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‘O Sorveteiro’: terror de baixa qualidade para mentes cooptadas pelo Brain Rot

Fim do ano letivo, dia ensolarado no parque, muito sorvete e… sangue? A cidade de Bayleen Bay se derrete em caos — assim como os cérebros dos espectadores — em uma guerra de crianças (e sorveteiro) contra adultos
Por Renata Paes (renatapaes777@usp.br)

O terror contemporâneo precisa se reinventar, mas o que Eli Roth pretendia fazer aqui? Diretor de O Sorveteiro (Ice Cream Man, 2026) e nome polarizador do gênero sombrio, Roth tenta ultrapassar os limites do horror ao apostar desde no humor barato até no gore extremo — representações explícitas de sangue e violência — protagonizado por crianças. O filme estadunidense chega ao Brasil nesta quinta-feira (3) já massacrado pela crítica.

Com o mesmo título da produção de 1995, dirigida por Paul Norman, o longa se distancia daquele filme para apresentar uma história original que, diante da precariedade do roteiro, faz a ideia de um remake parecer mais atraente. 

A trama se inicia na aparentemente pacata Bayleen Bay. Faltam poucos dias para o início das férias escolares, e crianças e adultos parecem já entregues ao clima descontraído do verão. É nesse cenário que o espectador conhece os principais personagens. Durante uma partida de baseball, um carrinho de sorvete surge para roubar a atenção dos pequenos, acompanhado por um jingle de melodia inquietante.

O que aparenta ser apenas a chegada de um novo empreendimento rapidamente se transforma no estopim para o colapso da cidade. Depois de consumirem o sorvete, as crianças se tornam violentas em poucas horas e passam a perseguir e assassinar os adultos em uma sucessão de mortes grotescas. 

Apenas três delas escapam da maldição; Jared (Charlie Zeltzer), intolerante à lactose; Mia (Kiori Mirza Waldman), que vomita o doce depois de experimentá-lo; e Tommy (Shiloh O’Reilly) que transforma os pequenos em uma espécie de exército sob o comando do sorveteiro, interpretado de modo fajuto por Ari Millen: sem falas, sempre com a mesma expressão de escárnio independente do que a cena exige. Cabe aos três, portanto, impedir a onda de homicídios recreativos.

Eli Roth, roteirista e diretor que também interpreta o pai de Jared, construiu sua carreira no horror a partir do gosto pelo excesso. Desde Cabana do Inferno (Cabin Fever, 2002) e, sobretudo, O Albergue (Hostel, 2005), o cineasta se tornou um dos nomes associados à vertente mais gráfica e provocadora do gênero. Depois de incursões por diferentes registros, Roth voltou ao slasher com Feriado Sangrento (Thanksgiving, 2023), retomando a violência muitas vezes maçante que se tornou uma de suas marcas. 

Em O Sorveteiro, no entanto, essa fórmula parece ter chegado ao esgotamento: o que antes funcionava como provocação aqui se resume a uma coleção de mortes grotescas e uma tentativa insistente de chocar que, eventualmente, deixa de provocar qualquer coisa além de cansaço.

A primeira morte já estabelece o tom descomedido que acompanha todo o longa: possuída, uma garota assassina a própria mãe com uma serra elétrica enquanto o jingle do carrinho de sorvete ecoa pela casa durante a madrugada. 

O gore atinge seu ápice quando as crianças transformam um cérebro em uma espécie de massa de sorvete, servida em uma casquinha que é enfiada na boca de um cadáver.

Os sabores anunciados em seu caminhão têm nomes como Lambida de Gafanhoto e Redemoinho de Serpente
[Imagem: Reprodução/Diamond Films] 

O uso de efeitos visuais também merece atenção. Nos momentos em que o grupo de crianças possuídas persegue suas vítimas, a aceleração artificial de seus movimentos confere às cenas um aspecto caricatural, fazendo com que a sequência provoque mais estranhamento — e até certo humor involuntário — do que medo. 

A trilha e os recursos de som, por outro lado, são utilizados para acentuar as cenas de violência, reforçando o impacto de cada golpe e tornando os assassinatos ainda mais explícitos. Enquanto alguns mecanismos são realizados de forma prática, outros recorrem à computação gráfica. A qualidade dos efeitos digitais, contudo, é tão questionável que até um espectador sem qualquer familiaridade com Inteligência Artificial consegue reconhecer sua presença.

As atuações também deixam a desejar. As personagens são pouco carismáticas e seus desempenhos são mecânicos. O trio não infectado exerce suas falas desajeitadamente e parece formar tudo menos um grupo forte e unido para combater o vilão. 

Em relação às maquiagens, os meninos possuídos adquirem uma aparência pálida com olheiras vermelhas fundas e a boca suja de sorvete, o que, sinceramente, oferece mais um toque de humor do que de terror.

O trio de não infectados ocupa o lugar
da tradicional Final Girl do terror 
[Imagem: Reprodução/Diamond Films]

Os adolescentes Lizzie (Sarah Abbott), irmã de Jared, e Chris (Dylan Hawco), seu ex-namorado, assumem um papel de resistência complementar no desenrolar da história. Na guerra de crianças contra adultos, os jovens assustados com o caos instaurado na cidade procuram se juntar ao trio ainda lúcido. 

A entrada do antigo casal na trama também confunde o público, sua integração ao grupo de resistência acontece de maneira abrupta e pouco desenvolvida já nos momentos finais do longa. A atuação dos jovens, portanto, parece mais uma necessidade do roteiro do que uma consequência orgânica da narrativa. 

Por trás do rastro sangrento deixado pelo sorveteiro — figura que encabeça os homicídios —, existe uma motivação que só é revelada nos momentos finais do filme e que, assim, traça sua trama e reviravolta.

A filmagem parece acompanhar de perto os acontecimentos da trama. Nas cenas de ação, a câmera treme em sintonia com o que se desenrola na tela, enquanto, nos momentos de correria, acompanha sem cortes os movimentos das personagens. 

A escolha confere maior dinamismo às sequências e intensifica os momentos de clímax de maneira interessante. Em meio às escolhas pouco inspiradas do longa, essa técnica se destaca como um dos recursos que efetivamente contribuem para a história. 

Já em relação aos cortes e à composição das cenas, a montagem deixa a desejar: a passagem de um acontecimento para outro nem sempre é fluida, fazendo com que falte uma espécie de “costura” capaz de conectar os diferentes atos do longa.

As jogadas com palavras e os trocadilhos espertos também estão entre os poucos pontos positivos de O Sorveteiro. Quando Jared pergunta se Mia consegue vomitar o doce, a resposta é inusitada e cômica: “Eu sou uma garota de 12 anos, você acha que não sei como forçar vômito?”. 

No mais, a produção parece o resultado mais fiel de uma mente cooptada pelo fenômeno do brain rot — expressão usada para descrever um estado de saturação provocado pelo consumo excessivo de conteúdos rápidos, repetitivos e pouco substanciais na internet. Cenas de matança explícita em cortes rápidos, órgãos humanos saltando de corpos mortos de forma surreal, atuações baratas, transições de cena explícitas e usos de IA são alguns dos pontos que permitem a comparação com o tal fenômeno do “cérebro podre”.

O filme se encerra de maneira abrupta, deixando a sensação de que a história chega ao fim antes de conseguir desenvolver plenamente seus conflitos ou solucionar os furos do roteiro. 

Em contrapartida, o desfecho surpreende ao subverter uma tradicional lógica que costuma prevalecer no slasher. A escolha é interessante por contrariar a expectativa criada ao longo da narrativa, ainda que não seja suficiente para compensar as fragilidades que conduzem até ela.

O longa parece operar sob o mesmo princípio: uma sucessão de estímulos, homicídios bizarros e tentativas de humor que se acumulam sem construir uma experiência verdadeiramente divertida. O problema é que ser trash não significa necessariamente ser ruim. Há produções que abraçam o absurdo  para proporcionar ao público uma experiência tão exagerada que se torna prazerosa. 

Se o objetivo era construir um filme estilo O Ataque dos Tomates Assassinos (Attack of the Killer Tomatoes!, 1978), uma junção de terror e humor barato, o uso de inteligência artificial descarado poderia ter sido evitado. O mecanismo, muito criticado pelo público, causa desconforto visual. 

Além disso, o clímax da história poderia ter sido apresentado mais cedo. Inserido nos últimos minutos da trama, o desenvolvimento é impossível, o que resulta em um desfecho desajustado para a trama.

Por mais perturbadores que sejam os takes apresentados, a sucessão excessiva de momentos de violência acaba anestesiando a plateia e impede que ela experimente o principal sentimento que o gênero deveria provocar: o medo.

O Sorveteiro parece confundir demasia com entretenimento e transforma sua própria extravagância em desgaste. Ao final, sobra menos a sensação de ter assistido a um filme deliberadamente ruim e divertido do que a de ter sobrevivido a quase duas horas de conteúdo sem propósito — um verdadeiro caso de brain rot cinematográfico.

O Sorveteiro já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:


*Imagem de capa: [Imagem: Reprodução/Diamond Films]

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