Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Ensaio | Foi Apenas um Acidente e o som no novo cinema iraniano

Entenda como o longa utiliza o som para a construção da narrativa política do filme e como tal técnica tem suas raízes da Nova Onda do Cinema Iraniano
Por Letícia Longo (letlongo2006@usp.br)

“O som perturba as pessoas”. Essa frase da primeira cena de Foi Apenas Um Acidente (Un Simple Accident, 2025) prenuncia o elemento mais importante do filme: o som. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, o longa acompanha um grupo de pessoas que desconfia ter encontrado o torturador do período em que foram prisioneiros políticos no Irã. A partir disso ,eles devem enfrentar o dilema em torno de vingança.

A suspeita começa quando Vahid (Vahid Mobasseri), um dos ex-prisioneiros, escuta o ranger da perna protética de seu torturador, apelidado de Eghbal (perna de pau na língua persa). Vahid, assim como os outros prisioneiros, ficava vendado durante o aprisionamento, sendo aterrorizado apenas pelo som. É a partir disso que Jafar Panahi, diretor e corroteirista do filme, utiliza do ruído da perna artificial, tanto em campo quanto em contracampo, para tornar o espectador parte da narrativa, convidando-o a construir suas próprias interpretações.

O design sonoro também é utilizado tanto para expor traumas dos personagens, quanto para provocar sensações de terror no espectador, sem recorrer necessariamente à exposição visual. Tais recursos são características clássicas do Novo Cinema Iraniano, movimento cinematográfico do qual Panahi participa, surgido após a Revolução de 1979 e caracterizado por seus filmes de oposição política e estética autoral.

O som da prótese como metáfora e representação da tortura (e do trauma)

Em entrevista a Slant Magazine, Jafar Panahi disse que todo o roteiro de Foi Apenas um Acidente foi construído a partir do som. Panahi também foi preso político do regime iraniano e interrogado com os olhos vendados, o que deu origem à ideia do filme de reconhecer seu opressor apenas por um som, segundo a revista Sight and Sound.

O som da prótese é um personagem por si só, lembrado por todos os personagens com desdém. Entretanto, o espectador só consegue escutá-lo em dois momentos do longa: No início, quando Vahid reencontra Eghbal, e na cena final, logo após a decisão de Vahid e Shiva (Mariam Afshari), outra ex-prisioneira, de não matar o aliado ao regime.

Jafar Panahi já foi condenado à prisão pelo Irã três vezes: Em 2010, 2022 e 2025
[Imagem: Reprodução\IMDB]

Na primeira cena, o ponto de escuta é espacial e coincide com o ponto de vista: Vahid escuta o ranger da perna de Eghbal. A câmera permite observar a expressão assustada de Vahid, enquanto o som se impõe como um elemento de ameaça dentro da cena. O ruído é reconhecido como algo presente naquele espaço e seu peso dramático é notável pelo espectador.

Ao longo do filme, a prótese e seu som são mencionados com recorrência pelos personagens. O roteiro atribui à perna diferentes significados a partir da subjetividade de cada personagem, ligados por um mesmo trauma. O roteiro, assim, evita cenas gráficas ao recorrer às memórias evocadas pelo som, de modo a substituir o uso de flashbacks, considerados pouco realistas por Jafar Panahi.

A cena final utiliza do som em contracampo, ou seja, a ação ou objeto o qual provoca o ruído, no caso, a perna artificial de Eghbal, não aparece em cena. A câmera apresenta Vahid de costas sem a possibilidade do público ver sua feição. Ele fica imóvel, enquanto o som da prótese se aproxima. Diferentemente do primeiro encontro entre o torturador e o torturado, o ponto de escuta é ambíguo: ele pode ou não estar no mundo diegético. Panahi força o público a ter suas próprias interpretações sobre o destino de Vahid e participar de forma ativa do final.

Durante as gravações, Panahi chegou a escrever possíveis diálogos para a cena final. No entanto, optou por eliminá-los para que o desfecho permanecesse aberto, sem uma explicação explícita, característica marcante do Novo Cinema Iraniano, cuja singularidade está diretamente ligada com a política do país.

 “Ao acrescentar qualquer outra coisa, você também estaria acrescentando uma explicação, e eu não queria fazer isso”
Jafar Panahi, em entrevista a Collider

Longa também foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original
[Imagem: Reprodução\IMDB]

O som e a linguagem do Novo Cinema Iraniano

O Novo Cinema Iraniano surge após a revolução de 1979, a qual instalou o regime dos aiatolás no país. A partir da revolução, o governo passou a adotar uma severa política de censura no país, proibindo a exibição nas salas de cinema de filmes os quais criticassem o governo. Em O Novo Cinema Iraniano: Arte e Intervenção Social (Escrituras Editora, 2006), Alessandra Meleiro afirma que, até 1989, todos os roteiros precisavam ser analisados pelo Ministério da Cultura e Orientação Islâmica antes de iniciar a pré-produção de alguma obra.

A rigorosa censura imposta aos cineastas críticos ao governo, ou considerados uma ameaça aos “valores islâmicos”, levou-os a desenvolver uma linguagem cinematográfica capaz de driblar a censura, mostrar os males do regime e, ao mesmo tempo, ser produzida com baixo orçamento.

Tal cinema se caracteriza pelo uso elevado de metáforas, temas políticos e a autorreflexibilidade. O som começa a ser um artifício utilizado para evocar algum sentimento sem mostrar visualmente algo em tela. Abbas Kiarostami, diretor de Gosto de Cereja e contemporâneo de Panahi, acredita que o sonoro pode assumir o papel do que não é visível, o que não significa que isso é claro para o espectadores, fazendo com que esses criem as coisas de acordo com suas próprias experiências, como dito em sua coletânea de ensaios intitulada Abbas Kiarostami: duas ou três coisas que sei sobre mim (Cosac Naify,2004).

Foi Apenas um Acidente mobiliza princípios de um cinema que nasceu da resistência e que ainda hoje luta para se manter. Atualmente, Panahi não recorre às metáforas e à linguagem característica do cinema iraniano por necessidade, mas pela valorização do cinema político de seu país.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima