias apresentações abertas ao público, como balés e apresentações de orquestras completas. Lá, Ossio também começou a fazer música de câmara.

Depois de Interlochen, vieram o bacharelado e o mestrado em performance de clarinete. “Era meu sonho desde criança morar em Nova York”, diz a artista, e o desejo se realizou quando ela recebeu uma bolsa para estudar na Escola de Música de Manhattan. A bolsa não cobria todas as despesas e os sete anos de estudo na cidade foram coordenados com outros empregos pela necessidade de pagar as contas.

“Eu sofri muito no início. Pensava ‘vou voltar para a Bolívia no Natal e não tenho certeza se depois venho para cá [EUA] de novo’. Na última aula antes do Natal, o professor falou que tinha um presente para mim. Ele me deu um clarinete em Lá [um dos tipos mais comuns de clarinete, o outro é o Si bemol]. Entendi que aquilo era um sinal de que não podia ir embora”, Ossio lembra.

Segundo a clarinetista, o objetivo de um bacharelado em música é, principalmente, desenvolver técnica. Detalhes são o foco: maneira que se toca, som, afinação. No mestrado, o objetivo é direcionar a carreira do músico.

No caso dela, o mestrado foi sobre se preparar para orquestras. “Entrar em uma orquestra é difícil e competitivo. Fiz provas nas quais havia 80 clarinetistas para uma vaga”, explica. Porém, quando chegou no final da formação, Ossio se envolveu mais com uma abordagem musical contemporânea e passou a integrar um quinteto de instrumentos de sopro feitos de madeiras.

A experiência foi importante porque a ensinou a tocar em uma pequena formação de músicos. A clarinetista também aprendeu aspectos de produção e autogestão de um ato musical. Simultaneamente, tocou em orquestras como a Filarmônica de Nova York e fundou a Sociedade Boliviana de Música de Câmara.

Durante a pandemia de Covid-19, a Sociedade lançou o projeto Música para Respirar 24/7, cuja proposta era oferecer concertos online e gratuitos para pessoas que solicitassem o trabalho escrevessem. “Fizemos mais de 15 mil concertos, para pessoas em 50 países. No início, a ideia era um músico tocando para um espectador, mas depois recebemos pedidos de hospitais e escolas”, afirma Camila.

Depois de sair do quinteto e de fazer algumas apresentações enquanto freelancer, a clarinetista buscava estabilidade e pensava em voltar para a América Latina. Foi nesse momento que abriu uma vaga no Theatro Municipal de São Paulo e ela fez o processo seletivo. Desde então, Camila Barrientos Ossio ocupa a posição de clarinetista solista da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.

Quando saiu da Bolívia, acreditava ser complicado construir uma carreira musical clássica na América Latina. Hoje em dia, Ossio olha para o cenário de forma distinta, “continua existindo preconceito com ser músico clássico, mas vivemos um bom momento musical e estou achando que dá sim para construir uma carreira aqui”, afirma.

Cibelle Donza, maestra e compositora

Cibelle Donza, fundadora e regente da Orquestra Filarmônica da Amazônia
 [Imagem: Cibelle Donza/Arquivo pessoal]

Filha de artista popular do Pará, Cibelle Donza começou a frequentar o conservatório, hoje chamado Instituto Estadual Carlos Gomes, com 6 anos. “Minha mãe estava começando a estudar canto lírico e me levava junto para o conservatório porque não tinha com quem me deixar. Eu ficava olhando os instrumentos, até que falei ‘Mãe, eu quero estudar também’. No ano seguinte, ela me matriculou”, diz Donza.

Hoje em dia, Cibelle Donza é compositora, regente, diretora artística da Orquestra Filarmônica da Amazônia e professora da Escola de Música da  Universidade Federal do Pará (UFPA). Porém, sua trajetória se iniciou de forma diferente. “No conservatório, eu comecei com o piano. Depois, fui para o violão clássico e foi com esse instrumento que me formei anos depois”, afirma a regente.

Donza não nega a importância de uma formação robusta em música, mas tem críticas a metodologias aplicadas especialmente no ensino de crianças. “Mudei de instrumento, do piano para o violão, porque não suportava como certas coisas eram feitas. No piano, se você errava, alguns professores batiam na sua mão. Eu era pequena, não gostava disso”, explica.

O contato prático e teórico com música não acontecia apenas em ambientes formais, mas também em casa. O padrasto é um músico completo — produtor, arranjador e compositor) — no campo popular, próximo de estilos como blues e jazz, e estava sempre ensaiando. A mãe, estrela paraense, levava Donza para os palcos e permitia que ela se envolvesse, desde cedo, na direção artística dos espetáculos.

Entre os 6 e os 16 anos, Cibelle construiu uma rotina ao redor da escola tradicional e dos estudos de música. Aos 16, conciliou o conservatório com cursos de graduação. Ao fim da escola, Cibelle Donza teve dificuldade em escolher o que estudar na graduação. Em parte, porque estava frustrada com a falta de valorização da arte popular brasileira em detrimento de músicas europeias.

Por três anos, fez Letras na UFPA e licenciatura em música na Universidade do Estado do Pará. Na época, era possível ocupar duas vagas em instituições públicas ao mesmo tempo. “No terceiro ano dos cursos, me decidi e tranquei letras. Me formei na licenciatura e depois fiz também o bacharelado em composição musical”, afirma Donza. 

Durante sua jornada, a ajuda do professor Sérgio Molina foi essencial para que a regente e compositora conseguisse lidar com a frustração vinda da separação entre música clássica e popular. A produção acadêmica de Molina junta os dois assuntos e, sob orientação dele, Donza diz que parecia receber uma “permissão” para criar com elementos dos dois mundos.

Já formada em violão clássico, licenciatura em música e composição, estava em busca de estudar regência. O interesse veio quase como uma consequência do exercício de compor. “O que mais me interessava era escrever peças para orquestra pelas várias possibilidades de timbres”, revela. Para tanto, passou a consumir muita música orquestral e, então, veio a vontade de reger. 

“Gostava muito de compor, mas é um trabalho solitário e eu sentia falta da música viva. Eu adoro o ao vivo, adoro o palco, desde quando acompanhava minha mãe. Na regência, juntei tudo que gosto”, diz Donza.

Cibelle Donza regendo o concerto da Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz em 2016
 [Imagem: TEREZAEARYANNE/Site de Cibelle Donza]

Não havia curso de regência totalmente voltado para orquestras em Belém. Para poder estudar o assunto, Cibelle Donza fez cursos em festivais nacionais e internacionais. Aprendeu na prática também, como maestra assistente  da Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz (OSTP), em Belém. Foi a primeira mulher a ocupar tal cargo.

Para se aprofundar mais, Donza decidiu que faria mestrado em regência, mas o único mestrado em música em Belém era em educação. Diante disso, a única saída era partir da cidade. Ela escolheu ir para os Estados Unidos.

Nesse ponto, dinheiro era um empecilho, “Minha única chance de conseguir ir para os EUA era me tornar professora universitária”, diz. Ela explica que, depois do período probatório de três anos, professores universitários tinham o direito de tirar licença para estudar enquanto recebiam o salário. Com isso em mente, prestou concurso para a vaga de violão aberta na UFPA.

“Passei em segundo lugar na prova para professora de violão, mas a banca viu que meu currículo era muito mais adequado para a vaga de composição. Me chamaram para ela e foi tudo que eu queria”, Donza conta. Após a aprovação, entrou na universidade como professora e iniciou um mestrado em artes na instituição, ainda com o planejamento de ir para o exterior.

Perto do período de qualificação do mestrado corrente em artes e próxima ao fim do período probatório de professora, Donza aplicou e foi aprovada para outro mestrado, agora em regência orquestral, na Ithaca College de Nova York. “Vejo minhas fotos de quando me formei lá nos EUA e no meu rosto tinha o sorriso mais sincero da vida”, afirma.

Com o título de mestre em mãos, a regente retornou ao Brasil e voltou ao cargo de professora de composição na universidade federal. Além disso, fundou a Orquestra Filarmônica Brasileira e é neste espaço que constrói sua carreira de maestra. Já regeu orquestras brasileiras que tocavam as próprias composições, como a Orquestra Sinfônica da UNICAMP (OSU) e a Orquestra de Câmara da USP, e de países estrangeiros, como a Cornell Open Orchestra nos EUA.

No final de agosto, recebeu o Prêmio Sebrae Amazônia de Música de melhor regente.

Playlist

As entrevistadas recomendaram algumas músicas que consideram favoritas. Confira os nomes à seguir:

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