Jornalismo Júnior

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Conceição Evaristo mostra o sofrimento por meio do belo em ‘Olhos D’água’

A escritora e educadora mineira explora as identidades e experiências da negritude sob as lentes da literatura poética em coletânea de 15 contos
Conceição Evaristo como figura central com o recorte da frase, Eles combinaram de nos matar, Nós combinamos de não morrer em Oswald ; ao fundo pequenos recortes de jornais com flores brancas, com preferência a paleta de cores branca e azul claro que remetem ao livro.

Por Nathalia Monteiro (nathaliam.jesus21@usp.br)

Conceição Evaristo, renomada escritora e poeta brasileira, é conhecida pela utilização da literatura como instrumento individual para trazer as nuances de um coletivo, pois manifesta através das palavras a complexidade de um povo. ”Nós não escrevemos para adormecer os da casa-grande, pelo contrário, é para acordá-los dos seus sonhos injustos”, declara em entrevista para TV Brasil.

Essa é a principal premissa de sua antologia de contos Olhos D’água (Pallas, 2014), obra marcada por personagens que retratam as vivências da negritude brasileira observadas pela autora no cotidiano. Através dos contos, Conceição chama a atenção para violências estruturais invisibilizadas e seus impactos psicológicos e sociais na população afrodescendente. 

O termo escrevivência, criado pela escritora, busca evidenciar as pluralidades que simbolizam a população negra sobre o recurso da memória e vivência individual e coletiva. Com uma escrita caracterizada pela abordagem poética em textos de prosa, Conceição aponta as realidades de um povo marginalizado com o público feminino como protagonista, que corresponde como personagem principal da maioria dos contos da obra. 

A autora também conta com os romances Ponciá Vicêncio (Pallas, 2003) e Becos da Memória (Pallas, 2006); o livro de poemas Poemas de Recordação e Outros Movimentos (Malê, 2008); e os contos Insubmissas Lágrimas de Mulheres (Malê, 2011), Histórias de Leves Enganos e Parecenças (Malê, 2016) e Canção para Ninar Menino Grande (Pallas, 2018). 

“O que a história não nos oferece, a literatura pode oferecer. Esse vazio histórico é preenchido pela ficção.”
Conceição Evaristo

Uma escritora a todo vapor

Conceição Evaristo é uma professora aposentada, escritora e poeta nascida no Morro Pindura Saia, comunidade localizada no centro de Belo Horizonte. Sua trajetória acadêmica iniciou no Rio de Janeiro, onde lecionou por mais de três décadas na rede municipal. Dentre suas formações, estão a graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o mestrado em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e o doutorado em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Ela foi revelada ao mundo em 1990, através da antologia Cadernos Negros, produzida pelo coletivo Quilombhoje, um projeto criado em 1978 que visa veicular produções literárias feitas por autores negros, um nicho invisibilizado no país naquela época. Seu primeiro romance publicado foi Ponciá Vicêncio (Pallas, 2003), obra que explora temas como a ancestralidade, exclusão e pertencimento, assuntos presentes em todo o acervo da autora.

Conceição Evaristo, uma mulher negra com cabelos grizalhos e caheados vestida com uma camiseta com cores quentes e um chale vermelho, é apresentada sentada gestivulando para uma entrevista.
Conceição Evaristo é ganhadora da 57° edição do Prêmio Jabuti para a categoria “Contos e Crônicas” pelo livro Olhos D’água [Imagem: Reprodução/Youtube/Centro Cultural Vale Maranhão]

A escritora tem uma forte ligação à militância negra, principalmente a interseccionalidade entre feminismo e negritude. Sua primeira conexão com a herança africana foi através do convívio familiar, presente por histórias de resistência relatadas pela sua família. “As histórias que eram contadas dentro de casa, mesmo as histórias de escravização, foram sempre histórias contadas com muito orgulho.”, expressou para o quadro Negritude Atitude.

Segundo Conceição, os afrodescendentes são o alicerce do Brasil.  “Os povos africanos escravizados construíram essa nação”, citou. Ela acredita que a negritude mora no reconhecimento e identificação da própria ancestralidade a partir da reconexão com as origens africanas, afirmando a própria afro-brasilidade.

A antologia Olhos D’água surge em 2014 através de um projeto entre o Ministério da Cultura e a Biblioteca Nacional de apoiar produções literárias de escritores afrodescendentes. Ela é composta tanto por contos publicados na 13° edição de Cadernos Negros quanto por trabalhos inéditos de sua autoria. O livro é conhecido por histórias que dialogam com a negritude brasileira através de narrativas em primeira pessoa que exploram as identidades por meio das relações afetivas e conflitos internos dos personagens.

Protagonização da maternidade

Olhos D’água, conto que intitula intitulariza e inaugura a coletânea, expressa a atmosfera familiar por uma narrativa que guia o questionamento: “De que cor  eram os olhos da minha mãe?”. A autora utiliza a saudade e a memória do eu lírico como recurso para explorar a realidade de uma mãe que camufla o cenário da pobreza no imaginário dos filhos para proteger a ingenuidade da infância. 

“O cuidado da minha poesia aprendi foi de mãe, mulher de pôr reparo nas coisas e de assentar a vida. A brandura de minha fala na violência de meus ditos, ganhei de mãe, mulher prenha de dizeres, fecundados na boca do mundo.”
Poema “De Mãe” de Conceição Evaristo

A inspiração para esse escrito aparece a partir da experiência pessoal da autora, que utiliza as memórias da própria infância como expressão. Em entrevista para o Ligado na Obra, plataforma do portal educacional FTD Educação, Conceição relembrou, “ela era aquela mulher arredia, mas que estava sempre relacionada com as filhas. Então Olhos D’água tem muito da relação com a minha mãe, inclusive aquela brincadeira de olhar o céu e reconhecer as nuvens.”

A perspectiva da narradora com a compreensão do sentimento materno com o nascimento de Ainá, sua filha, é o principal ponto que ressalta a ligação entre a personagem e a autora. “Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma se tornam o espelho para os olhos da outra”, reflete a personagem principal no final do conto.

Conceição Evaristo e  sua mãe, uma mulher idosa com cabelos brancos e roupas claras, estão sentadas em um quintal repleto de plantas e árvores
“Ser mãe, antes de tudo, é essa capacidade de ser generoso, de abrir mão em prol do outro. E nem todo mundo é capaz disso.”, afirma Conceição para o quadro Ocupação do instituto Itaú Cultural e demonstra  que as personagens refletem os contatos maternos da autora [Imagem: Reprodução/YouTube/Itaú Cultural]

Em entrevista à Jornalismo Júnior, a psicóloga Alessandra Coelho afirma que a maternidade é vista na sociedade como um vínculo identitário que define o lugar feminino e centraliza a função social das mulheres no país. “Hoje, dentro de um mundo capitalista, a sociedade entende a mulher como uma extensão da maternidade. Eles não entendem, que nós enquanto mulheres,  mesmo sendo mães, temos o direito de ter espaço para o profissional também.” Ela  afirma que há desproporcionalidade entre a maternidade e à paternidade, pois existe uma sobrecarga da mulher no trabalho de cuidado, que limita o desenvolvimento do público feminino. 

Contos como Maria e Quantos filhos Natalina teve? também exploram a maternidade como temática e estabelecem diferentes panoramas da maternidade em meio à violência social. Para Tamires Sales em seu artigo, podemos perceber que, por meio da escrita sensível e crítica de Conceição Evaristo, existe a intenção de dar às suas personagens negras o título de mãe, que antes lhes foi restrito, assim como de possibilitar-lhes outras formas de maternidade.”

A marginalização da juventude

Nos contos Di lixão, Zaita esqueceu de guardar os brinquedos e Lumbiá, a autora escancara como os efeitos da marginalização social e a banalização da barbárie no cotidiano reverberam na fase de amadurecimento da coletividade negra.

Josenaide Engracia e Ileno Izidio, em Vida contada, vida vivida: racismo e sofrimento psiquico, afirmam que “diante do ideal branco, o corpo negro pode ser vivido como uma ferida aberta. É um sofrimento que impõe, ao negro, o desejo de introjeção ideal da brancura.” Do mesmo modo, Conceição procura retratar, por meio dos personagens, a realidade da juventude negra brasileira, que cresce sob um sistema que instrui o pensamento coletivo da população afrodescendente para o repúdio à própria ancestralidade e a reprodução do ciclo da violência.

Para a psicanalista Maria Lucia da Silva, o racismo estrutural atravessa todos os aspectos da vida social e impõe uma carga constante de estresse psíquico às pessoas negras. “O sujeito negro é muitas vezes interpelado não como sujeito de desejo, mas como objeto de projeções coloniais e violentas, o que gera marcas psíquicas profundas, vividas como humilhação, silenciamento, hipervigilância e medo.”, citou em entrevista para Cut Brasil.

As inspirações para os textos surgem no Amarelinho da Cinelândia, bar histórico localizado no centro do Rio de Janeiro. Lá a escritora teve contato com uma criança que vendia amendoim. ”Me impressionou muito a ganância com que o menino falava do outro. Quando eu vi aquele menino, tão menino, tão vulnerável, mas também tão passível de raiva e ódio, eu fiquei com aquilo na cabeça e me nasceu um outro conto”, mencionou para o quadro Ocupação Conceição Evaristo, projeto produzido pelo Itaú Cultural.

Alessandra afirma que, durante a infância, a sucessão às variações do meio em que àquele indivíduo vive é maior, pois, devido a fase de desenvolvimento humano, as crianças são consideradas esponjas sociais. Assim, a partir das interações socioafetivas a identidade e percepção do mundo são construídas. A infância para o grupo social retratado no livro é definida pela violência institucionalizada e normalizada nos ambientes sociais, que constrói a concepção de si em um ambiente hostil, no qual a escritora evidencia as raízes que produzem uma juventude marginalizada.

As lágrimas negras não moram mais no escuro

A gente combinamos de não morrer e Ayoluwa, a alegria do nosso povo, são dois contos com mensagens opostas que simbolizam o movimento de resistência da população afrodescendente no Brasil. Para Amanda Nunes e Flávio Pereira em A palavra que movimenta a existência, “a obra de Evaristo não apenas denuncia a operacionalização da morte, mas também celebra a potência da vida que insiste em florescer mesmo sob as condições mais adversas, revelando a necropolítica como uma força que atua não só na imposição da morte, mas na supressão das condições de vida digna.”

Em uma narrativa não linear — uma técnica de escrita de narração de eventos em ordem não cronológica —, A gente combinamos de não morrer, denota os efeitos da normalização da violência. A autora utiliza de visões de personagens interligados como construção para o entendimento dos caminhos que resultam na tragédia principal da história. Ela retrata a abordagem da morte de um jovem como demonstração de uma juventude condenada pela estrutura que se apresenta como responsável por perpetuar a desigualdade racial e econômica.

“Não gosto de filmes da tevê. Morre e mata de mentira. Aqui, não. Às vezes a morte é leve como a poeira. E a vida se confunde com um pó branco qualquer. Às vezes é uma fumaça adocicada enchendo o pulmão da gente.”
Trecho de A gente combinamos de não morrer

Ayoluwa, a alegria do nosso povo é um conto que nasce como símbolo de resistência das comunidades afro-diaspóricas, já que comunica mais do que a celebração de um novo membro, mas o renascimento de um grupo enfraquecido pelas dificuldades. “O nascimento de Ayoluwa parece ser o princípio da reversão desse cenário de desesperança. É como se a criança fizesse brotar alegria, como se renovasse as esperanças e reconectasse o sentimento de unidade.”, declaram Marcos Aparecido e Eliane da Silva em artigo sobre o tema.

“Toda a comunidade, mulheres, homens, os poucos velhos que ainda persistiam vivos, alguns mais jovens que escolheram não morrer, os pequenininhos que ainda não tinham sido contaminados totalmente pela tristeza, todos se engravidaram da criança nossa, do ser que ia chegar.” Como demonstrado no trecho do conto, o nascimento representa a reinvenção narrativa de um grupo, que enxerga a partir da continuação da linhagem as possibilidades de reconstrução do legado cultural. A obra apresenta a importância das tradições e da representatividade para o reconhecimento de um povo. 

Em entrevista à Jornalismo Júnior, Wanderley Gomes, graduado em história, declarou que a valorização da arte afro-brasileira é essencial para a reafirmação da identidade e da ancestralidade. Também pontuou que, principalmente a literatura, é carregada de influências dos descendentes de povos africanos. ”Isso valoriza muito a literatura brasileira. É muito importante porque é a identidade de uma cultura, de uma origem afrodescendente. Então é magnífico para a gente reafirmar a valorização afro-brasileira. A arte do Brasil está repleta da descendência afro-brasileira.”

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