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Envelhecer é um privilégio

Como envelhece uma das primeiras gerações de LGBT’s a chegar à terceira idade fora do “armário”

Nada mais óbvio que o envelhecimento. E, no entanto, nada mais inadmissível que o envelhecimento. Todos os dias novas clínicas de estética inauguram procedimentos revolucionários, empresas de cosméticos criam mais um anti-idade inovador, mais uma tinta que melhor esconde os fios brancos, cirurgiões plásticos discutem novas intervenções que nos pouparão de mostrar qualquer sinal da passagem do tempo. As rugas, as manchas, a falta de firmeza da pele… tudo deve ser combatido, eliminado ou, no mínimo, atrasado ao máximo. É inaceitável envelhecer. E, não obstante, graças à marcha inexorável do tempo, e a teimosia da natureza, é exatamente isso que fazemos. Nunca se envelheceu tanto e se envelhece cada vez mais.

O envelhecimento da população já é uma realidade. Contudo, apesar dos esforços de especialistas em sugerir novas formas de encarar a velhice e o envelhecimento, inúmeros tabus, preconceitos e dificuldades ainda privam pessoas idosas de dar real significado à passagem do tempo. Envelhecer é um êxito, um fenômeno da ciência. Nunca na história tivemos expectativas de vida tão longevas. Porém, o que deveria ser celebrado como uma conquista da humanidade, torna-se um fardo. Um fardo compartilhado por cada vez mais pessoas, cabe dizer. 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2050, um quinto da população mundial será composta por idosos. Para o Brasil, as estatísticas caminham no mesmo sentido. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), daqui a 78 anos, em 2100, aproximadamente 40% da população será de pessoas acima dos 60 anos. Ao passo que a terceira idade se torna cada vez mais ampla, a juventude caminha na direção oposta. O número de menores de 15 anos deve cair de 25% para 9%.  

Os médicos, no que lhes toca, não parecem estar devidamente atentos e preparados para atender uma população que nasce cada vez menos e envelhece cada vez mais. De acordo com dados da Demografia Médica Brasileira de 2020, quatro especialidades concentram quase 40% dos especialistas, são elas: Clínica Médica, Pediatria, Cirurgia Geral e Ginecologia e Obstetrícia, respectivamente. A geriatria conta com apenas 2.143 profissionais (sendo apenas 0,5% do total de médicos) para atender um país inteiro que envelhece. A medicina parece viver um paradoxo no que concerne ao envelhecer, e ela não é a única.

Para o médico e gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro de Longevidade Internacional, o problema não para por aí. Há uma formação deficiente sobre envelhecimento, quem dirá sobre a sexualidade de quem envelhece. Não existe, que eu saiba, uma única campanha sobre HIV/aids, por exemplo, voltada para a velhice. Porque, supostamente, o velho está em casa lendo jornal e a mulher fazendo tricô ou cozinhando para o velho que está lendo jornal”, comenta.

As velhices LGBTQIA+

Em consonância com a população total de idosos, é possível supor que haverá também um aumento gradual na proporção de idosos LGBTQIA+. Contudo, o estudo sobre essa população demorou para conquistar o interesse dos pesquisadores. Para o antropólogo Carlos Henning, no artigo “Gerontologia LGBT: velhice, gênero, sexualidade e a constituição dos ‘idosos LGBT’”, o campo da gerontologia social, durante um longo período, voltou suas atenções para sujeitos heterossexuais, brancos, de classe média e com níveis escolares mais altos. Era o aposentado, do sexo masculino, heterossexual e cisgênero que caracterizava o idoso ideal. 

No entanto, esse cenário de pesquisas vem mudando consideravelmente nas últimas décadas, e estudiosos sugerem que a partir desse modelo geral não é possível entender experiências diversas de envelhecimento, e abrigar de forma eficiente sexualidades dissidentes e envelhecimentos gays, lésbicos, bissexuais, transexuais, entre outros. Pesquisadores vem se atentando um pouco mais para esses indivíduos que, tendo vivido contextos de intensa perseguição, controle e estigmatização, conquistaram o direito de envelhecer e atingem a meia-idade e a velhice em ambientes de maior abertura para expressar suas sexualidades. Porém, o envelhecer desse grupo, que deveria ser um aspecto positivo e uma conquista social, embasada por décadas de luta por representação e direito de existência, torna-se um emaranhado de silenciamentos e privações. 

Para Luis Baron, presidente da Eternamente SOU, ONG voltada para o atendimento psicossocial de idosos LGBTQIA+, essas velhices não têm a devida representatividade e atenção no movimento LGBT, e muito menos nos movimentos e serviços voltados para os idosos. “Esse é um recorte praticamente inexistente. Se você fala de etarismo, você não fala da população LGBTQIA+, se você fala da população LGBTQIA+, você não fala de etarismo. São coisas que parecem andar separadas, exatamente porque as pessoas não acreditam que possa existir velho gay”. Essa população acaba sendo duplamente invisibilizada e por essa razão, mais exposta à vulnerabilidades e a ausência de cuidados, mesmo tendo sido a militância desses, hoje, idosos, que permitiu a conquista de inúmeros direitos para essa comunidade.

 

 

[Imagem: Reprodução/ Matéria Globo.com ]

Imaginemos um idoso LGBTQIA+ que complete ou tenha completado 70 anos em 2022, isso significaria que ele nasceu em 1952. Esse idoso, portanto, viu o alvorecer da luta LGBT nos anos 1970 e a projeção dos direitos desse grupo a nível nacional, vivenciou a repressão e o controle dos corpos durante a Ditadura Militar, e o enquadramento da homossexualidade como doença, que durou até 1985. Acompanhou a epidemia de HIV/Aids nos anos 1980 e seus episódios preconceituosos, violentos e arbitrários, como a Operação Tarântula, que aconteceu em 1987 e chegou a prender 300 travestis, com a justificativa de combater a doença. Aliás, cabe dizer, que coube justamente a população LGBTQIA+ o protagonismo na luta contra a Aids e a articulação em diferentes frentes para combater, além do vírus, a estigmatização da doença. Aos quase 70 anos, Dora Cudignola, lésbica, confirma essa realidade: “a gente tinha medo. Medo de se revelar, de dizer algo que pudesse se voltar contra nós mesmos”, relembra.

Em 1996, esse idoso, viu a realização da Primeira Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, e ao longo dos anos viu este evento se tornar o principal evento público da cidade. Viu a cirurgia de transgenitalização ser incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) em 2009, a primeira contabilização de casais homossexuais feita pelo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, o reconhecimento de Uniões homoafetivas em 2011 e a criminalização da homofobia em 2019. Esse grupo etário, portanto, viveu desde contextos de fortes perseguições até os de maior liberdade e conquistas. Para Dora, “hoje está mais fácil dizer para todo mundo que eu sou lésbica, eu não me importo mais com o que vão dizer. Eu já passei por isso. Hoje é mais aberto”.

De todo modo, o que parecia impensável, tornou-se uma realidade para muitas pessoas LGBTQIA+. Homossexuais podem se casar e adotar crianças. Pessoas trans podem ser reconhecidas pelo seu nome social com todas as prerrogativas legais, sem a necessidade de laudos médicos ou autorizações judiciais, há, em partidos políticos de diferentes orientações ideológicas, setores voltados para a população LGBTQIA+ e a formulação de políticas públicas para a promoção de direitos e combate a homofobia. 

Além disso,  essas pessoas podem envelhecer pela primeira vez fora do “armário”, sem esconder suas identidades de gênero e suas orientações sexuais. A velhice LGBTQIA+ é, também, resultado de anos de luta, e de uma atuação militante no combate à homofobia e por políticas públicas de saúde voltadas para o cuidado e atenção às necessidades específicas desse grupo populacional. Isso não significa, obviamente, que os inúmeros problemas enfrentados por essa população simplesmente deixaram de existir, pelo contrário. Para Kalache, “quando você é velho, é lésbica, é gay, é semi-analfabeto… tudo isso vai fazendo com que você fique mais discriminado. E as barreiras que você tem que vencer para poder dar certo são muito piores”. 

Mariconas, bichas velhas, sugar-daddys, tiozões…

A sexualidade pode ser considerada um aspecto primordial do comportamento humano. Sexualidade ultrapassa a realização do ato sexual em si e abrange identidades, erotismo, papéis de gênero, orientação sexual, prazer, reprodução, entre outros. Apesar da sexualidade estar presente em diversas dimensões – atitudes, desejos, valores, pensamentos, -, nem sempre ela pode ser vivenciada de maneira livre, sem que atraia repressões ou julgamentos.

Muitos dos LGBTQIA+ que hoje são considerados idosos viveram períodos de liberdades muito mais cerceadas e vigiadas, onde muitas vezes não era possível compartilhar sua orientação sexual sem serem rejeitados ou perseguidos. Muitos tinham receio de admitir sua sexualidade para si mesmos, devido aos estereótipos negativos que eram atrelados à população LGBT. Não são raros casos de pessoas LGBTQIA+ que demoraram anos para assumir suas orientações, ou “sair do armário”, muitos constituíram até mesmo casamentos heterossexuais, tendo filhos biológicos dessas relações. O processo de aceitação interna e externa é plural e diverso, sendo uma experiência individual marcante para aqueles que vivenciam orientações sexuais tidas como não-normativas. 

É o caso de Dora, que aos 19 anos vivia uma relação heterossexual, que resultou em uma gravidez e um casamento que durou mais de 10 anos. Somente depois dos 30 anos Dora viveu sua primeira relação homossexual, precisou de mais alguns anos para assumir sua sexualidade publicamente. “Não assumi perante a sociedade, mas perante a mim já estava assumida”, explica. Hoje, a pedagoga aposentada e vice-presidente da Eternamente SOU, cuja filha também é lésbica, não vê motivos para esconder sua orientação sexual, para ela “ é preciso mostrar pros outros que você ainda está na luta, que você quer mostrar a sua cara. [É preciso mostrar] que eu quero ser feliz e você deve querer também”.

As velhices também são experiências plurais e diversas. De acordo com o sociólogo Guilherme Passamani (2015), a preocupação com a debilidade e com doenças parece ser um fator comum entre idosos heterossexuais e LGBTQIA+. No entanto, o processo de envelhecimento LGBT tem especificidades, uma delas é a preocupação com o preconceito e limitações ao livre exercício da sexualidade. Essa preocupação não é de todo descabida. Segundo o especialista em Gerontologia Diogo Félix, em audiência pública na Comissão dos direitos da pessoa idosa da Câmara dos Deputados, em maio do ano passado, de cem Instituições de Longa Permanência de Idosos (ILPIs) consultadas na cidade de São Paulo, apenas uma  identificou um gay entre os residentes, e o mesmo vinha sofrendo violência por parte de outros idosos que viviam no local. Além disso, há relatos de que muitas vezes, travestis e transexuais têm de reassumir suas identidades biológicas para que possam receber acolhimento nessas instituições. 

Há um projeto de lei (PL 94/21), de autoria do deputado Alexandre Frota que busca alterar o Estatuto do Idoso e incluir entre seus princípios e objetivos o respeito à orientação sexual e à identidade de gênero dos acolhidos em instituições de longa permanência. O projeto, apresentado no ano passado, ainda aguarda a designação de um relator na Comissão de Constituição de Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados. Baron lembra que “a sexualidade não sai de você porque você atravessou uma fronteira. Ela é intrínseca. O estatuto do idoso não menciona a sexualidade. Quando você não menciona a sexualidade você já exclui todas as possibilidades de sexualidade que são imensas de dentro das velhices”. 

Além dos desafios práticos de envelhecer sendo uma pessoa LGBTQIA+, é preciso salientar que o peso do envelhecimento parece mais intenso nesta comunidade. Para os aplicativos de relacionamento, passar dos 30 anos, às vezes até menos, já é um fator de exclusão. Adjetivos como maricona, bicha velha, sugar-daddys e tiozão, são frequentemente utilizados para se referir a homossexuais que se aproximam ou ultrapassam os 30 anos de idade. 

A J.Press passou aproximadamente 20 dias utilizando o aplicativo de relacionamentos Grindr, que é voltado para o público LGBTQIA+. Nesse aplicativo, não foi difícil encontrar perfis que limitavam o contato para pessoas maiores de 30 ou 40 anos. Muitos declaravam suas preferências pelos “novinhos”. Júlio*, 27 anos, disse não ter preocupação com a idade real de seus pretendentes, mas garantiu não gostar daqueles que aparentam ser velhos. Já, Lorenzo*, de 22 anos, disse não se relacionar com nenhum rapaz que ultrapasse os 28 anos de idade: “Já acho velhos demais para mim”, mas não tem problemas em se relacionar, por outro lado, com homens mais jovens que ele. Dr. Kalache lembra que envelhecer para uma pessoa LGBTQIA+ é mais complexo, “porque existe o problema da solidão. Existe um preconceito muito grande dos jovens LGBT em relação aos velhos, os ‘maricas’ que envelheceram, eles são rechaçados. Isso complica.”

 

[Imagem: Reprodução/Instagram Mídia Ninja]

Foi justamente na Parada LGBTQIA+ que Luis Baron, 62 anos, sentiu pela primeira vez o impacto do envelhecimento. Para ele, o reconhecimento de que envelhecia foi um diagnóstico dado de fora para dentro. 

“Eu estava na Parada de 2017. Estava com meu [então] namorado, ele era mais velho que eu. Nós estávamos de mãos dadas, quando um casal gay mais jovem passou e falou: ‘olha, os velhinhos vem na Parada!’. Na hora eu fiquei bravo. Falei: ‘velhinho é o cacete!’, dei um chega pra lá neles. Mas aquilo acendeu uma luz. Esse reconhecimento e a necessidade de trabalhar com esse assunto veio de fora para dentro e a partir desse momento eu comecei a pensar muito seriamente sobre essas questões.”, relembra. 

Para ele, envelhecer no Brasil já deve ser considerado um privilégio. Um privilégio que expõe as inúmeras desigualdades que costuram nosso tecido social. “Quando se fala em envelhecer no Brasil, a gente não pode esquecer a pergunta que eu sempre faço, que é: quem tem direito às velhices? Quem tem direito às velhices LGBTQIA+?. O simples fato de envelhecer já deve ser considerado um privilégio. Chegar à velhice, apesar dos pesares, no país tão desigual que nós temos, já pode ser considerado um privilégio. Quando a gente fala em termos de velhice LGBTQIA+, aí você pode considerar essa pessoa muito privilegiada.”. Os dados confirmam as falas de Baron. Enquanto a expectativa de vida média do brasileiro ultrapassa os 70 anos, a de uma pessoa trans mal chega aos 36.

Para Kalache, uma das formas de fazer esse país dar certo é justamente investir no processo de envelhecimento. É preciso olhar para o envelhecimento com seriedade e políticas públicas e é preciso ressignificar constantemente a velhice, “porque se não você dá os pulos, dos 20 para os 30, dos 30 para os 40, dos 40 para os 50, dos 50 para os 60, sem perceber que existe uma coisa que é envelhecer, nós todos estamos envelhecendo”. O médico lembra que “envelhecer é bom. Morrer cedo é que não presta. O velho é um jovem que deu certo!”.

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