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Crônica | O Grande Roubo de Filmes

Muitos roubam dinheiro, joias, pinturas e coisas do tipo, mas desta vez será diferente
Por Gabriel Albuquerque (gabrielalbuquerque@usp.br)

Era 24 de outubro de 2025, uma sexta-feira muito movimentada no Cine Olympique, tradicional cinema de rua de São Paulo. Uma mostra especial de filmes de terror estava sendo exibida até o final do mês, com muitos clássicos do cinema, para todos os gostos. Desde A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984) e o terror de Wes Craven até Psicose (Psycho, 1960) e a estranheza de Alfred Hitchcock.

Foram mais de seis horas sem parar dentro daquela cabine de projeção. Eu exibi todos os tipos de filmes, desde o digital até o analógico, que ainda dependia dos rolos de nitrato que eram usados antigamente. Eu adoro cinema, mas agradeci muito quando o meu expediente acabou e estava feliz que finalmente iria para casa. Eu só precisava aguentar mais uma semana de trabalho e finalmente teria minhas férias que estavam atrasadas há quase 7 anos. 

Ouvi meu supervisor chamar. A alegria de pobre dura muito pouco. Todo desengonçado, quase com vergonha do que ele tinha para me falar: eu não teria férias depois da semana que vem, nem na próxima, nem nunca.

A próxima semana seria minha última no Cine Olympique. Ele disse alguma coisa sobre baixo rendimento, depois algo sobre cortar custos, mas eu não ouvi nada do que ele tinha para me dizer. Eu passei tempo suficiente naquele cinema para saber o quanto eu me dediquei. Chorei, me desesperei, gritei por dentro. Eu amava tudo aquilo, todos os filmes, documentários, curtas. Eu fiz parte da história daquele cinema, perdi as contas de quantas vezes vi olhares encantados, cheios de lágrimas ou de medo saindo daquela salas.

Andei até a estação de metrô ao lado e fui para casa. Pode parecer exagero da minha parte — e talvez até seja —, mas eu sempre gostei de tudo que envolvia filmes e desde criança quis trabalhar com isso. Quando era pequeno, queria ser diretor de cinema, mas vi que não ia rolar. Tinha 17 aninhos quando soube da vaga para assistente no Olympique, meus olhos brilharam quando vi o acervo deles pela primeira vez.

Passei a noite toda pensando em como poderia preencher aquele buraco no meu peito, sempre com alguma bebida na mão. Eu estava totalmente abalado, emocionalmente frágil e profissionalmente estagnado. 24 anos e um único trabalho, sem ensino superior, ninguém iria me contratar para nada. Eu seria obrigado a voltar para a casa dos meus pais? Depois de todos os avisos de que eu deveria ter ido atrás de um “trabalho de verdade” e de “um curso que desse dinheiro”? Sem ao menos uma namorada para que eu pudesse dizer que estava criando minha própria família?

Reflito sobre meu futuro, sem saber o que fazer [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Me deitei no meu tapete velho que comprei em um bazar e comecei a olhar para minha estante, repleta de DVDs dos mais diversos filmes. Ela era bem modesta, mas preenchida com muitas histórias. Lá, eu vi a luz no fim do túnel: minha cópia de O Grande Golpe (The Killing, 1956), do Stanley Kubrick. Eu amava filmes de máfia, roubo, cartéis ou qualquer outra coisa parecida. Amava tanto que havia decidido naquele momento, com um pouco da Cuba Libre que eu havia bebido mais cedo no meu sangue, que a minha vingança contra o Cine Olympique seria ao estilo fora da lei de ser.

A semana seguinte seguiu normalmente, ninguém percebeu minhas intenções, ninguém desconfiou das minhas risadas de canto e das referências a Onze Homens e Um Segredo (Ocean’s Eleven, 2001). Não achavam que alguém teria a audácia de roubar seus filmes. Meu plano consistia em: roubar os filmes do cinema, ficar com alguns do meu interesse e depois vendê-los. Teria dinheiro suficiente para me manter por um tempo, depois planejaria o que fazer em sequência.

Os dias passaram e a tão aguardada sexta-feira estava chegando, mas meu plano começou na quinta-feira à noite. Bati o meu ponto como em qualquer outro dia, mas não fui embora, fiquei escondido no acervo das cópias físicas dos filmes até todos irem embora. As chuvas de São Paulo haviam prejudicado a parte elétrica do cinema, muitas câmeras e detectores de movimento estavam sem funcionar. As senhas das portas foram o menor dos problemas, é uma das vantagens de se trabalhar nesses lugares. Na noite do dia 30 para o dia 31 chovia muito. Eu nunca havia visto nada como aquilo, mas nada iria me impedir.

O grande dia chegou. Minha vingança será feita [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Comecei a minha festa. (1963), Scarface (1932), Doze Homens e uma Sentença (12 Angry Men, 1957), O Menino e o Vento (1967), Casablanca (1942), O Mundo de Anônimo jr (1972) eram tantas obras incríveis que eu mal conseguia contar, enchi as bolsas com rolos e rolos de filmes. Comecei a sair discretamente, mas era difícil pela quantidade de coisas que eu carregava e arrastava pelos corredores, ainda receoso de que alguém ainda poderia estar ali.

Não conseguia abrir a porta da frente, eram portões de ferro que só iriam subir se eu ligasse todas as luzes do cinema, o que eu não podia fazer. Subi as escadas até o telhado, enquanto a tempestade punia qualquer um que ousasse colocar os pés para fora de casa. Se eu saísse com os filmes na chuva, eles poderiam estragar, mas eu não tinha escolha. Eu me recuso a sair daqui sem os meus filmes, porque eles são meus, sempre foram. Quem ficou horas e horas cuidando deles, garantido que ninguém os manuseasse errado? Quem trabalhou até depois do cinema fechar para ser promovido? Exatamente. Eu.

Me certifiquei de que as bolsas estavam bem fechadas e comecei a arrastá-las pelo terraço até a escada de emergência que ficava na lateral do edifício, bastava descer até o chão e depois chamar um carro por aplicativo. Finalmente vou me tornar um só com a arte, toda mente brilhante do cinema precisa ter esse tipo de conexão com seus filmes. Mas não foi assim que aconteceu.

Coloquei as bolsas na escada de emergência, mas ela já estava muito desgastada, enferrujada, não estava aguentando meus filmes e eu em cima dela. Eu pulei de volta para o terraço, tentei levar alguma coisa, mas não tive força. Tudo foi para o chão e um barulho ensurdecedor de ferro caindo no chão ecoou pela Rua da Consolação. As luzes dos apartamentos se acenderam e eu entrei em pânico, levaria poucos minutos até a polícia chegar para averiguar. Comecei a gritar desesperadamente na chuva, pois naquele momento eu havia perdido tudo que tinha. Sem emprego, sem família, sem minha liberdade e sem meus filmes. Meus preciosos filmes que eu tanto cuidei. O que eu poderia fazer naquela situação se não reencontrar meus filmes?

Caminhei até a beirada do prédio, dizendo ao diretor de fotografia como enquadrar a câmera atrás de mim, aos atores como deveriam se portar na chegada da polícia e ao responsável pelos efeitos especiais como a chuva deveria cair. Chegou a hora de encerrar minha participação especial no grande filme da minha vida. Saltei em direção à eternidade, mais conhecida como calçada. Lá, não faltarão filmes para mim.

*Imagem de capa: Reprodução/The Movie Database

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