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Filmes históricos e educação: ensinando e contando História

Usar filmes históricos para auxiliar nas aulas de história é importante e vai muito além de apenas passar o conteúdo de uma prova

CINÉFILOS
10 jul 2021 | Por Isabel Vernier (isabel.vernier@usp.br)

Por que assistimos filmes? Por entretenimento? Como forma de escapismo? Sim, o cinema faz isso com maestria. Uma sala escura e uma tela que apresenta uma história cativante é tudo que precisamos para mergulhar em uma realidade diferente e nos afastarmos da nossa. Mas é possível usá-lo para estimular a aprendizagem? Com certeza! Filmes históricos podem ser ótimos aliados na educação!

Uma situação comum na vida de estudantes de ensino médio é ver o professor ou professora de História chegar com um pen-drive, um DVD, um computador ou um projetor e anunciar: “Sala, na aula de hoje iremos assistir a um filme!” Eis que duas ferramentas poderosas se juntam com um grande propósito em comum: usar o cinema para ensinar história.

Nem todos gostam de ouvir um professor explicar um evento histórico ou a vida de alguma figura importante. Muitos têm dificuldade de entender a matéria apenas escutando a explicação ou lendo as anotações da lousa. Algo a mais é necessário. Algo que comunique, que impressione, que permita uma visualização mais clara.

No entanto é necessário lembrar que o filme não mantém completa fidelidade ao momento a que se refere. Um evento que levou anos para acontecer é mostrado em duas horas, conversas íntimas entre os personagens históricos dificilmente estão em um acervo à disposição dos roteiristas, uma reunião entre políticos para discutir sobre a economia é adaptada para ser compreendida pelo público. Tudo isso é feito para manter o filme interessante e informativo.

Para saber mais sobre o assunto, o Cinéfilos conversou com diretores de cinema e uma professora de História para entender melhor quais os benefícios e os percalços da produção desses filmes e sua inserção em sala de aula.

 

Primeiros passos: como os filmes históricos são feitos?

Adaptar um evento histórico não é fácil; demanda tempo e muita pesquisa. O cineasta Roberto Berliner, diretor do filme Nise – O Coração da Loucura (2015), que conta a história da psiquiatra Nise da Silveira (Glória Pires) e sua inovadora forma de tratar os pacientes com arte, explicou como a roteirização dessas obras funciona: “A primeira parte desse processo é uma pesquisa que a gente costuma fazer sobre os dados históricos e o que aconteceu. Depois disso, nós fizemos vários roteiros e percebemos que um longa-metragem é muito pouco para contar uma história tão rica, tão grande, como é a história da Nise. Então meu roteiro passou por isso tudo até eu perceber que, se eu fosse contar tudo, contaria com superficialidade, e então resolvi focar num pedaço só para me aprofundar um pouquinho mais.”

 

Um dos filmes educativos, Nise, tem a personagem homônima interpretada por Gloria Pires., uma mulher branca, de cabelos castanhos. Na imagem, ela aparece com o cabelo preso, um batom avermelhado suave e utilizando uma roupa bege.

Nise (Glória Pires) critica os métodos tradicionais de tratamento da época. [Imagem: Reprodução/YouTube/TvZERO]

O diretor do filme Real – O Plano Por Trás da História (2017), Rodrigo Bittencourt, conta que existe um “tripé” para fazer com que esse tipo de filme funcione. “Você tem que saber equilibrar a profundidade, do fato histórico e do entretenimento”, explicou o cineasta. Ele ainda acrescentou que, para a narrativa não ficar desinteressante, é necessário dar um tempo ao telespectador e aproximá-lo do que está sendo passado: “Você precisa fazer a plateia respirar, porque ela precisa pensar junto com você. Você tem que ter um trabalho de dramaturgia para quebrar a chatice e para interessar as pessoas. Se você começa a falar de um economês, um medicinês, um jornalês, um filosofês, não é todo mundo que vai entender e não tem graça fazer cinema assim.”

Os dois diretores ainda falaram que, por mais que adaptações e cortes sejam feitos, seus filmes devem ser baseados no real e se fundamentam em pesquisas extensas. Por isso, muitas vezes, os filmes demoram anos para serem produzidos, já que a responsabilidade de retratar pessoas e eventos reais é grande. 

Vale lembrar ainda que os filmes não são cópias fidedignas dos acontecimentos verídicos que se propõem a relatar. Por isso o filme é apresentado em sala de aula com um professor que pode tirar as dúvidas e contextualizar melhor os aspectos que esses filmes adaptam ou abordam de maneira mais rápida.

Quando perguntados se, durante a produção, é levada em consideração a possibilidade desses filmes serem usados em aulas de História, ambos responderam negativamente. Porém Roberto acha que o filme é feito com outro sentido. “Eu pensava que, ao fazer esse filme, eu estaria chamando atenção para uma personagem fundamental da nossa história”, acrescentou. Já Rodrigo acha que essa reflexão só surge depois da montagem do filme. “É pensado quando o filme dá certo. Quando você vê ele montado e entende que esse filme vai ser importante porque os professores vão poder assistir em sala de aula com os alunos, ou os alunos vão se interessar antes mesmo do professor [apresentar]”. 

O cinema pode levar alunos que não gostam tanto de História a se interessarem mais pela matéria. Utilizar um para despertar a curiosidade por outro é um ótimo motivo para integrá-los,  mas não é o único.

 

Muito mais que conteudismo

Com as obras prontas e acessíveis ao público, entra em cena o papel do docente. A professora de História Andrea Maniga contou um pouco sobre como funciona a inserção de produções cinematográficas para complementar os conteúdos passados. Ela advertiu que assistir ao filme sem o respaldo da explicação de um professor não é suficiente para entender, de fato, os acontecimentos estudados. “Eventualmente, a gente para e eu comento, tento fazer aquela análise do filme, de uma determinada cena, para saber se realmente o estudante entende a relação, qual que é o contexto e o porquê daquilo”.

A explicação e a contextualização do professor é indispensável para utilizar o filme de maneira satisfatória, principalmente quando se pensa numa representação incompleta da matéria que se trabalha em aula, como é a dos filmes. Mas então por que usá-los como forma de ensinar os estudantes? Andrea aponta três motivos.

O primeiro trata justamente da inclusão de todos os tipos de aprendizagem na hora de abordar o tema a ser estudado. A professora Andrea tenta levar essa ideia para a sala de aula: “Acho que você tem que abrir todas as possibilidades, porque se aquele aluno que é mais visual e não é tão ouvinte não compreendeu[a matéria] na explicação, de repente ele entenda melhor com o filme, entenda melhor o contexto através de um filme.”

Já o segundo diz respeito à linguagem mais fácil que um filme pode apresentar, como se o ensino fosse um jogo no qual várias fases precisam ser superadas para se entender completamente o conteúdo. Textos acadêmicos e de historiadores renomados abordam o conteúdo de uma maneira mais complexa e podem dificultar a compreensão. Além disso, a leitura, mesmo que de textos infanto-juvenis, não faz parte da realidade dos jovens brasileiros, seja por falta de acesso ou de incentivo. Desse modo, a exposição de bons filmes pode ser o pontapé inicial para motivar os estudantes a se aprofundarem no tema. 

Ainda quando se fala de engajamento com a história, a terceira razão para juntar cinema e educação é a geração de empatia e reflexão sobre eventos que parecem longe demais (ou não) da nossa realidade. “Você pode usar o Gladiador (Glatiator, 2000) para falar, por exemplo, das lutas romanas, de como era a vida de um escravo, o que aconteceu com o escravo que era obrigado a lutar, falar da [política do] pão e circo dentro de Roma e os gladiadores que lutavam para sobreviver.  De repente, uma coisa é você contar isso na sala de aula, você explicar a situação, outra coisa é você falar ‘agora vamos assistir’. Dessa forma você se identifica com o personagem, você sofre com ele, você sente o que ele está sentindo e a partir desse momento você vai começar a olhar a escravidão de uma outra forma.”

 

Na imagem, um gladiador branco com cabelo curto e castanho aparece trajando uma armadura metálica um pouco azulada.

Russell Crowe como o Gladiador. [Imagem: Divulgação/United International Pictures]

Esse é o poder do cinema e da história! É nos envolver com o personagem e com o enredo, é criar uma relação de identificação com o que é mostrado a fim de evitar alheamento a situações similares que possam ocorrer no presente, combatendo atitudes retrógradas. “Eu penso que a História também tem esse poder transformador de você aprender com o passado para que aquelas coisas não ocorram no presente ou no futuro, para que você não fique indiferente”, defende Andrea. 

É a percepção dos afetos que esses filmes causam nos alunos que foi perdida no sistema de ensino à distância durante a pandemia. A professora contou que a maioria dos alunos raramente abre a câmera, e, por isso, entender os sentimentos que a obra provoca e se os alunos estão compreendendo o propósito do filme se tornam tarefas muito difíceis. O recurso usado para driblar essa situação, disse ela, é ver as manifestações dos alunos no chat, dessa forma ela é capaz de perceber se conseguiu atingir seu objetivo.

Outra complicação que surgiu com as aulas online foi a impossibilidade de se fazer um debate após assistir ao filme ou à cena. Esse processo é muito importante para a apreensão do que foi passado, mas, como muitos alunos não participam tão ativamente da atividade quanto nas aulas presenciais, a discussão acaba por não ser tão frutífera. No entanto a praticidade de já se ter o filme baixado no computador e pronto para ser apresentado em uma chamada de vídeo é um pequeno ponto positivo desse novo contexto de ensino, porém está longe de compensar todas as outras perdas.

 

Pontos de atenção no ensino de História

No entanto não é qualquer filme que pode ser apresentado dentro do ambiente escolar. A justificativa dessa afirmação está além do fato de filmes não representarem a história com exatidão por conta das adaptações. A professora Andrea explica o porquê da preocupação: “Eu tomo cuidado de escolher um filme que esteja dentro da faixa etária da série que eu estou trabalhando. Um filme que eu às vezes indico, que fala de ditadura militar e é bastante forte, é o Batismo de Sangue (2007), ele tem cenas de tortura muito violentas e é uma sugestão que vem nos livros didáticos. Mas eu sempre tomei cuidado de falar que é um filme que tem cenas de violência; ele é bem pesado e é para maiores de 16 anos.” 

A professora ainda contou que é comum que as famílias dos alunos reclamem sobre os filmes passados em sala de aula. Então, ao assistir ao filme, além de tentar perceber a visão que o estudante pode ter daquele conteúdo, se colocar no lugar da família e refletir sobre a opinião dela sobre o que foi exposto em sala de aula é muito importante para não gerar um conflito entre a escola e a família. 

Entretanto outro problema constante é a hegemonia da visão euro-americana para tratar de história e cinema. É muito comum encontrar filmes sobre reis e rainhas, grandes políticos e heróis épicos. Mas a história da população que sofria os impactos das atitudes tomadas por essas figuras de poder é frequentemente apagada. Quando perguntada sobre isso, Andrea falou como sente falta dessa representação e que tem que contornar a situação de outra maneira: “Filmes que falam sobre guerra são sempre uma visão dos vencedores, ou seja, dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha. Por isso, a gente nunca pode usar só o filme para explicar um determinado conteúdo.”

A secundarização das minorias é um problema que o cinema ainda enfrenta. Entender a história do povo é entender a nossa história, é entender como chegamos aonde chegamos, o que conquistamos até o momento e em que ponto continuamos errando. Rodrigo Bittencourt, por exemplo, lembrou que, ao ir ao mercado com seu pai quando era pequeno, percebia a grande variação dos preços e vivenciou a hiperinflação que levou ao surgimento do Plano Real, evento que pôde retratar no cinema mais tarde. Esse tipo de identificação é primordial para engajar não só aos alunos, mas a qualquer um que assista ao filme.

Na imagem, dois homens brancos utilizando camisetas sociais brancas e gravatas pretas, além de óculos, escrevem em um vidro. O ângulo da filmagem faz parecer que os dois estão escrevendo na lente da câmera.

Pedro Malan (Tato Gabus Mendes) e Gustavo Franco (Emílio Orciollo Netto) preparando o Plano Real. [Imagem: Reprodução/YouTube/Paris Filmes]

Explorando a realidade

Entreter, educar e aproximar. É isso, e muito mais, que o cinema é capaz de fazer. Ele propicia que personagens que viveram há séculos surjam diante de nós e nos contem suas histórias. Histórias que parecem tão distantes, mas que talvez se repitam com qualquer um em menor ou maior escala e que podem nos ensinar mais que o conteúdo de aula.

Quantas outras experiências ainda não foram contadas! Existem milhões de vozes do passado que ainda precisam ser ouvidas, que foram deixadas de lado e que podem mudar o jeito que pensamos e agimos. 

Roberto Berliner pensa até que a realidade rende mais conteúdo do que a mente humana é capaz de produzir: “Em geral, a realidade é tão incrível que eu tento focar muito no real mesmo quando eu vou fazer ficção, porque eu acho que as informações do real trazem coisas muito mais maravilhosas do que eu seria capaz de inventar.”

O cinema e a História ainda têm muito o que desvendar e muito a nos proporcionar. A História deve ser contada e o cinema conta histórias. Basta nos abrirmos para ouvir o que eles têm a dizer.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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