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Hipersexualização do corpo negro feminino: entre o desejo e o desinteresse

O sofrimento que atinge mulheres negras em volta da construção de uma imagem hipersexualizada e a consequente solidão afetivo-sexual

Mais de 12 mil casos de estupros foram notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS/MS) em 2016. Mais da metade, 57,6% dos casos, foram denunciados por adolescentes negras. Aproximadamente 30,8% das notificações correspondem às mulheres brancas. No mesmo ano, ainda segundo dados do SINAN/DATASUS/MS, o Brasil teve 501.385 mães adolescentes. Do total, 69,7% eram jovens negras, enquanto 24,7% eram brancas.

Brancas e negras são perpassadas pelo machismo e pela sexualização de seus corpos. As negras, no entanto, dentro da dimensão racial, lidam com um processo mais intenso de objetificação: a hipersexualização, resultado direto do passado escravista do Brasil. O racismo estruturado na sociedade brasileira, representado em dados como os do SINAN, é refletido nas desigualdades enfrentadas pela parcela feminina negra hoje, diferente da realidade da parcela branca. 

 

Passado escravocrata e a formação do povo brasileiro

Segundo o IBGE, cerca de 4 milhões de africanos foram deportados para o Brasil. Homens, mulheres e crianças passaram pela comercialização e pela escravização. Já em solo brasileiro, além do trabalho compulsório, eram submetidos pelos colonizadores à violência, ao açoitamento e ao estupro como uma forma de mantê-los subalternos. 

No cenário da colonização, os negros eram desumanizados e objetificados. Eram tidos como uma mercadoria barata na visão dos europeus, primeiro porque eram imbuídos de valor econômico pela lucratividade do tráfico negreiro, e segundo por sua força de trabalho que beneficiava apenas aos colonos.

O antropólogo Darcy Ribeiro indicou os portugueses, os indígenas e os negros africanos como as três matrizes formadoras do povo brasileiro. Nesse sentido, Gilberto Freyre apontou que o branco, o negro e o indígena, com base no mito da democracia racial, viviam em harmonia. No entanto, a construção do povo brasileiro não foi harmônica, e sim fruto da violência e do estupro de mulheres negras e indígenas que, dentro da sociedade escravagista e machista, eram oprimidas e sexualizadas ao extremo. Além de escravocrata, a sociedade brasileira em sua origem também foi calcada no patriarcalismo.

Dados preliminares do Projeto DNA do Brasil corroboram com a demonstração de que a formação do povo brasileiro foi fruto do estupro. Os resultados do sequenciamento genético mostraram que 70% das mães que deram origem à população brasileira são africanas e indígenas, enquanto 75% dos pais são europeus. Dados como esse explicitam o tratamento dado às mulheres, que não fossem europeias, e como elas eram objetificadas e ligadas à servidão, até mesmo na esfera sexual. 

Segundo Elisa Hipólito, antropóloga pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestranda em Antropologia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a caracterização que se tem hoje de corpos negros, por exemplo, “enquanto um ‘objeto’ que está ali para servir” está ligada a uma construção histórica que remonta “desde o período da escravização em que esses corpos são tidos para realizar trabalhos braçais na lavoura ou para satisfazer sexualmente os dominadores”. 

 

As especificidades da mulher negra: dimensão racial 

“As mulheres negras e brancas sofrem certas privações por serem mulheres, compartilham certas vivências por assim serem, mas as mulheres negras, além do machismo e do sistema patriarcal, também sofrem do racismo”.

– Elisa Hipólito

 

Apesar da resistência da população negra, apenas depois de três séculos de um Brasil ancorado na escravidão, ocorreu, em 13 de maio de 1888, a abolição do trabalho escravo, quando foi assinada a Lei Áurea. Os negros estariam então libertos. A libertação, no entanto, não veio junto a uma reparação histórica ou à inclusão social. Antes escravizados, depois excluídos socialmente, os negros ainda assim eram tidos como inferiores. 

Depois da abolição, a população negra não teve acesso a terras, nem a oportunidades de trabalho que não fossem informais. Barreiras sociais como essas em conjunto com a perpetuação do pensamento discriminatório abriu espaço para o racismo estruturado nas camadas sociais e refletido em desigualdades que afetam com maior força os negros e seu acesso à direitos básicos.

A mulher negra, dentro dessa estrutura desigual, se comparada com a mulher branca, sofre, além do machismo comum a ambas, também na dimensão racial. A especificidade das problemáticas da parcela feminina negra são aparentes nas disparidades sociais vivenciadas entre brancas e negras.

No quesito da educação, conforme dados da pesquisa “Estatísticas de gênero – indicadores sociais das mulheres no Brasil”, o percentual de mulheres brancas com ensino superior completo, em 2016, era 2,3 vezes maior do que o calculado para as mulheres pretas ou pardas. Em relação a mortes no país, segundo o “Atlas da Violência de 2021”, em 2019, 66% das mulheres assassinadas no Brasil eram negras. O risco relativo de uma mulher negra ser vítima de homicídio é 1,7 vezes maior do que o de uma mulher não negra.

 

 

 

Além dos dados concretos, as mulheres negras, assim como os homens, diferentemente da população branca, sofrem com o preconceito em locais públicos. Ana Carolina, de 20 anos, é auxiliar de saúde bucal e relata ter sido inferiorizada por ser negra diversas vezes em lojas em que foi mal atendida, mas principalmente no trabalho. “Muitas vezes percebo o olhar das pessoas me diminuindo. Me perguntam até se sou da área de limpeza, não desmerecendo a profissão, mas acredito que se fosse uma pessoa de pele clara não teria esse mesmo julgamento”. 

“As mulheres negras e brancas sofrem certas privações por serem mulheres, compartilham certas vivências por assim serem, mas as mulheres negras, além do machismo e do sistema patriarcal, também sofrem do racismo”, pontua Elisa. Assim como indicado pela antropóloga, as duas parcelas femininas estão inseridas em um corpo social machista que as sexualiza, mas a mulher negra, pela dimensão racial, passa pela hipersexualização do seu corpo. 

 

Hipersexualização: estereótipos e contemporaneidade

Conforme Elisa Hipólito, hipersexualização significa sexualizar ao extremo. Esse processo é muito presente quando se pensa em mulheres e homens negros, em que seus corpos são universalizados e atribui-se a eles um caráter de objeto puramente sexual. “São corpos sexualizados ao extremo e até genitalizados, de certa forma. Com as suas humanidades diminuídas, aproxima-se esse corpo a um caráter mais animalesco e irracional que age só pelo impulso sexual”.

A hipersexualização da mulher negra tem sua origem específica no passado escravocrata brasileiro e perdura até os dias atuais. Elisa explica que existiram duas principais imagens da mulher negra no período da escravidão que permitem entender essa sexualização intensa: o da mãe preta e o da mucama. 

A mãe preta representava as mulheres mais velhas, as amas de leite que cuidavam dos filhos dos senhores. Estas, além de ligadas ao estereótipo racista do cuidado, passavam também por um processo de dessexualização. Já as mucamas eram mulheres negras mais jovens e responsáveis pelos afazeres domésticos. Estas, mais joviais e vistas como mais belas, eram alvos da ultrasexualização. “As mucamas que são as hipersexualizadas, que tem esse imaginário da mulata, as faladas mulheres com mais curvas”, complementa a antropóloga. 

 

hipersexualização
Mãe Preta (1912), de Lucílio de Albuquerque [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

 

Existem diversas imagens impostas às mulheres negras ainda presentes contemporaneamente. Adjetivá-las como portadoras de uma beleza exótica, por exemplo, é um estereótipo racista. O exotismo, nesse caso, está ligado à oposição à estética eurocêntrica. Os traços da branquitude seriam o normal, já os traços negróides, que fogem desse padrão e causam estranheza, seriam exóticos. 

Sarah Baartman, nomeada antigamente como A Vênus Hotentote, é um exemplo da visão do negro como exótico. A africana que por apresentar traços e estatura física diferentes do padrão branco, foi transformada em atração circense. A mulher tinha seu corpo exibido em feiras de Londres e de Paris por ser considerada exótica. Até depois de sua morte, Sarah teve seus órgãos genitais, esqueleto e cérebro exibidos no Museu do Homem de Paris até 1974.

 

hipersexualização
Sarah Baartman morreu aos vinte e seis anos de idade, provavelmente de pneumonia, sífilis ou alcoolismo [Imagem: Flickr/Kyndall Donalson]

 

Outros estereótipos estão diretamente ligados à hipersexualização da mulher negra e influenciam o imaginário social em relação à representação feminina negra. “Há a hipersexualização das mulheres negras com a ideia de que são sensuais, que sabem sambar e seduzir como ninguém, de que são boas parceiras sexuais”, diz Elisa. Além disso, a antropóloga também chama atenção para a formação do imaginário de que homens negros são viris, são sedutores, conquistadores e bem dotados, pensamentos que também os objetificam. 

A mídia, dentro do cenário da hipersexualização, age como agente contribuinte com a sexualização excessiva da mulher negra. Telenovelas, propagandas, músicas e outras representações culturais influenciam a criação de uma imagem sexualizada. Para Elisa, as novelas, os filmes e a literatura de décadas atrás reforçam a representação da negra como um corpo erotizado.

Gregório de Matos, por exemplo, escritor do período do barroco, representa a mulher negra em sua poesia com caricaturas depreciativas, do ponto de vista sexual, relacionando-a com a promiscuidade e com a sexualidade exacerbada, enquanto a mulher branca está ligada a pureza e ao romantismo em seus poemas.

 

INDO O POETA PASSEAR PELA ILHA DA CAJAÍBA, ENCONTROU LAVANDO ROUPA A MULATA ANICA E LHE FEZ ESTE – (MATOS, 2013, p. 273 – 274)

“Achei Anica na fonte

lavando sobre uma pedra

mais corrente, que a mesma água, 

mais limpa, que a fonte mesma. 

 

(…) 

 

Tanto deu, tanto bateu 

Co’a barriga, e co’as cadeiras, 

Que me deu a anca fendida 

Mil tentações de fodê-la. 

 

(…) 

 

De quando em quando esfregava 

a roupa ao carão da pedra, 

e eu disse “mate-me Deus 

com puta, que assim se esfrega.”

 

À mesma D. Ângela

“Anjo no nome, Angélica na cara,

Isso é ser flor, e Anjo juntamente,

Ser Angélica flor, e anjo florente,

Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara

De verde pé, de rama florescente?

E quem um Anjo vira tão luzente,

Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares,

Fôreis o meu custódio, e minha guarda

Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela e tão galharda,

Posto que os Anjos nunca dão pesares,

Sois Anjo, Que me tenta, e não me guarda”.

 

Entre o desejo e o desinteresse, a solidão da mulher negra

“Pensar os relacionamentos afetivos-sexuais na interface de raça e dos atravessamentos do racismo, podem propiciar outras perspectivas, de que as estruturas sociais também tem algo a ver com isso. É um fenômeno experienciado de forma coletiva, embora tenha suas incidências e particularidades no um a um”.

– Camilla Vieira, em entrevista à J.Press

 

O processo da hipersexualização das mulheres negras as objetifica e as desumaniza. Junto aos estereótipos que servem como base para a sexualização excessiva, a mulher negra é retirada de sua diversidade, de sua condição enquanto ser humano e de suas necessidades afetivas. É com base nisso que uma problemática específica toma espaço: a solidão da mulher negra

Camilla Gomes Vieira, psicóloga, mestranda em Psicologia Social na UFMG e autora do projeto de pesquisa intitulado “Experiências de solidão afetivo-sexual em mulheres negras como repercussão do racismo estrutural”, explica que não há um consenso acerca de uma definição fixa da solidão da mulher negra, mas que “no campo afetivo-sexual pode ser entendida como a intersecção de fatores sociais como o racismo estrutural que cria condições para preterimento destas de forma que não sejam vistas e escolhidas como objeto de afeto em uma frequência mais alta que outros segmentos de mulheres, por motivos de imposição social, não por desejarem estar espontaneamente sós”. Ou seja, frequentemente, as mulheres negras não são consideradas dignas de escolha em relacionamentos afetivos, muitas vezes devido a questões específicas de gênero, raça e consequentes racismo e sexismo.

Dentro do que seria a solidão da mulher negra, existe o apontamento recorrente de que no que concerne a relacionamentos amorosos, interraciais ou não, a mulher negra sempre corre o risco de ser trocada ou é trocada por uma mulher branca. Além disso, quando se relacionam com alguém não negro, não são assumidas com a facilidade que uma mulher branca seria. 

Resta à mulher negra enfrentar a dualidade do desejo e desinteresse. Desejo pelo imaginário social formado que a hipersexualiza e a estereotipa como um ser erótico, exótico, interessante ao homem pelo apelo sexual que o causa, da mesma maneira que há também o desinteresse.

Existe o imaginário de que a mulher negra deve ter o corpo cheio de curvas, ainda que magra, seguindo a representação da globeleza, modelo do carnaval. Quando não se encaixa nesse padrão, ela se torna desinteressante. “Muitas das vezes e como mulher negra, fui chamada a atenção ou por estar acima do peso ou por estar abaixo dele, pois a visão que muitos tinham é de que a mulher negra deve ter um corpão, com várias curvas e sem barriga.” conta Ana Carolina. Ela relata ainda que essa situação afetou sua autoestima, condição psicológica e a maneira que lida com seu corpo hoje.

Entre o desejo por ser hipersexualizada e o desinteresse por não seguir padrões estéticos, a mulher negra é prejudicada em seus relacionamentos e na maneira que enxerga seu próprio corpo. Camilla explica que a mulher que é frequentemente vista como um corpo e sem subjetividade, caso ela tenha o desejo de ter relações de compromisso e essa não for a realidade, podem surgir questionamentos que a responsabiliza em um âmbito individual: ‘o que há de errado comigo?’.

Quanto às consequências da solidão para a mulher negra, Camilla aponta que quando a mulher negra tem a percepção do “preterimento quanto a ser escolha afetiva”, o modo como ela se apresenta para o outro pode ser influenciado: “frequentemente voltado a um padrão estético da branquitude, que difere de seu fenótipo, mas que é visto como desejável ao outro”. Além disso, “para sustentar relacionamentos, pode acontecer a naturalização de submissão a situações danosas e de violências como parte a ser suportada para evitar a ausência de parceria amorosa ou até o celibato”, complementa.

 

A mulher negra hoje: pluralidade 

“É necessário avançar em não reduzir a mulher negra como categoria única, caminhando para a não-universalização e o reconhecimento que a mulher negra é plural em suas vivências e experiências”.

– Camilla Vieira

 

A hipersexualização pode afetar a maneira como as mulheres negras lidam com a sua sexualidade e inibí-las de terem experiências. Entender como as dimensões racista e sexista as perpassam, especificamente, permite não só à comunidade negra, mas também aos brancos combaterem o machismo, o racismo e as estruturas que perpetuam imagens objetificadoras e que, consequentemente, corroboram com a solidão da parcela feminina negra. 

A mulher negra, independente da maneira que escolhe lidar com seu próprio corpo e sexualidade, é um ser humano plural com necessidades afetivas e digna de amor, seja nas relações externas ou internas e identitárias. “Como bell hooks* bem aponta, o amor tem potencial curativo e de mudança. O amor não se trata de redução a relacionamentos afetivos-sexuais românticos, mas de adição e amplitude de relações e afetos, como o amor a si e à comunidade”, diz Camilla.

As mulheres negras hoje são resistência. São seres diversos, plurais e que lutam para quebrar a ótica construída no passado escravocrata do Brasil de que corpos negros são inferiores, servis e reduzidos a erotização.

 

*bell hooks [1952-2021] é o nome artístico de Gloria Jean Watkins, adotado em homenagem à bisavó. A escritora, autora, professora, teórica feminista, artista e ativista antirracista estadunidense utilizava ‘bell hooks’ escrito em minúsculo como forma de enfatizar, segundo ela, “a substância de meus livros, não quem eu sou”. 

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