Por Laura Cristofoletti (lauracristofoletti@usp.br)
Em que momento os óculos de lentes cor-de-rosa se abaixam e deixamos a magia da infância para trás? Essa é a questão levantada pelo filme A Maravilhosa Árvore Encantada (The Magic Faraway Tree, 2026), que estreia em 10 de setembro nos cinemas. O longa dirigido por Ben Gregor e protagonizado por Andrew Garfield e Claire Foy busca trazer o gênero da ficção infantil para os dilemas do mundo moderno, através da reciclagem de topos clássicos da literatura fantástica.
A história se inicia quando Polly (Claire Foy), mãe da família protagonista do longa, é demitida de sua empresa após se recusar a assinar um projeto que violaria a privacidade de seus clientes. A partir disso, ela e seu marido Tim (Andrew Garfield) passam a questionar os valores da vida que levam com seus filhos na cidade, com uma crítica explícita ao uso de tecnologia pelas crianças, Beth (Delilah Bennett-Cardy), Frannie (Billie Gadsdon) e Joe (Phoenix Laroche), e à vida acelerada da metrópole.
É nesse cenário que os pais recorrem a um antigo “livro de sonhos”, criado pelos dois quando jovens, e decidem dar uma chance a um antigo desejo: se mudar para uma antiga vila, na qual Tim foi morador quando criança, e tentar ganhar dinheiro através da produção de molhos de tomate caseiro. A narrativa, então, foca na realocação da família Thompson a uma nova casa, que pode, ou não, abrir portas para um mundo que permite uma espontaneidade sem espaço para florescer no rígido paraíso moderno.

[Imagem: Reprodução/Diamond Filmes]
Ao chegar na casa que será a nova moradia da família, o filme já apresenta a essência da relação entre os cinco personagens. Polly é uma mulher moderna que se orgulha de poder ser a provedora da casa, mas vive com o fantasma da desaprovação da própria mãe dizendo-a que seus esforços não são suficientes. Tim, o pai “dono-de-casa’, apresenta o espírito de “Peter Pan” de um homem que nunca deixou as fantasias da infância para trás, mas que não encontra lugar na vida adulta para usá-las a seu favor.
A atuação de Andrew Garfield, aliás, pode surpreender os espectadores acostumados a vê-lo retratando personagens mais novos. Aqui, o britânico de 43 anos retrata um pai de família de forma leve e descontraída, como se para lembrar aos fãs mais antigos que ele não é mais o garoto que interpretava o jovem Peter Parker. Já Claire Foy faz o caminho oposto ao de Garfield, trazendo humor a sua personagem e se distanciando da Rainha Elizabeth II, a qual se tornou famosa por interpretar em The Crown (A Coroa, 2016-2022).
Os filhos do casal fazem parte dessa dinâmica disfuncional clássica dos filmes do gênero fantástico infantojuvenil, que é apresentada através da relação entre o pai emocional e a mãe racional no casal principal. A filha mais velha, Beth, representa a conexão com o mundo moderno que se opõem aos desejos dos pais, enquanto Joe, o filho do meio, é o alívio cômico que a tensão promovida pelas brigas da família exige. O foco aqui, no entanto, centra-se em Frannie, a caçula, que é a responsável por encontrar o mundo que revoluciona a vida da família.
Em seu primeiro contato com as fantasias do filme, Frannie, uma garota tímida e que não tem falas durante os primeiros vinte minutos do longa, se encontra com Silky (Nicola Coughlan), uma fada moradora do bosque próximo a residência da família. A fada, fascinada com a generosidade apresentada pela garota, convida-a para conhecer sua casa: a Maravilhosa Árvore Encantada. Após esse primeiro encontro, a menina quieta do início do filme logo desaparece, e assim, inicia-se uma história de amadurecimento, refletido em todos os personagens.
A construção desses estereótipos fortalece a narrativa ao mostrar desde os primeiros momentos o papel de cada personagem no desenrolar da história, mas também traz certa comodidade ao roteiro, que não busca performar grandes evoluções além do comum para as figuras. O crescimento deles enquanto o filme corre é claro, porém segue uma trajetória clichê e sem desvios. Enquanto as crianças passam a enxergar mais o mundo ao seu redor, os pais passam a experienciar um mundo anterior à vida adulta, o que, embora comovente, não é surpreendente como o prometido.
Neste momento, o filme dá voz a um de seus maiores destaques: a computação gráfica utilizada para ilustrar o mundo de fantasias conhecido pelas crianças, que trabalha de forma única juntamente com a produção e direção de arte do longa para criar um universo saturado mas sem artificialidades. O supervisor da equipe de efeitos visuais Ruslan Borysov, responsável pelo CGI, também participou da produção de obras como X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past, 2014) e A Vigilante do Amanhã (Ghost in the Shell, 2017).
Já na árvore, Frannie conhece personagens como Moonface (Nonso Anozie), Homem-Panela (Dustin Demri-Burns) e Dona Lava-Tudo (Jessica Gunning), que logo apresentam-na a um dispositivo que permite que os moradores da Árvore se transportem entre diversos mundos, como a Terra dos Aniversários, a Terra dos Sabe-Tudos e a Terra das Guloseimas. Ao inserir a personagem neste contexto, o roteiro apresenta tanto a Frannie quanto ao público uma realidade totalmente oposta à conhecida pela protagonista, e é nessa descoberta que residem as aventuras principais da história.

da série Bebê Rena (Baby Reindeer, 2024)
[Imagem: Reprodução/Diamond Filmes]
Posteriormente, com a descoberta da nova fase da família pela mãe de Polly (Jennifer Saunders), eles se deparam com uma nova questão: como esse desejo de Tim pode sobreviver às exigências da vida real? Seria possível sustentar um sonho em um lugar desprovido de mágica? A resposta é apresentada quase instintivamente pelos personagens: é preciso aprender a enxergar com as lentes cor-de-rosa da infância novamente para poder viver sem medo em um ambiente desprovido de fantasias.
Neste ponto, a direção acerta ao mudar o sentido do antagonismo do filme para longe dos erros individuais dos personagens e apontar para as circunstâncias nas quais estes foram desenvolvidos. Aqui, os verdadeiros vilões não são Beth, com sua descrença generalizada, ou a avó, que quer controlar a vida da filha, mas sim, uma realidade que não permite que seus cidadãos sonhem para além das margens do capitalismo. A união familiar já foi estabelecida, o foco agora é fortalecer a magia encontrada para evitar que o cinismo do mundo real a destrua.
O filme acerta em muitos pontos da narrativa, mesmo que apostando em cartas já muito usadas por obras do mesmo segmento. Os “topos” da irmã mais velha descrente das tentativas dos pais de fazê-la feliz, do reencontro do pai com suas alegrias infantis e da descoberta da protagonista de uma natureza que se mostra muito mais revolucionária que o mundo tecnológico conhecido por ela soam como uma reciclagem simples mas efetiva de filmes como Nanny McPhee: A babá encantada (Nanny McPhee, 2005) e Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida (The Lorax, 2012).
Mas os problemas do longa também recaem nessa repetição. Mesmo que não mostre um deslize explícito em sua narrativa, não há nada de novo sob as telas, e a história acaba por se perder em meio às diversas possibilidades de finais verdadeiramente extraordinários que o diretor poderia ter optado.
Apresentar um final feliz, em que a família se une e aprende com os erros do passado é razoável, mas deixa a desejar quanto a o que mais podemos esperar de filmes com a mesma temática. Será que ainda há alguma moral nova a ser ensinada em fantasias infantis?
A direção também peca ao não trazer mais profundidade aos personagens fantasiosos apresentados, o que parece irônico considerando a própria crítica feita na história quanto ao apagamento das criaturas. Se a intenção do filme é chamar atenção aos detalhes mágicos da infância que não devem ser esquecidos, o diretor acaba por cair em sua própria armadilha ao optar por não mostrar mais do mundo que os contorna.
A magia do filme se mantém mesmo com os descuidos do roteiro. A história d’A Maravilhosa Árvore Encantada, no final, supera a mera intenção de divertir famílias por um período de duas horas e gera reflexões quanto ao papel do mundo moderno na infância, com críticas ao uso exacerbado de tecnologias e a princípios que põem crescimento econômico acima de um clima de bem estar entre a população. A escolha dos pais de se mudar para o campo resolveu, então, não apenas as necessidades da família de combater a desunião, mas também uma questão maior: a desumanização que é tirar de uma criança a habilidade de sonhar.

A Maravilhosa Árvore Encantada já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: [Reprodução/Diamond Filmes]
