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Os Donos do Jogo: como dirigentes corruptos dominaram durante anos a maior entidade do futebol mundial
ARQUIBANCADA
22 mar 2021 | Por Guilherme Caldas (guilhermecaldas@usp.br)

*Imagem de capa: {ANeFo/Wikimedia Commons]

 

O futebol é o esporte mais popular do mundo e, em um meio que envolve tantas pessoas, tantas empresas e tanto dinheiro, seria quase esperado que houvesse algum tipo de corrupção em seus bastidores. Mas, o que diversos veículos de imprensa e, mais recentemente, o FBI revelaram é algo muito mais profundo.

Com a descoberta de uma série de irregularidades na organização do Mundial do Qatar, a ser realizado em 2022, e a prisão de diversos membros da alta cúpula da FIFA, vieram a público documentos, relatos e histórias que revelaram como a corrupção e o suborno eram o verdadeiro “padrão FIFA”.


O Poderoso Chefão

Certamente estipular uma data de início para a corrupção de qualquer entidade beira o impossível e, na FIFA, não é diferente. No entanto, é simples nomear o homem que, impune até quase o fim da vida, a instituiu como método padrão: o carioca João Havelange.

Eleito presidente da então CBD às vésperas da chamada “Era Pelé”, o ex-atleta de natação João Havelange se aproveitou das vitórias do esquadrão canarinho durante sua gestão para fazer seu nome na política do futebol. As copas do mundo de 1958, 1962 e 1970 foram, sem dúvida, a passagem de Havelange para Zurique, cidade em que fica a sede da FIFA. Mas o sucesso que sua seleção conseguiu em campo ainda não lhe garantiria o poder de que precisava.

João Havelange, então presidente da FIFA

João Havelange, em 1982, então presidente da FIFA [Imagem: ANEFO/Wikimedia Commons]

Desde sua criação, a FIFA é uma instituição considerada europeia e, por isso mesmo, quando se candidatou à presidência da entidade, Havelange passou longe de ser o favorito, disputando com o então presidente, o inglês Stanley Rous. A maneira como o brasileiro driblou essas dificuldades é o pontapé inicial da história de corrupção e poder que ele construiu dentro da entidade.

Presidente da federação brasileira, Havelange entendia as dificuldades do futebol fora do velho continente, e foi essa a moeda de troca que usou para angariar votos. Prometeu incentivar o futebol em outros lugares do mundo, assegurou investimentos e favores a nações da Ásia, África e América. Visitou 86 países durante as dez semanas de sua campanha, com promessas e  presentes aos representantes dessas nações. Assim, teve o resultado que queria.

Em 11 de junho de 1974, João Havelange foi o primeiro não-europeu eleito para a presidência da entidade máxima do futebol mundial. Mais do que presidente, ele sabia que, com os favores e subornos com que havia sido eleito, teria a gratidão e fidelidade de inúmeros dirigentes ao redor do mundo. Seria dono da FIFA e dono do futebol.


Os Donos da Bola

Havelange construiu um império dentro da FIFA e manteve consigo muitos aliados. Homens de sua total confiança, agentes da FIFA que, às claras, movimentavam o mundo da bola. Entre eles, talvez seu maior aliado tenha sido o secretário-geral e seu futuro sucessor na presidência, o suíço Joseph “Sepp” Blatter.

Blatter entrou para a FIFA pouco depois de Havelange, com a ajuda do capital político do herdeiro da Adidas, o alemão Horst Dassler, e começou a galgar seu espaço na entidade logo que entrou. Com a eleição do brasileiro, foi nomeado secretário-geral, o segundo homem mais poderoso do futebol.

Outro nome que figura entre os aliados do grupo político de Havelange e Blatter, é o caribenho Jack Warner, ex-presidente da federação de Trinidad e Tobago e, por anos, presidente da CONCACAF e representante continental no comitê da FIFA. Acusado por veículos de imprensa de inúmeras práticas corruptas ao longo dos anos, Warner não teve punição dentro da instituição. Ao contrário, foi nomeado vice-presidente da entidade, onde cometeu mais crimes.

O caso de Jack Warner é apenas um dos vários escândalos em que nada foi feito para resolver os crimes cometidos. A FIFA sofre há anos com casos de corrupção exaustivamente investigados por jornalistas do mundo todo. No entanto, os processos que resultaram em demissões de executivos da entidade ou qualquer outra medida efetiva por parte dela ou da justiça são – ou pelo menos eram – raríssimas exceções.

Para Luís Aguilar, jornalista português que investigou durante anos a entidade e publicou o livro Jogada Ilegal, a falta de empenho da justiça em capturá-los é simples de se explicar: “A FIFA, além de ter estado por muito tempo sob o sigilo bancário suíço – as leis fiscais são menos rígidas no país –, a grande maioria dos políticos vê no futebol uma oportunidade para acenar das arquibancadas e ganhar votos.” Ele ainda comenta: “E, em última análise, os países se submetem a coisas inimagináveis para sediar uma Copa do Mundo, e a FIFA acaba por ter esse poder do futebol, que se põe acima dos outros poderes e encobre suas más condutas.”


O Poder do Futebol

Para entender um pouco mais as motivações e engrenagens da corrupção na FIFA, é preciso compreender um conceito que Havelange cunhou e  que entendia como poucos: o poder do futebol.

Esse poder nada mais é do que o poder da paixão. Da paixão que faz com que pessoas não usem roupas com as cores de adversários, que vistam os filhos assim que nascem com as cores do time de coração. E que faz com que as pessoas, assim que a bola começa a rolar, esqueçam os métodos escusos e desleais com que a FIFA e outras entidades do futebol atuam.

Exemplos da ação da FIFA com base nesse tal poder do futebol são inúmeros. A própria impunidade dos criminosos da entidade seria um exemplo disso, mas há muito mais além disso. Graças a força que o futebol exerce nas pessoas, a FIFA consegue o que quer de países e delegações.

Em 2014, no Brasil, pudemos ver um pouco como atuam. Estádios bons, em bom estado e com plena capacidade de público e estrutura não podiam ser reformados. O “Padrão Fifa” exigia que o país desembolsasse milhões para a construção de estádios novos, que serviriam para o mês da copa e, como vemos hoje, quase não são mais utilizados. Claro que o governo que se submete a isso merece ser culpado, mas a entidade que impõe essas condições, sim, é a principal responsável.

O poder do futebol, mais do que podemos imaginar, exerce influência sobre figuras enormes. Em 2010, o ex-presidente da África do Sul, o Nobel da Paz Nelson Mandela foi uma delas. Luís Aguilar relata em Jogada Ilegal uma viagem que Mandela, aos 86 anos e doente, foi pressionado a fazer para angariar e conseguir a simpatia de homens fortes da FIFA para levar a Copa do Mundo para a África do Sul. Relata, também, como o acidente que matou a neta de Mandela não foi suficiente para o poder da FIFA aceitar sua ausência na final do Mundial de 2010. Pressionado à exaustão, Mandela rompeu o luto e foi ao estádio Soccer City, em Joanesburgo, acenar e satisfazer as ordens da FIFA.

Se Nelson Mandela, um homem cujo nome tem uma força descomunal pelos atos e ações em prol da igualdade racial e da paz em seu país, teve de abaixar a cabeça para o poder da FIFA em nome do poder do futebol, a que se sujeitariam e sujeitaram homens muito menos fortes para sediar um Mundial em seu país?


A sede da Copa e a sede por dinheiro

A eleição para escolher a sede da Copa do Mundo é realizada a cada quatro anos por um comitê de representantes das entidades de futebol. Os países candidatos e suas campanhas, como em toda eleição, buscam convencer esses representantes ao mostrar que são melhor preparados que os adversários e que a Copa do Mundo em seu domínios será melhor para o futebol.

Se o método fosse apenas esse, não haveria grandes problemas. A questão é que as estratégias de convencimento vão muito além de simples vídeos e conversas mostrando o melhor preparo. Diversos relatos, junto de uma investigação do FBI que prendeu homens poderosos da FIFA, mostram que a escolha da sede da Copa do Mundo é feita, basicamente, por meio de suborno.

Beira o impossível demonstrar e relatar casos de suborno em todas as eleições, mas vale a pena pegar o depoimento do inglês Lord David Triesman que, responsável pela campanha de seu país para sediar a Copa de 2018, ouviu pedidos no mínimo pitorescos de alguns desses votantes.

Um dos homens responsáveis pela escolha da sede da Copa do Mundo era o ex-presidente da CONMEBOL, Nicolás Leoz. Procurado por Triesman durante a campanha inglesa, o paraguaio exigiu em troca do voto algo, para ele, simples. Não queria dinheiro, queria um título: o título de Cavaleiro da Coroa. Estava cansado de ser Señor Leóz, queria ser Sir Leoz.

Outro procurado por Triesman foi o tailandês Worawi Makudi que, para votar na candidatura inglesa, queria todos os direitos de transmissão de um amistoso entre as seleções da Inglaterra e da Tailândia. Por mais que, comparado a outras transações ilegais, pareça pouco dinheiro, a transmissão e a detenção de todos os  direitos de um amistoso traria um lucro exorbitante para Makudi.

A mesma conduta teve Ricardo Teixeira, ex-genro de Havelange e então presidente da CBF, quando procurado pelo inglês. Segundo Triesman, quando por telefone, disse a Teixeira que o então presidente Lula teria dito coisas positivas sobre a candidatura inglesa, obteve a seguinte resposta: “O Lula não é nada! Venha para cá e mostre o que tem pra mim.” Lula, como qualquer presidente, não era nada para esses homens, pois não detinha o poder do futebol.

No fim das contas, o amistoso entre ingleses e tailandeses não aconteceu, Ricardo Teixeira não teve os agrados que queria e Leoz não se tornou Sir. A Inglaterra também não teve sua Copa. Teve apenas 2, dos 22 votos possíveis, perdendo para a Rússia, acusada de atender a pedidos de suborno.

Práticas desse tipo, que ocorrem há anos, foram as responsáveis pela demissão de Blatter e seus pares. Mas, por que, depois de tanto tempo de práticas corruptas, decidiu-se investigar e punir os envolvidos? A chave dessa questão é entender quem a corrupção da FIFA decidiu afrontar.


O FBI contra Blatter: Um poder maior que o do futebol?

As práticas de corrupção da FIFA e a submissão dos países aos seus poderes sempre se deu pela influência exercida pela entidade e pelo futebol. Em 2015, porém, esse cenário de impunidade e liberdade para cometer atos ilícitos começou a mudar, por uma razão fácil de se entender. O envolvimento, pela primeira vez, da justiça dos Estados Unidos.

“Esse último escândalo começa por uma razão muito simples:os Estados Unidos não tiveram seu mundial. Perderam o que teriam para o Qatar – os EUA eram fortes candidatos para sediar a copa de 2022 – e se sentiram humilhados por essa decisão”, comenta Aguilar. Ele ainda explica que foi a partir das trocas de favores entre os representantes das nações que a investigação se iniciou: “Perceberam que haviam perdido graças a manobras menos claras da candidatura qatari.A partir daí, o departamento de Justiça dos EUA põe em marcha essa operação com base em diversos dados já conhecidos na época.”

Joseph Blatter, ex-presidente da FIFA

O ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter, deposto e preso em 2015 depois do FIFAgate [Foto: Marcello Casal Jr./Wikimedia Commons]

Esse envolvimento dos americanos foi interpretado por muitos na FIFA como uma vingança pela derrota na eleição para a sede da Copa de 2022, porém não é bem o caso. O Departamento de Justiça dos EUA investigava a FIFA desde 2008, antes da eleição, por outros crimes, como lavagem de dinheiro e suborno em troca de direitos de transmissão dos mundiais. A eleição comprada era apenas mais uma acusação no mar de ilegalidades em que a entidade se envolvia.

Outro fator incomum foi a colaboração da Suíça, que raramente coopera com outros países na investigação de crimes fiscais, graças a suas leis mais brandas em relação a esse tipo de ação. Como nesse caso os crimes de que eram acusados os dirigentes da FIFA se enquadravam como crimes comuns, o país colaborou com a investigação e extraditou para os EUA os acusados que moravam no país à época.

A investigação durou alguns meses e condenou nomes fortes da entidade, protagonistas de seu comando e de seus crimes. Entre eles, destacam-se Leoz, Ricardo Teixeira, José Maria Marin, Jack Warner e diversos outros. Todos homens fortes da FIFA que, até então, faziam o que bem entendiam da instituição e do futebol.

Para Joseph Blatter, apesar de estar alegadamente envolvido em vários dos casos, a justiça não foi tão severa. Mesmo tendo renunciado à presidência da FIFA e ter sido suspenso do futebol por 6 anos, não foi preso e, em 2020, o Ministério Público suíço alegou planejar encerrar as investigações sobre o ex-presidente.

Apesar de não ter sido tão punido quanto seus pares, Blatter teve sua imagem fortemente abalada perante à entidade e à opinião pública, tanto que foi forçado pelas circunstâncias em que se envolveu a deixar o cargo que ocupava.

As investigações que causaram todas essas prisões, condenações e suspensões do futebol apurou montantes de mais de 150 milhões de dólares em subornos por direitos de transmissão em contratos desfavoráveis à FIFA como entidade, além de propinas pagas aos votantes de seu comitê  em favor de votos para o Qatar sediar  a Copa de 2022.


Resultados novos para antigas acusações

As acusações contra os membros da FIFA instauradas pelo FBI em 2015 foram decisivas, sim, para o desmantelamento do grupo que ocupava, há anos, o poder na entidade futebolística. Porém não foram exatamente novas: grandes casos de corrupção já surgiam pelo menos desde 2001, com o envolvimento dos condenados 14 anos depois.

Um dos casos mais famosos é o da empresa de marketing ISL que, ao abrir falência, levantou suspeitas sobre as razões que levaram ao seu fim. Depois de investigações por parte da imprensa e órgãos de justiça, ficou comprovado que a empresa havia falido, apesar do sucesso aparente, por não lucrar acima dos subornos que pagava. Entre os receptores desse suborno estavam Jack Warner, João Havelange e, entre outros, surgia o nome de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF.

O caso não teve grandes resultados, além de declarações da FIFA alegando que não sabia do envolvimento de seus membros nessas práticas e que, de imediato, investigaria minuciosamente as acusações e puniria os envolvidos. Não investigou e nem puniu quase ninguém. Nomes menores e menos relevantes para a entidade foram suspensos do futebol por alguns anos, mas não foram julgados judicialmente por seus crimes.

Do desfecho desse caso, também, anos depois, veio a troca do nome do estádio conhecido como Engenhão, no Rio de Janeiro. Antes batizado com o nome de Havelange, foi renomeado com uma justa homenagem ao grande lateral Nilton Santos, ídolo do Botafogo, mandante de jogos no estádio. 


As mesmas jogadas, com outros jogadores

Com a saída de Blatter e a prisão de muitos de seus pares, criou-se, em alguns, a esperança de que a FIFA havia se livrado da corrupção e de que novos tempos e novas práticas chegassem à entidade. Mas, para Luís Aguilar, não é bem assim.

Gianni Infantino, novo presidente da FIFA

O atual presidente da FIFA, Gianni Infantino, tem a missão de tentar limpar a desgastada imagem da entidade. [Foto: Foad Ashtari/Wikimedia Commons]

“Eu não acho que seja impossível acabar com a corrupção na FIFA, mas o processo é lento. O (Gianni) Infantino  – atual presidente da entidade – era do grupo do Blatter e está ligado a ele”, explica Aguilar. “O que mudou foi a postura da FIFA em relação a isso, eles passaram a sentir-se menos intocáveis”, finaliza.

Os resultados práticos também foram mais visíveis. Entre eles, podemos citar a implementação definitiva do árbitro de vídeo, batalha travada há anos na entidade e que era bloqueada pelos seus antigos homens fortes. Além disso, houve a criação de um comitê de ética mais efetivo e independente na instituição, criando, pelo menos, a sensação de que a corrupção não será mais impune.

A corrupção na FIFA é algo instaurado há anos e enraizado na entidade. Por isso, é impossível descrever todos os casos e envolvidos com os detalhes necessários em apenas uma reportagem. Existem diversos livros de jornalistas que, por anos, investigaram a entidade e suas relações com federações nacionais e continentais. Entre eles, vale a pena conferir “Jogada Ilegal”, do português Luís Aguilar – que colaborou muito com essa reportagem – além de livros como “How they Stole The Game”, do inglês Andrew Jennings e o livro “Cartão Vermelho”, do americano Ken Bensinger, que detalha a operação que ficou conhecida como FIFAgate.

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