Jornalismo Júnior

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Câmeras na Terra do Sol e da Caatinga

por Guilherme Fernandes gfz.desouza@gmail.com Os anos 60 foram de grande efervescência para o cinema brasileiro.  Indignados com a situação política do país, profissionais do ramo, que se contrapunham aos filmes da Vera Cruz e à indústria das chanchadas, reuniram-se em torno do movimento do Cinema Novo. Eles buscavam, sobretudo, uma maior aproximação entre sociedade, artistas …

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por Guilherme Fernandes
gfz.desouza@gmail.com

Os anos 60 foram de grande efervescência para o cinema brasileiro.  Indignados com a situação política do país, profissionais do ramo, que se contrapunham aos filmes da Vera Cruz e à indústria das chanchadas, reuniram-se em torno do movimento do Cinema Novo. Eles buscavam, sobretudo, uma maior aproximação entre sociedade, artistas e intelectuais, contribuindo para a “desalienação” do público e para a “libertação nacional”. Apesar de diferenças internas entre seus realizadores, o Cinema Novo voltou-se para múltiplas realidades brasileiras, de onde despontaram magníficas obras do cinema nacional.

Glauber Rocha
Glauber Rocha, um dos maiores ícones do Cinema Novo

Glauber Rocha foi um dos agitadores do movimento, produzindo diversos filmes, como Deus e o Diabo na Terra do Sol (Idem, 1964), em que foi diretor, roteirista e também se envolveu com a trilha sonora. Lançado em 1964, o filme aborda o Nordeste por um viés inusitado.  O casal Manuel e Rosa é mostrado na fuga pelo sertão, após Manuel assassinar seu patrão, um coronel local. Buscando proteção, inicialmente eles se juntam ao beato Sebastião, um líder messiânico rodeado de devotos. Depois, reúnem-se ao violento cangaceiro Corisco.

Convém dizer que tanto Deus e o Diabo quanto seu diretor já foram amplamente estudados e analisados por críticos de cinema e intelectuais, como fez Ismail Xavier na obra Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. Nessa palestra do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, também é possível conferir algumas ideias do Ismail Xavier. Há quem diga, inclusive, que essa é a maior obra do cinema nacional. Para efeito de análise, o mote do filme seria a seguinte frase-síntese:

“O sertão vai virar mar”

Ao longo da obra, tal mote transita entre as personagens. Glauber Rocha faz uso de simbolismos e alegorias do folclore nordestino para construir sua lenda, como a literatura de cordel e o cangaço. A presença da erudição também é destacável, seja na música de Villa-Lobos, seja no estilo construído pelo diretor, ao lidar com a cultura popular. A montagem “artesanal” afasta-se do cinema-indústria; o filme intercala cenas dilatadas no tempo, com planos longos, e bruscas rupturas por meio de flashes rápidos, além de passagens com esquematizada teatralidade e outras improvisadas, em que a câmera literalmente na mão transita pelo espaço. Apesar da linearidade da narrativa, tais contrastes e desequilíbrios dificultam a compreensão de Deus e o Diabo, o que distancia a obra do grande público – e confronta a proposta do Cinema Novo. A narração do repentista, com referências à literatura de cordel, guia a obra e explica algumas lacunas, fazendo com que o áudio abandone a simples função de adorno.

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Cena do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol

A expectativa expressa na frase-síntese surge de uma fusão das condições naturais do sertão com o psicológico das personagens dali. A transformação radical – e com forte teor revolucionário – pregada no mote, no entanto, só se concretiza na narração do repentista. Ou seja, a mudança não se materializa, e o mar invadir o sertão é mera sugestão, que se torna mais um complexo elemento no espetáculo de Glauber Rocha. A cena final de Deus e o Diabo, pelos motivos expostos e por tantos outros, tornou-se épica.

Outro expoente do movimento é o filme Vidas Secas (Idem, 1963), do diretor Nelson Pereira dos Santos. Filmado no sertão de Alagoas e lançado em 1963, a obra é uma adaptação do livro homônimo de Graciliano Ramos. São retratadas as fugas e o cotidiano de uma família de retirantes, composta por Sinhá Vitória, Fabiano, os dois filhos do casal e a cadela Baleia. A ideia principal do filme pode ser sintetizada na frase:

“O sertão vai pegar fogo”

Enquanto a obra de Graciliano Ramos é um marco do Neorrealismo na literatura brasileira, a produção de Nelson Pereira dos Santos foi assumidamente influenciada pelo Neorrealismo do cinema italiano. Temas centrais do livro, como as precárias condições de vida dos protagonistas, a problemática da comunicação e da linguagem entre as personagens, a opressão e a repressão do Estado e do patrão, entre outros, são reproduzidos nessa adaptação para as telas. É construído um longa-metragem com um conceito naturalista e expressivamente realista, que busca denunciar aquele microcosmo. Diferentemente de Glauber Rocha, que constituiu uma obra com forte representatividade alegórica (sobretudo com o fanatismo e o banditismo), Vidas Secas tenta representar a veracidade dos fatos, inflamados pela seca.

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O cartaz de Deus e o Diabo junto a uma cena de Vidas Secas. Cada diretor interpretou a terra do sol e da caaatinga, e de tantas outras particularidades, sob diferentes aspectos.

Os encontros de Fabiano e o soldado Amarelo, entre outras passagens do livro, como a morte de Baleia (que pode ser vista neste vídeo), são também construídos. Organizada numa montagem linear e sequencial, a obra transmite o torpor daquela realidade, causando um misto de desconforto e comoção no espectador. Do mesmo modo, a perspectiva cíclica da obra de Graciliano Ramos é reproduzida, com começo e fim retratando a fuga da família retirante – o que mantém em suspensão a ideia de o sertão pegar fogo. Esse mote pode ser um destino a ser consumado, ou um elemento que se manifesta, de múltiplas maneiras, no infernal cotidiano dessa gente. No geral, a adaptação de Nelson Pereira dos Santos é bem avaliada, assim como suas outras adaptações para o cinema de clássicos da literatura nacional. O diretor, enquanto participante do Cinema Novo, atentou para a acusação e a representação do subdesenvolvimento brasileiro. Curiosamente, Vidas Secas é o único filme brasileiro apontado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais para compor uma cinemateca. Ainda em atividade, e devidamente reconhecido, Nelson Pereira dos Santos traça um panorama do cinema brasileiro nessa entrevista para a Revista Brasileiros.

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Cena do filme Vidas Secas

Claramente filmes autorais, de baixo orçamento e com estilos sofisticados, as duas produções destacaram-se (bem como seus contrastes se acentuaram) ao disputarem, simultaneamente, a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1964. Infelizmente, os brasileiros não foram contemplados. 50 anos depois do lançamento desses clássicos, o drama social nordestino ainda está distante de ser um mero passado brilhantemente apreendido, em preto e branco, pelos realizadores do Cinema Novo. O sertão ainda inflama, e o dilúvio é mera fábula.

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