Por Theo Zapella (theozapella@usp.br)
No dia 4 de outubro de 2026, eleitores e eleitoras paulistas irão às urnas para decidir quem será o próximo candidato a ocupar o cargo de Governador do estado de São Paulo. A principal disputa da corrida eleitoral paulista se concentra entre o atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tendo como vice Felício Ramuth (MDB), e o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), cujo vice é Márcio França (PSB).
Nesta matéria, a J.Press se debruça sobre as principais propostas de governo do candidato Fernando Haddad, que agora concorre ao governo paulista, mas que também passou por cargos como Ministro da Fazenda (2023-2026), Prefeito de São Paulo (2013-2016) e Ministro da Educação (2005- 2012).
Plano de governo
O candidato, que deixou o Ministério da Fazenda para concorrer ao cargo de Governador, tece críticas, em seu plano de governo, à atual gestão de Tarcísio de Freitas ao analisar as dinâmicas atuais de São Paulo: “Rodei o estado e […] o que encontrei foi uma situação pior do que eu imaginava: um governo que entrega pouco, muito menos do que toda a força paulista é capaz de gerar.”
Em linhas gerais, as diretrizes lançadas na campanha de Haddad abordam eixos como segurança, educação e saúde. O candidato ressalta que, mesmo São Paulo sendo o estado com as maiores economia e infraestrutura do país, em índices como o de alfabetização e de crescimento da renda familiar, o território paulista se encontra pior em relação à outros estados.
Segundo a Lei Orçamentária Anual (LOA), o estado de São Paulo teve, em 2026, um orçamento de R$ 382 bilhões, dos quais, desse total, R$ 33 bilhões (aproximadamente 8,73%) foram destinados à educação. Com esses recursos, o território paulista ocupa a quarta posição no ranking do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). O pódio é ocupado por Paraná, Santa Catarina e Ceará, respectivamente. Em comparação, o investimento dos três estados juntos (aproximadamente R$ 36,5 bilhões) é quase igual ao total investido por São Paulo.
Existem diferenças populacionais entre as unidades federativas. Juntos, os três estados que lideram o ranking têm uma população de cerca de 29,5 milhões de habitantes, enquanto São Paulo possui cerca de 46 milhões. Seu desempenho nos rankings, para Haddad, evidencia que “o que falta a São Paulo é um governo que assuma a educação como obra de estado”.
Em debates, discursos e no plano de governo, Haddad atribui esse fenômeno a um problema de gestão de recursos e uma falta de preparação dos atuais governantes paulistas.
Segurança pública
Haddad elenca o tema da segurança pública como a “prioridade número um” de seu mandato. Dentre suas propostas, destacam-se a criação do ‘SP Protege’ — programa para a segurança de São Paulo —, pautado na incorporação de tecnologia e integração de sistemas para reduzir os casos de violência e roubo do estado.

“Você não perde tempo e a polícia ganha em agilidade. Fácil para você fazer o registro da ocorrência, e difícil para o bandido ficar impune”, afirmação feita por Haddad em um vídeo publicado nas redes sociais do candidato para divulgar o programa, que tem como eixo central a “impunidade zero”. A atuação é dividida em três grandes frentes: “nas ruas”, “nas casas” e “no andar de cima”.
A proposta também inclui um comprometimento em publicar um Placar de Segurança a cada três meses, apresentando dados sobre roubo, furto, homicídio e feminicídio, “com dados abertos por região e metas públicas”.
Nas ruas, Haddad pretende integrar policiais e guardas municipais, ampliar a presença de agentes em campo e inserir o uso de Inteligência Artificial (IA) como forma de agilizar a assistência ao cidadão — por meio do cruzamento de dados, acesso às câmeras de segurança e formulação de mapas com as ocorrências. Além disso, se mostra favorável à gravação ininterrupta de câmeras corporais e corregedorias mais eficazes para diminuir a violência policial, como dito em sua entrevista ao Roda Viva.
Nas casas, o foco se dá na maior proteção de mulheres, crianças e idosos. Entre as propostas, estão o funcionamento 24h de Delegacias da Mulher em regiões de maior ocorrência, a adesão ao Alerta Mulher Segura, o atendimento especializado em ocorrências com crianças e adolescentes e a incorporação de IA para receber chamados de forma mais ágil.
Já na frente “no andar de cima”, Haddad se debruça, principalmente, no combate ao crime organizado — agenda presente nas propostas e planos de governo da maioria dos candidatos. Ele propõe a criação de um “Agência Estadual Anti-facção”, presidida por ele em parceria com o Ministério Público, polícias, Receita Federal, e outros órgãos de controle de nível estadual e federal.
No programa Roda Viva, da TV Cultura, o candidato disse que esse plano é a “única saída” para a desmobilização de facções, pois analisa que, na atualidade, a cooperação entre as diferentes frentes do governo no combate ao crime organizado não é vista como regra, e sim como uma exceção: “Enquanto estivermos fragmentados e com uma falsa disputa de protagonismo, não iremos chegar lá [no combate ao crime organizado]”.
Saúde
Quando questionado no Roda Viva sobre o que fará para melhorar as filas e esperas para atendimentos na saúde pública, Haddad defende a criação de novas estruturas que manejem as demandas da população de forma mais ágil e eficaz. Também aponta a problemática da ausência de gestão inteligente no sistema de filas existente na atualidade.
Assim como em suas propostas relacionadas à segurança, o candidato também aposta em uma integração entre os diferentes sistemas para aumentar a eficiência dos atendimentos: “Vamos fazer o posto, o ambulatório, o hospital e o laboratório trabalharem juntos. Eles estarão integrados, com registros clínicos unificados, facilitando a continuidade, a qualidade e a segurança do cuidado dedicado a cada paciente em qualquer serviço do SUS em que ele for atendido”.

Outra aposta de Haddad para o campo da saúde é a criação da Farmácia Popular Móvel, um fortalecimento do serviço já existente, para que possa chegar a mais pessoas de forma mais rápida, com entregas a domicílio. Segundo o candidato, isso é uma forma de contemplar e beneficiar pessoas que não tem condições de enfrentar as filas para a retirada dos remédios ou possuem problemas de deslocamento.
Também na esfera da saúde, Thais Bilenky, jornalista do UOL, perguntou ao candidato no Roda Viva o que fará e qual sua visão sobre os jogos de aposta, que estão no centro do debate público brasileiro. Apesar de ser um tema da alçada do Governo Federal, Haddad, como ex-ministro da Fazenda e atuante no assunto, declarou-se favorável à proibição das Bets e apontou-as como um grande problema de saúde pública. Ele atrelou o avanço dessas plataformas ao descaso na criação de leis de fiscalização e controle durante o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — com quem Haddad disputou as eleições presidenciais no ano de 2018.
Educação
Para a educação, Haddad propõe o fortalecimento de instituições públicas de ensino, apostando nesses espaços como uma “porta para a prosperidade”, de acordo com o seu plano de governo.
O candidato, que já foi Ministro da Educação durante os governos Lula e Dilma entre 2005 a 2012, enaltece e propõe melhorar tanto as instituições de formação básica (das quais menciona Etecs, Fatecs e o Centro Paula Souza) e as instituições de ensino superior e de fomento à pesquisa (USP, Unicamp, Unesp e FAPESP).
Sobre as universidades, também reitera que um de seus compromissos é o respeito à “autonomia universitária e a estabilidade do financiamento que a sustenta” e reforça que as políticas de permanência que sustentam muitos estudantes dentro das instituições devem ser valorizadas, “porque vaga sem condição de ficar não é oportunidade”.

Fernando Haddad também menciona a maior valorização aos professores como forma de elevar a qualidade do ensino do estado. O candidato apresenta dados de que, durante a gestão Tarcísio, as crianças paulistas foram alfabetizadas abaixo da média nacional. No seu plano de governo, ele aponta que “Pela régua federal do Ministério da Educação, 61% das crianças paulistas da rede pública foram alfabetizadas na idade certa em 2025, contra 66% na média nacional”.
Haddad ainda faz uma comparação entre o índice de alfabetização de São Paulo com o do Ceará, que demonstram uma discrepância de resultados desfavorável para o território paulista, mesmo esse sendo um estado de grande protagonismo financeiro no país”.
“O Ceará, com uma fração da riqueza paulista, alcançou 84%, graças a um regime sério de colaboração entre estado e municípios e ao apoio efetivo a quem está na ponta.”
Fernando Haddad
*Esta reportagem foi produzida pela repórter Theo Zapella sob a supervisão da diretora de redação Gabriela César.

