Por Bianca Monteiro (monteiro.bianca@usp.br), João Zogobi (jvznogueira@usp.br) e Luiza Paglione (luizapaglione@usp.br)
No dia 02 de setembro , na cidade de Nairobi, no Quênia, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) anunciou um novo relatório sobre o clima, cujas revelações evidenciam a falha da principal meta do Acordo de Paris, adotado em 2015: o planeta Terra está prestes a ultrapassar o limite de 1,5ºC de aquecimento global.
Em comunicado à imprensa sobre o lançamento da publicação, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, declarou que os verões intensos, as enchentes devastadoras e os incêndios florestais resumem parte do que pode acontecer de forma acentuada e irreversível a cada fração de grau adicional na temperatura.
Apesar disso, Guterres afirma que “ainda podemos reduzir o aquecimento para menos de 1,5°C até o final do século. Devemos minimizar e atenuar o efeito indesejável, limitando o quanto as temperaturas sobem e por quanto tempo permanecem acima do limite.”
“A luta por um aquecimento global de 1,5°C é a luta pela humanidade.”
António Guterres, secretário-geral da ONU
Ruptura na promessa do Acordo de Paris
O Acordo de Paris, tratado internacional assinado por 195 países durante a 21ª Conferência das Partes, mais conhecida como COP-21, sediada pela França em 2015, tem como principal objetivo limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais até o fim deste século, de forma que os países signatários se comprometam a direcionar seus esforços para atingi-lo. No entanto, o diagnóstico da ONU, publicado no início de setembro, ilustra um outro cenário: a sobrecarga do planeta já é realidade e o limite originalmente estabelecido está prestes a ser ultrapassado.
A partir desse cenário, a solução é direcionada à “trajetória de ultrapassagem, pico e declínio”, segundo os próprios autores do relatório. Isso significa que, uma vez declarada que a superação do limite é um fato, a estratégia passa a ser limitar o pico da temperatura, que, idealmente, deve ser mantido abaixo de 2ºC.
Ao invés de representar uma linha de aumento crescente, essa trajetória pode ser desenhada por uma curva que inicialmente extrapola 1,5ºC, atinge o pico de 2ºC, apresenta um declínio e, enfim, chega à estabilidade. Para alcançar um futuro estável, não basta a publicação do diagnóstico e da previsão. Ainda que a promessa de Paris esteja na iminência de ser quebrada, o planeta Terra não atingiu a irreversibilidade das catástrofes.
Mitigação e adaptação
Em entrevista à Jornalismo Júnior, Maria de Fatima Andrade, professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP), afirma que as estratégias de redução dos danos causados pelas mudanças climáticas devem ser centradas no mapeamento das áreas mais vulneráveis à essas alterações para que ocorra a evacuação eficaz da população, aliado à atenuação das emissões e a remoção de gases causadores de efeito estufa da atmosfera.
“A mitigação é que seria o importante – não só de gás carbônico, que é um gás que leva muito tempo para surtir efeito, mas dos outros que têm impacto de efeito estufa e que tenham um tempo de vida mais curto, para que o resultado seja notado mais rapidamente”, atesta a entrevistada.
A professora reitera que, em um cenário de inevitabilidade do colapso climático, as táticas de adaptação à crise são indispensáveis e complementam as medidas mitigatórias. Esse método envolve uma série de providências que permitam a existência da raça humana em uma situação de extremos climáticos e evitem a ocorrência de marcos tão limítrofes que recusem a reversibilidade das catástrofes, os chamados pontos de não retorno.
Essa realidade abarca a implantação de espaços públicos com refrigeração adequada, plantio de culturas agrícolas resistentes à seca, sistemas de alerta eficazes e, em alguns casos, a migração climática. Maria de Fatima aponta o modelo econômico como personagem principal do colapso climático.
“Enquanto a economia domina, não adianta – e é uma economia equivocada, porque, na prática, você pode ter desenvolvimento junto ao meio ambiente.”
Maria de Fatima Andrade, professora do IAG-USP
Impactos socioeconômicos
Além de uma estatística ambiental, ultrapassar a marca de 1,5 °C significa um impacto direto no bolso e no prato do consumidor, na infraestrutura das cidades e na estabilidade geopolítica. À medida que o planeta se aproxima do pico de aquecimento, as mudanças climáticas deixam de ser uma ameaça abstrata e passam a ditar a rotina de bilhões de pessoas.
Apesar de aparentemente inocente, esse aumento de temperatura provoca uma enorme liberação de energia nos sistemas globais, explica a professora. Isso significa que a intensificação dos eventos climáticos nada mais é do que o resultado da dissipação dessa energia excedente pelos ecossistemas, provocada pelo aquecimento global, intensificado pelas ações antrópicas.
O aumento da temperatura global altera diretamente os sistemas naturais essenciais à sobrevivência, como a disponibilidade de água e o crescimento das plantas. Com a intensificação do calor e das secas, a produtividade no campo diminui, reduzindo a oferta de alimentos e elevando os preços no mercado. Esse encarecimento no custo de vida atinge, principalmente, as famílias de baixa renda, que têm menos recursos para absorver a inflação ou reconstruir o próprio patrimônio após desastres climáticos.
O relatório do PNUMA exemplifica esse impacto ao apontar que uma alta de apenas 0,5 °C na temperatura do planeta já é suficiente para reduzir o rendimento agrícola na maioria das regiões do mundo. Sem medidas urgentes de adaptação, essa redução na produção de alimentos pode levar dezenas a centenas de milhões de pessoas à desnutrição e à pobreza, afetando, sobretudo, populações vulneráveis na África Subsaariana, no Sul da Ásia e na América Central.
Em entrevista à Jornalismo Júnior, Eduardo Gonçalves Gresse, professor de sociologia e membro associado do Cluster ”Climate, Climatic Change, and Society’‘ (CLICCS) da Universidade de Hamburgo, menciona como os impactos socioeconômicos do overshoot – momento em que o aquecimento global supera temporariamente o limite de 1,5°C em relação ao período pré-industrial – expõem e aprofundam a desigualdade global, uma vez que, enquanto as populações mais vulneráveis perdem seus patrimônios, grupos de alta renda utilizam seu capital financeiro para se blindar das consequências climáticas.
Grandes empresas utilizam seu volume de capital para absorver prejuízos imediatos e financiar infraestruturas de proteção, criando uma falsa sensação de imunidade. No entanto, essa blindagem encontra limites na própria física do planeta. O relatório do PNUMA alerta que o estresse no sistema financeiro, a inviabilidade de seguros e a desarticulação das cadeias de suprimento ameaçam a estabilidade dos mercados globais. Gresse aponta que, embora as corporações continuem tomadas por decisões focadas no lucro de curto prazo, a escalada do aquecimento acaba por corroer a base material que sustenta a própria reprodução do capital.
“A crise climática, o agravamento das desigualdades e a nova revolução digital colocam-nos perante um desafio civilizacional que exige a compreensão da política climática como transversal.”
Eduardo Gonçalves Gresse, professor de sociologia
Imagem da capa: Reprodução/Wikimedia Commons



