Por João Paulo Mansur (joaopaulomansur@usp.br) e Laura Cristofoletti (lauracristofoletti@usp.br)
A entrega do 48º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos ocorreu na noite desta última terça-feira (20), no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA Arena). A premiação foi marcada por discursos de figuras ilustres como Conceição Evaristo e Jamil Chade, que destacaram a importância do jornalismo na luta pela democracia.
Além da premiação, o Instituto Vladimir Herzog (IVH) promoveu também a 15° edição da Roda de Conversa do Prêmio, realizada horas antes da entrega dos títulos. A conversa foi mediada pelos jornalistas Aldo Quiroga e Angelina Nunes, membros da comissão organizadora do evento, e contou com a presença dos laureados da noite.
Como os vencedores contam suas histórias
Durante o bate-papo, tópicos como a prática de um jornalismo sensível na produção de matérias investigativas permearam as falas dos premiados. O vencedor da categoria Texto, Daniel Camargos, ressaltou a necessidade de reflexões entre a equipe de produção de uma reportagem acerca do que seria publicável ou não de uma história. Camargos participou do desenvolvimento da cobertura “A foto esquecida do trabalhador amarrado em uma carvoaria do Maranhão e o elo com a Toyota”, da Repórter Brasil, que denunciou um caso de trabalho análogo à escravidão ligado à montadora japonesa.
A repórter da Folha de S. Paulo, Angela Boldrini, menção honrosa na categoria Vídeo, também comentou sobre a importância destas reflexões no desenvolvimento de sua produção “22 Semanas”. A reportagem retratou as barreiras do aborto legal no Brasil, partindo do caso da garota de dez anos que, após ser abusada pelo próprio tio, foi impedida de realizar o procedimento em diversas instâncias.
Para a jornalista, pelo fato de se tratar de uma reportagem audiovisual, as preocupações com a segurança dos entrevistados se tornam ainda mais potentes. Ao contar sobre os métodos necessários ao entrevistar os envolvidos no caso da menina de dez anos, Boldrini afirma: “é preciso entender o perigo e o alcance que nós, como jornalistas, podemos ter, mesmo que a fonte tenha dado consentimento.”
Em uma das falas finais, Tomaz Silva, vencedor da categoria Fotografia, se emocionou ao relatar a história por trás de sua foto laureada intitulada “Viúva se despede de seu marido morto na operação policial mais letal do Rio de Janeiro“. Segundo ele, fotografar a Operação Contenção, sem desrespeitar as vítimas, foi um desafio.
“Não quero mostrar números, eu quero mostrar quem fica. Quero mostrar a dor de quem ainda está aqui”
Tomaz Silva
Ao final da roda de conversa, o mediador Aldo Quiroga destacou a independência entre os jornalistas premiados e seus respectivos veículos. Quiroga ressaltou que o Instituto premia “os jornalistas e suas produções, e não os veículos”, em referência aos recentes casos de veículos da mídia tradicional que foram apontados por manterem relações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado pelo Caso Master.
O evento principal do dia foi iniciado pelos discursos de Giuliano Galli, coordenador de Jornalismo e Liberdade de Expressão do IVH, e Ana Luisa Gomes, curadora do prêmio. Ambos agradeceram os patrocinadores da premiação e passaram a palavra para que alguns dos representantes pudessem discursar. Entre os discursos, destacam-se as falas de Rodrigo Diullas, gerente de comunicação da Petrobras, e Victor Marques, assessor de imprensa da Caixa no sudeste.
Quiroga e Angelina assumiram o palco destacando a importância da entrega do prêmio na semana anterior ao segundo turno das eleições presidenciais. “Estamos vivendo um contexto desafiador para o jornalismo, mas nós vamos continuar fazendo o nosso trabalho”, afirmou Quiroga.
O presidente do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP), Thiago Tanji, também comentou acerca do papel jornalístico no contexto eleitoral. Para Tanji, a escolha feita no segundo turno não definirá apenas quem ocupará a cadeira do Palácio do Planalto, mas também definirá quais valores ocuparão a identidade do país durante os próximos quatro anos.
“O jornalismo deve permitir que o cidadão faça sua escolha com todas as informações possíveis de interesse público.”
Thiago Tanji
Após as falas, a premiação partiu para a celebração dos jornalistas Jamil Chade e Paulo Caruso (1949-2023), cartunista da TV Cultura, homenageados desta edição. A honraria foi marcada pelo discurso de Conceição Evaristo e de Paulinho Caruso e pela exibição de um vídeo de Caruso quando conheceu a praça Vladimir Herzog, ainda em vida.
Jamil Chade, com uma carreira de quase 20 anos como correspondente internacional, foi ovacionado por seus colegas ao receber a honraria. Em seu discurso, Chade relembrou a trágica história por trás da criação do Prêmio Vladimir Herzog, que homenageia todos os anos o jornalista morto pela ditadura. “Este não é apenas um prêmio. Sua confecção é a história da resistência cidadã”, disse.
A última homenagem da noite direcionou-se ao recém-falecido Zuenir Ventura (1931-2026), que foi celebrado pela jornalista da GloboNews Flávia Oliveira. Ventura foi colunista do jornal O Globo e escritor do livro “1968 – o ano que não terminou” (1989), que retrata a resistência cultural e estudantil em meio ao Ato Institucional de nº 5 (AI-5). Durante seu discurso, Oliveira reafirmou a relevância de Ventura para a luta por direitos humanos no país e o espaço que sua morte deixa nessa defesa.
“Perdemos Zuenir e enfrentamos novamente ameaças à democracia e à soberania”
Flávia Oliveira
Na parte final da noite, Quiroga e Angelina deram início a entrega de prêmios às 14 equipes laureadas da noite. O discurso de Julia Dolce, vencedora da categoria Áudio pelo podcast “Palestina, da abundância à fome”, destacou-se pela homenagem aos 368 jornalistas mortos na Faixa de Gaza nos últimos 3 anos.
A equipe vencedora pela categoria Multimídia com a produção “Moinho de Gente: a expulsão da última favela do centro de São Paulo” também foi destaque, após os integrantes levantarem um cartaz de manifesto pela soltura de Alessandra Moja Cunha, moradora da comunidade. Segundo Caio Castor, repórter do Intercept Brasil que participou da gravação das reportagens, Alessandra teria tido sua liberdade condicional negada pelo Ministério Público.
Quem foi Vladimir Herzog
Conhecido mundialmente como um grande defensor da democracia durante o regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985, Vladimir Herzog, nasceu em Osijek (então parte da Iugoslávia, Croácia atualmente) em 27 de junho de 1937. Após uma invasão nazista em sua cidade, ele e a família se refugiaram na Itália.
No fim de 1946, vieram ao Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro no dia 24 de dezembro. Depois, a família migrou para São Paulo, onde Herzog viveu sua juventude e, anos depois, ingressou na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Sua carreira como jornalista começou em 1959, como repórter do jornal O Estado de S. Paulo, onde cobriu eventos como a inauguração de Brasília e a posse de Jânio Quadros, antes de virar crítico de cinema e migrar para o jornalismo cultural.
Como jornalista cultural, passou por veículos como TV Excelsior, Rádio BBC de Londres, Revista Visão, TV Universitária da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e jornal Opinião. Herzog também foi professor de jornalismo da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.
Na TV Cultura, começou como coordenador de redação do jornal Hora da Notícia e, posteriormente, como diretor de jornalismo em setembro de 1975. Um mês depois de assumir o cargo, militares o procuraram para um interrogatório, ao qual compareceu espontaneamente, na sede do Destacamento de Operações de Informação Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI/SP), na Vila Mariana.
Herzog foi torturado e morto nas dependências do DOI-CODI. Sua ida ao centro militar foi testemunhada por colegas jornalistas, que ouviram os interrogadores solicitarem a máquina de choques. O jornalista havia chegado ao departamento como um profissional da TV Cultura, e, antes mesmo da tarde acabar, ele havia se tornado uma das vítimas da ditadura.
Instituto Vladimir Herzog
Fundado há 17 anos, em 2009, o Instituto Vladimir Herzog (IVH) celebra a vida e o legado do jornalista. A instituição tem como missão trabalhar com a sociedade pela defesa dos valores da Democracia, dos Direitos Humanos e da Liberdade de Expressão. Dentre os programas que abordam esses temas, estão: Educação em Direitos Humanos; Jornalismo e Liberdade de Expressão; Memória, Verdade e Justiça
A atuação do Instituto parte da ideia de que o país presencia uma crescente cultura da violência e discriminação. Segundo a Rede Nacional de Proteção do IVH, foram registrados 329 casos de violência contra comunicadores entre 2019 e 2026.
“Aí se encontra o trabalho do IVH e de seus parceiros, de honrar a trajetória e os valores de Vlado: ajudar na construção de um novo paradigma para nosso tempo”
Instituto Vladimir Herzog
Desde o ano passado, a instituição tem trabalhado na memória de seus antigos vencedores. A Praça Memorial Vladimir Herzog recebeu o Calçadão do Reconhecimento, com tijolos contendo os nomes de todos os 51 ganhadores do prêmio desde 1978, já inclusos os vencedores de 2026, Jamil Chade e Paulo Caruso.
*Imagem de capa: Mayara Felisardo/Jornalismo Júnior






