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Brasil e França, uma história estremecida?

Após a visita de Macron, o sociólogo Jorge Boronat analisa a relação histórica entre os dois países
Por Enzo Campestrin (enzo.campestrin@usp.br)

Durante os três dias de viagem diplomática de Emmanuel Macron ao Brasil, o presidente francês percorreu Belém, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, integrando uma série de eventos. Ao lado de Lula, a autoridade visitou comunidades indígenas no Pará, acompanhou o lançamento de um submarino no Rio de Janeiro e participou do Fórum Econômico Brasil-França em São Paulo. Já em Brasília, atendeu a um almoço no Congresso Nacional e a uma cerimônia de assinatura de atos no Itamaraty.

Ao mesmo tempo, o governo francês anunciou planos de investimento de mais de R$ 5 bilhões, somados a declarações assinadas por ambos os presidentes em relação a cuidados ambientais.

Em entrevista à J.Press, o professor e sociólogo Jorge Boronat Carbonés revela o histórico da diplomacia entre Brasil e França e aponta as formas buscadas pelos países de se aproximarem. 

J.Press – Que tipo de conexão Brasil e a França construíram historicamente, principalmente na política internacional?

Jorge Boronat – As relações entre esses países são longínquas e vêm do período colonial, quando o Brasil pertencia politicamente e economicamente a Portugal. Quando Napoleão invade Portugal e a família real vem para nosso país em 1808, tivemos alguns entraves com os franceses. Mas com o Brasil já independente, a França sempre se mostrou um país muito diplomático.

Eventos como a Questão da Lagosta, a Questão do Amapá também motivaram o estabelecimento de relações com um país que sempre foi considerado imperialista. Podemos notar isso principalmente no final do século 19 e começo do século 20, quando a França estabelece colônias na Indochina e na África. 

Os franceses, ao se mostrarem na busca de resgatar os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, inspiraram movimentos como a Conjuração Baiana. É uma inspiração talvez não física, mas ideológica. Inclusive, a República Brasileira, especialmente na Constituição de 1988, resgata alguns desses princípios.

J.Press – E nos últimos 15 anos, como se desenvolveu essa relação?

Jorge – Houve muitas relações bilaterais, principalmente com foco em desenvolvimento sustentável. Os franceses realmente se empenham bastante nessa área, especialmente em acordos ambientais relacionados à Amazônia e preocupações com os hotspots. Nesse período, vimos um estreitamento de relações e uma preocupação muito grande com o Brasil em matéria de desenvolvimento, mas sempre tentando não prejudicar tanto o meio-ambiente.

Isso porque, durante o período Fernando Henrique Cardoso, tivemos um grande avanço nas medidas neoliberais no Brasil. Esse neoliberalismo, com as privatizações, levou a algum desgaste ambiental, principalmente na área de minas e energia. Então, nos oito anos seguintes de governo Lula, a preocupação foi grande em relação ao meio-ambiente, à preservação e até ao avanço do agronegócio. No governo Dilma, [foi percebida] uma preocupação ainda maior, principalmente com o avanço da fronteira agrícola da soja para a região Nordeste, o que acabou desestabilizando o comprometimento com o Acordo de Paris e colocou o Brasil em uma rota de insustentabilidade.

No governo Bolsonaro, com prioridades mais voltadas ao desenvolvimento do agronegócio, a relação com a França ficou mais estremecida. Alguns posts feitos por Bolsonaro em relação à esposa de Macron também colaboraram para a piora da situação. Ultimamente, temos tido uma preocupação maior de Lula em relação à preservação e às tensões da Amazônia, o que nos reaproxima da França.

Até a vinda de Macron, o presidente não recebia um presidente há 10 anos. [Imagem: Reprodução/Ricardo Stuckert]

J.Press – Com a vinda de Macron ao Brasil em abril, algumas falas do presidente francês têm sido debatidas por demonstrarem uma rejeição a acordos com o Mercosul. De onde ela vem?

Jorge – As relações que foram costuradas datam de 20 anos atrás, então possuem características diferentes. E o que o Macron pede é que sejam revistas essas possíveis articulações. Ele não acha justo que um acordo com o Mercosul assinado agora tenha como base questões de duas décadas atrás, porque, nessa época, a política ambiental e a preocupação com o meio-ambiente eram outras. Hoje, a sustentabilidade e a economia verde avançaram, e as empresas francesas se colocam na vanguarda disso. Competir com produtos de legislação ambiental atrasada em 20 anos geraria um problema econômico para a França. 

J.Press – Hoje em dia, é de alguma vantagem para a França ou até mesmo para a União Europeia ter laços fortes com o Brasil e a América Latina?

Jorge – Se tem um país que tem “pezinho” dentro da América Latina, mais precisamente na América do Sul, é a França. A Guiana Francesa tem vínculo muito grande com ela e os franceses esperam um pouco mais de participação no seu cenário econômico, o que não está ocorrendo. Então uma das maneiras de fazer com que isso aconteça seria aproximá-la do mercado brasileiro, dominante do Mercosul. Então vejo que é positivo para a França.

Diplomaticamente também é muito bom, porque o Brasil sempre tentou uma vaga vitalícia no Conselho de Segurança da ONU e os franceses optam por países que têm essa boa relação com o mundo. O Brasil não entra em guerras e nós não temos esse investimento bélico, então isso aproximaria a França a um rótulo de mais segurança e diplomacia, apesar de ter participado do imperialismo do século 19 para o século 20, quando explorou algumas nações africanas.

Além disso, os franceses têm uma política de substituição de energia. Eles possuem uma indústria automobilística forte, com marcas como Citroën, Peugeot, Renault, e agora com os carros híbridos. Isso pode, logicamente, estar vindo para a América e tornar o Brasil uma porta de entrada para essa produção. Então eu vejo essa visita com olhos diplomáticos, mas também comerciais. Macron veio para cá justamente para estreitar um pouco mais essas relações.

J.Press – Por que as fotos utilizadas para a divulgação do encontro entre Lula e Macron têm tom descontraído, enquanto as posições do presidente francês sobre acordos políticos são mais duras? 

Jorge – Surgiram até algumas piadas, com internautas dizendo que “os dois casam na Amazônia”, mas isso é uma postura muito bem pensada pelos dois presidentes e seus assessores. O objetivo é colocar a união Brasil-França em uma postura de carinho, principalmente porque a bioeconomia é muito sensível. Então, por mais que Macron tenha uma posição contrária em relação aos acordos com o Mercosul, ele não descarta uma aproximação com o Brasil, com foco na Amazônia. A França não faz isso simplesmente por uma questão ambiental, mas sim econômica. Não pegaria bem um Macron sisudo, mal humorado, e as fotos buscam postular uma relação de amizade. O produto, muitas vezes, se vende pelo rótulo, então o rótulo precisa estar impecável.

J.Press – Quais seriam as vantagens para o Brasil em efetivar essa aproximação diplomática?

Jorge – Do ponto de vista do Brasil, país subdesenvolvido, emergente e industrializado, qualquer tipo de acordo que venha de um país desenvolvido tem de ser analisado com cuidado. Não podemos tomar prejuízo e também não buscamos lucros imensos, porque isso não acontece. Uma das situações que acho importante para o Brasil é a visibilidade: uma aproximação com a França é muito melhor do que uma relação de inimizade. É muito importante ter um país desse do nosso lado.

O segundo fator positivo é a própria questão comercial. Tirar alguma coisa da Amazônia ou do meio ambiente pode não ser tão ruim, desde que explorado de uma maneira consciente, analisando a pegada de carbono e a pegada hídrica.

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