Por Aline Noronha (alinenoronha@usp.br)
Gravidez, fraldas, choros de bebês, amamentação e outras questões relacionadas à maternidade não são esperadas no mundo adolescente, mas acontecem. É essa realidade que Jovens Mães (Jeunes Mères, 2025) descreve. O filme está em exibição na 49º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo desde 26 de outubro e chega às telonas nacionais em 8 de janeiro do ano que vem.
“Por que você me abandonou?” Essa é a pergunta de Jéssica (Babette Verbeek) para sua mãe, de Perla (Lucie Laruelle) ao seu namorado, de Ariane (Janaina Halloy) para a vida que nunca pode escolher e de Julie (Elsa Houben) para si mesma. Todas são adolescentes que tiveram suas vidas mudadas drasticamente após um resultado positivo no teste da gravidez.
O longa dirigido e roteirizado pelos irmãos Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne traz à cena o típico olhar francês para problemas sociais, partindo do singular ao universal. A realidade de mães adolescentes na França, que é comum a países do mundo inteiro, proporciona ao público um exercício de escuta e observação a um desconforto social que é ignorado repetidamente.

Fragmentos de vidas reais
A essência da obra belga-francesa é a representação da realidade de diferentes adolescentes sob um estilo documental, sendo, inclusive, surpreendente lembrar que se trata de uma ficção. O estilo de filmagem próxima às personagens, a ausência de trilha sonora e o jogo de câmera colocam o público dentro de cenas bastante íntimas, o que causa até mesmo a sensação de ser como um intruso.
O espectador é convidado a entrar em um abrigo de jovens mães que vivem em apartamentos de baixo custo, possuem ajuda no cuidado dos bebês e contato com outras adolescentes em contexto similares. Enquanto isso, enfrentam conflitos familiares, emocionais e financeiros na busca por firmamento tanto na sociedade quanto como pessoas novamente após a maternidade.
Os Dardennes trazem um recorte da vida acontecendo como ela é, a vulnerabilidade não apenas da maternidade, mas da existência em si marcada por altos, baixos, conquistas e retrocessos. Entre os pequenos recortes das histórias das protagonistas, somadas às personagens secundárias, a humanização dessas mães é retratada, porém sem o aprofundamento esperado.

Representar os conflitos dessas vidas em menos de duas horas é uma atitude ousada e com o risco de comprometer o impacto que deseja passar. Apesar da proximidade criada com o público, falta algum elemento para que o público ultrapasse a linha do observador passivo, que ainda vê essa realidade com uma certa distância. Quem assiste não consegue se tornar um ativo que possui algum tipo de conexão real com o que está sendo contado, o que seria essencial para desenvolver um olhar mais empático.
Proximidade distante
A falta de monólogos que visem suscitar alguma consciência social e outros elementos que ganham o público pelo lado emocional gerou o que era esperado: o desconforto. Mas esse não consegue se sustentar a longo prazo pela falta de profundidade nas histórias das protagonistas.
A vida continua para os espectadores assim como para os personagens em um encontro rápido que vem e arrepia, mas passa. Em termos técnicos de produção, edição e atuação, o longa é surpreendente, já que o simples de maneira assertiva. No entanto, na trama, falta algo que a transformasse de bem feita a magnífica.
A chave para resolver essa questão está no roteiro, premiado no Festival de Cannes na categoria, mas que não é perfeito ou pode ser compreendido por todos os públicos de maneira similar. Na premiação, os irmão disseram: “Queríamos filmar essas jovens não como personagens, mas como pessoas — vivas, únicas, resistindo a serem enquadradas”, mas as escolhas estilísticas usadas têm suas limitações.

Naïma (Samia Hilmi), mulher no centro do pôster, tem um tempo de tela muito reduzido, o que a aproxima mais de uma posição secundária [Imagem: Reprodução/Imdb]
Embora, evidentemente, quem teve algum tipo de experiência com esse contexto se sentiria muito mais tocado pela obra, a reflexão causada ao público maior é fria, de maneira geral. Isso faz com que a representação seja mais aproximada aos moldes sociológicos para retratar que a gravidez na adolescência existe do que, necessariamente, provocadora de algum tipo de ação concreta.
Apesar do esforço e da boa intenção, o filme inevitavelmente reflete uma visão masculina sobre a maternidade e a condição feminina. Isso explica a sensação de falta de sensibilidade genuína ao retratar as dores e as experiências compartilhadas entre as mulheres, por mais que as ótimas atuações tenham, em certa medida, aproximado o público disso.
Para assistir Jovens Mães é necessário dosar as expectativas e ir de mente aberta aos recursos estilísticos que marcam as produções dos Dardennes. Por mais que, tecnicamente, seja uma obra que beira a perfeição, essa tem as suas limitações. Elas transformam uma experiência que poderia ser pré-entendida como emocionante em um desconforto que se sustenta somente a curto-prazo.

Esse filme faz parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Confira no site oficial as sessões disponíveis. Para mais resenhas do festival, clique na tag no começo do texto.
Confira o trailer:
*Imagem de capa: Reprodução/Imdb
