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Angústia e imprevisibilidade marcam o drama holandês Instinto
CINÉFILOS
16 jan 2020 | Por Laura Scofield (lauradscofield@usp.br)

Se a procura é por um filme fácil de assistir, um drama para chorar e afogar as mágoas ou mesmo uma história que vá servir como base de uma nova reflexão crítica, Instinto (Instinct, 2020) não é a escolha certa. A produção holandesa de Halina Reijn tem sua essência definida por uma única palavra: angústia.

Nicoline (Carice Van Houten) é a protagonista. Uma psicóloga experiente que inicia um trabalho em uma instituição penal e tem sua atenção dirigida a Idris (Marwan Kenzari), um preso considerado exemplar por toda a equipe de saúde do local. 

Idris foi detido por crimes sexuais graves, é extremamente inteligente e, após 5 anos de detenção, está prestes a ter sua primeira saída em liberdade condicional desacompanhada. Nicoline é contra e busca convencer seus colegas. No processo, manipulação e tensão sexual se interpõem.

A obra é notável, intensa de formas não óbvias – o que a torna ainda melhor. Detalhista e minuciosamente construída, cada cena é essencial e adiciona mais um toque de receio ao espectador, que é incapaz de antever o desenrolar da história. 

A não obviedade repousa mais na constância da emoção gerada do que na explosão dela, diferentemente de filmes com grandes cenas e ápices. Mesmo contando com um ou outro clímax, a sensação de imersão e intensidade está igualmente presente no cotidiano, nas sessões de terapia e outras atividades típicas de uma instituição penal.

Enquanto busca desmascarar e provar a psicopatia de Idris, Nicoline luta para superar seus próprios traumas. Já ele se mostra intrigado pela terapeuta novata, que não compra sua história e perfil de bom comportamento. 

A análise mútua entre os dois bagunça as linhas que separam o profissional do pessoal. Mesmo profundas, as personagens mantêm certa distância do espectador, não sendo possível entendê-las por completo. Nunca se sabe o que esperar. 

Idris e Nicoline em um de seus encontros fora da sala de terapia. [Imagem: Divulgação]

Sem tréguas, no longa não existe uma única cena que arranque risadas leves – mesmo quando uma criança dança feliz pela tela, o espectador se questiona “por que exatamente isso está ali? Qual verdade oculta essa cena esconde?”. Algumas verdades são entregues e outras apenas pinceladas, o que pode ser uma falha de roteiro ou uma escolha consciente para intensificar o mistério. 

No que diz respeito aos aspectos técnicos, o filme é seco. Baseando-se em diálogos, conta com pouca e não muito marcante trilha sonora e carrega uma paleta de cores bastante fria. Os rostos – que revelam atores muito qualificados e profissionais – ganham enfoque, o zoom merecido das câmeras. 

Instinto me fez desobedecer meu próprio instinto de simplesmente levantar e sair da sala de cinema. Não por falta de qualidade técnica ou narrativa, mas pela sensação iminente de sentir muito mais do que esperava ou estava pronta para. O grande mérito de Halina é conseguir converter totalmente a angústia gerada na necessidade visceral de continuar a assistir. O desenrolar e o final valem. 

O longa estreia nos cinemas brasileiros no dia 16 de janeiro. Confira aqui o trailerhttps://www.youtube.com/watch?v=5auf8Q4fZT4

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