Por Cecília Barros (ceciliaabarros@usp.br), Isabela Gonçalves (isabelagds@usp.br) e Renata Paes (renatapaes777@usp.br)
Uma repentina enchente formada por lama e detritos devastou cerca de 168 quilômetros entre o Nepal e o Tibete, região autônoma da China, na manhã de 26 de agosto. Até o momento, foram registradas mais de 1200 mortes e, aproximadamente, 56 mil desaparecidos, dentre eles estrangeiros, peregrinos, turistas e trabalhadores. Embora, inicialmente, fontes do governo do Nepal tenham afirmado que o gatilho para a inundação havia sido um terremoto – já que os sensores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (Usgs) registraram um tremor de magnitude 5,2 na região – , horas depois foi divulgado que o desastre foi causado por um deslocamento de gelo.
Quase toda a porção norte do Nepal é formada pela Cordilheira do Himalaia, uma grande cadeia de montanhas interligadas que se estendem por um vasto território. A tragédia teve início nesta formação geográfica, mais especificamente na montanha Langtang Lirung, onde um pedaço de geleira com 600 metros de largura se desprendeu, de acordo com análises de satélite.
A partir de uma queda de cerca de 12 mil metros de altitude, foi desencadeada uma avalanche de gelo, rochas e sedimentos que bloqueou temporariamente o curso do rio Lhende Khola, formando uma barragem natural instável. Quando a barreira cedeu, a água acumulada, carregada de detritos, avançou pelo rio Bhote Koshi e pelo Trishuli, provocando a enchente que alcançou comunidades ao longo do vale. A onda tinha 100 metros de altura e cobriu uma distância de 20 a 22 quilômetros entre 6 a 10 minutos. O impacto destrutivo foi imediato.
Por que a geleira se desprendeu?
Em entrevista à Jornalismo Júnior, Noris Costa Diniz, geóloga e doutora em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (USP), explicou o ponto de partida do desastre nepalês. Segundo a especialista, o substrato rochoso do Himalaia é atravessado por uma série natural de descontinuidades, como fraturas e falhas. Ao longo do tempo, processos de erosão física podem ampliar essas estruturas e enfraquecer a rocha.
No caso do desastre, porém, o fator que teria dado o pontapé para o desprendimento foi um fenômeno conhecido como hidrofraturamento, que diz respeito ao processo de penetração da água do degelo superficial em aberturas profundas nas rochas. Assim, devido a pressão do líquido, o alargamento das fendas é forçado e novos colapsos são acelerados.
As encostas das montanhas são unidas pelo permafrost, solo, sedimento ou rocha que permanece congelado por anos e une blocos em regiões de alta montanha ou polares. “Setembro é o fim do período de monções na Ásia. Com as muitas chuvas dessa época e aumento de temperatura, o degelo dos glaciares é favorecido. Essa água oriunda do derretimento se infiltra nas fraturas das rochas”, explica Noris.
A partir da incorporação dessa água confinada, uma pressão hidráulica colossal é gerada e empurra as paredes da rocha de dentro para fora. Isso funciona como uma cunha que rompe a estrutura interna de parte da montanha e leva ao colapso total da encosta e da geleira que estava em cima.“Foi este o estopim para o desprendimento da enorme porção de gelo”, resume a geóloga.

Noris Diniz chama a atenção também para o discurso alarmista em relação ao aquecimento global neste caso. De acordo com a pesquisadora , o fenômeno, por mais que inegável, não pode ser tido como a única razão do desastre ocorrido no norte asiático. “É incontestável que existe um aumento atípico nas temperaturas do mundo todo. A Europa, por exemplo, registrou neste ano um verão mais longo que o normal com ondas de calor. Essa elevação térmica acelera o degelo do permafrost, mas ainda não se sabe até que ponto esse fenômeno interferiu no evento nepalês”, afirma.
A falha na detecção da enchente
A região do norte asiático, principal área destruída pelo fluxo de detritos, possui sistemas de alertas precoces e alarmes para a prevenção de desastres que não emitiram um aviso à população sobre a enchente. A pergunta que fica àqueles que acompanharam o caso é por qual motivo os sistemas de monitoramento não foram capazes de detectar o fenômeno a tempo.
A resposta a esse questionamento envolve desde a magnitude do fenômeno até a capacidade dos aparelhos de monitoramento. De acordo com Noris, o desastre glacial foi classificado como um “evento gigante”, no que diz respeito ao seu porte. Nesse caso, é praticamente impossível que qualquer estrutura tecnológica consiga contê-lo. Para Kristen Cook, geomorfóloga da Universidade Grenoble Alpes, na França, a rede de medidores mantida pelo Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal, por mais que sólida, não foi desenvolvida para detectar deslocamentos de água tão rápidos e volumosos. Em entrevista ao The New York Times, Kristen afirmou que, em acontecimentos como este, os próprios sensores acabam sendo destruídos.
Quando a água atingiu os medidores localizados em pontes e áreas mais povoadas do país, já era tarde demais para que a população pudesse se mobilizar eficientemente, disse a geomorfóloga.
Principais consequências para a população
A onda de detritos atingiu uma velocidade extremamente alta devido à inclinação do relevo, arrasando diversos vilarejos. Entre as principais consequências estão a interrupção do abastecimento de água, os danos às unidades de saúde e o isolamento de comunidades. As autoridades nepalesas informaram neste domingo (6) que 1.341 corpos foram recuperados desde o início da tragédia, dos quais 98 haviam sido identificados e entregues às famílias. Outras 4.996 pessoas permanecem desaparecidas.
Conforme informações divulgadas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), cerca de 65 mil pessoas, incluindo mais de 22 mil crianças, precisam de auxílio emergencial de água potável, saneamento, higiene e apoio psicológico. A organização alerta que a destruição de sistemas de abastecimento e saneamento — somada à concentração de famílias em abrigos e casas de parentes — aumenta o risco de doenças transmitidas pela água. O acesso às áreas afetadas pelas equipes de resgate ainda é complexo, pois as estradas e pontes foram, em sua maioria, destruídas, o que isolou dezenas de comunidades montanhosas nos distritos de Rasuwa, Nuwakot e Dhading.

O desastre também inclui danos à infraestrutura do país mais afetado. “O Nepal utiliza a grande disponibilidade de água de seu território e o acentuado desnível de seus rios para a geração hidrelétrica, ambas características fundamentais para o abastecimento elétrico”, afirma Noris. Contudo, a enxurrada destruiu diversos projetos energéticos ao longo do rio Trishuli e interrompeu o fornecimento de energia nas áreas afetadas. O próprio deslizamento inicial bloqueou temporariamente o curso do rio, formando uma barragem natural que, posteriormente, se rompeu e contribuiu para a onda de detritos.
Impactos vizinhos e no mapeamento de vítimas
A avalanche lançou grandes volumes de lama, rochas e outros resíduos no sistema fluvial da região. O material atingiu o rio Trishuli e seu sistema de drenagem, que integra o rio Narayani, um dos principais afluentes do Ganges. Segundo Noris, a elevada concentração de sedimentos comprometeu a qualidade da água e afetou os sistemas de abastecimento, aumentando a necessidade de fontes alternativas de água potável. Além disso, a enchente soterrou totalmente o posto de controle de Kyirong (Rasuwa Gandhi), essencial para o comércio e tráfego entre o Nepal e a China.


[Imagem: Reprodução/Henrique Caversan]
Noris explica que a presença expressiva de indianos na região está relacionada, em parte, ao turismo religioso. “A região faz parte de uma das principais rotas de peregrinação ao Monte Kailash, considerado uma das montanhas mais sagradas do mundo por quatro tradições religiosas: o hinduísmo, o budismo, o jainismo e a religião tibetana Bön. A estrada de acesso é extremamente íngreme, e o vale é muito ‘encaixado’ entre as montanhas”, pontua.

[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Uma das principais dificuldades em catástrofes desta magnitude está no mapeamento e na quantificação das vítimas. Algumas pessoas foram arrastadas pela força das águas e podem ter sido levadas por longas distâncias, enquanto outras permanecem soterradas sob toneladas de detritos ou presas em túneis inundados. A destruição de estradas e redes de comunicação também dificulta o levantamento e a atualização das listas de desaparecidos.
A identificação dos corpos configura outro desafio. Muitos foram encontrados em estado avançado de decomposição ou sofreram danos provocados pela força da água, o que pode inviabilizar o reconhecimento visual. Nesses casos, as autoridades recorrem a métodos de identificação forense, como exames de DNA, comparação de impressões digitais e registros odontológicos.
Contenção de danos para o futuro
Apesar da dificuldade de prever fenômenos de grande porte, especialistas apontam que medidas de monitoramento e planejamento podem reduzir o número de vítimas em futuras catástrofes. Para Noris, uma das principais lacunas está na ausência do monitoramento geomecânico das encostas, capaz de acompanhar as fraturas presentes nas rochas. O uso de imagens de satélite e a integração entre diferentes áreas da ciência poderiam contribuir para identificar alterações antes que elas resultem em novos deslizamentos.
A geóloga também destaca a necessidade de aprimorar os sistemas de alerta. No caso nepalês, um aviso específico para debris flow — ou corrida de detritos — poderia ter sido mais adequado do que um alerta de inundação. Foi defendido também o mapeamento das trajetórias dos fluxos, das rotas de fuga e dos locais de abrigo, principalmente em regiões de vales estreitos e de difícil acesso.

[Imagem: Reprodução/Agência Brasil]
A preparação da população também é fundamental. Em situações como a do Nepal, em que a onda de detritos percorreu quilômetros em poucos minutos, o conhecimento prévio sobre os caminhos de evacuação faz toda a diferença, explica Noris. A necessidade torna-se ainda maior em regiões turísticas, em que os visitantes podem não conhecer o território e seus perigos. “Se a pessoa souber para onde sair, ela corre”, afirma.
Imagem de capa: [Reprodução/Agência Brasil]
