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‘Meu Pai’ transborda empatia no rasgar da lógica cotidiana
CINÉFILOS
08 abr 2021 | Por Luanne Caires (lcaires@usp.br)

Quando o tecido da realidade se despedaça diante de nossos olhos, é difícil saber em quem confiar. Essa é a premissa de Meu Pai (The Father, 2020), filme que marca a estreia do dramaturgo francês Florian Zeller como diretor de cinema. A trama nos apresenta o dilema de Anthony (Anthony Hopkins), que, aos 81 anos, se vê diante de circunstâncias cada vez mais incertas após sua filha, Anne (Olivia Colman), informá-lo de que deixará Londres para viver em Paris. Com a mudança, Anne precisa encontrar alguém para assumir os cuidados diários de seu pai, mas ele reluta em aceitar a incapacidade de se cuidar sozinho. Fatos estranhos começam a acontecer e Anthony não sabe ao certo se o problema está em sua própria mente ou em um plano de sua filha para livrar-se dele e roubar seu apartamento. 

A produção inova ao colocar o espectador na perspectiva de Anthony, o que alimenta uma crescente dúvida em quem assiste: seria o personagem um simples narrador não confiável ou estaríamos sendo enganados como ele? Para construir o clima de suspense, Meu Pai explora alterações sutis de cenário, trocas inesperadas de atores e cortes secos que delimitam uma narrativa circular, com cenas que se repetem, mas nunca da mesma forma.

 

Em Meu Pai, uma das filhas de Anthony aparece em um quadro em sua casa.

O quadro sobre o aparador é um elemento de cenário importante e se relaciona a um dos suspenses da trama: onde está Lucy (Imogen Poots), a outra filha de Anthony? [Imagem: Divulgação/California Filmes]

O filme, nesse sentido, permite nuances mais finas do que sua versão original, pensada para o teatro, onde mudanças de cenário geralmente exigem um fechar e abrir de cortinas. Apesar disso, talvez em uma homenagem ao universo teatral, o cenário é reduzido e as portas do apartamento cinematográfico muitas vezes se abrem e fecham como marcas importantes do enredo. A adaptação para as telonas se baseia na peça O Pai (Le Père, 2012), de autoria de Zeller, e é fruto da parceria do francês com o dramaturgo e roteirista inglês Christopher Hampton (Ligações Perigosas). 

Além de aumentar o suspense, a construção da narrativa pelo olhar de Anthony nos aproxima do drama vivido pelo protagonista. É impossível conter a emoção diante da performance espetacular de Hopkins. O ator transita por variações de humor com a mesma rapidez com que a realidade parece mudar no filme. E é justamente no jogo entre lucidez e confusão, alegria e raiva, que a produção traz pequenos momentos cômicos e leves — um respiro necessário tanto na obra quanto na vida. 

A decadência progressiva do Anthony personagem é espelhada nos mínimos detalhes pelo Anthony ator e evidencia a dor de juntar os fragmentos de uma mente que se esvai. A interpretação impecável rendeu a Hopkins sua sexta indicação ao Oscar, quase trinta anos após ele ter levado a estatueta de melhor ator por seu papel como Hannibal Lecter em O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs, 1991).

 

Anthony Hopkins interpreta o personagem Anthony em Meu Pai, indicado ao Oscar de Melhor Filme

A desesperança de Anthony ao ter consciência de sua nova condição é um dos momentos mais marcantes e empáticos do filme. [Imagem: Reprodução/YouTube/California Filmes]

Mas a angústia na trama não se restringe ao octogenário. Embora Anthony seja a estrela, a obra é também uma ode às pessoas que convivem com ele, especialmente Anne. Do ponto de vista da filha de meia idade, uma decisão difícil se impõe: até que ponto cuidar da vida do pai a impede de cuidar da própria vida? A reflexão independe de ela estar casada, divorciada ou no início de um novo amor, algo que só fica claro ao fim da história. Aliás, a compreensão sobre a real condição amorosa de Anne exprime de forma avassaladora os custos que a demência traz às relações de todos os envolvidos. 

Colman representa com maestria as contradições inerentes à posição de sua personagem. De um lado, a atriz entrega a delicadeza exigida pelo amor e pelo cuidado com alguém querido. Já em outras cenas, impacta-nos ao expressar a profundidade do sofrimento e do desconcerto quando Anthony deprecia as conquistas de Anne, acusa-a de más intenções ou — o que mais dói — simplesmente não a reconhece. 

A força da atuação de Colman lhe garantiu uma indicação ao Oscar como melhor atriz coadjuvante. É a segunda indicação de sua carreira. Em 2019, ela já havia vencido como melhor atriz ao interpretar uma personagem também chamada Anne, no caso rainha da Inglaterra, em A Favorita (The Favourite, 2018).

Anne, interpretada por Olivia Colman, é a filha de Anthony em Meu Pai.

O encontro com uma das candidatas a cuidadora resume diversas mudanças de humor na relação entre pai e filha. [Imagem: Divulgação/California Filmes]

Quando a mente se torna inimiga e a vida é um labirinto de incertezas, não há espaço para a teimosia, mas sim para o medo e a solidão. Por isso, Meu Pai é um lembrete de que é preciso gentileza e paciência com quem enfrenta as limitações irreversíveis impostas pelo correr do tempo. Tudo isso sem desrespeitar a condição adulta do outro e sem minimizar os desafios e limites de quem é responsável pelo cuidar. 

Para reforçar essa mensagem, é importante a oposição entre os comportamentos do suposto marido de Anne (Mark Gatiss e Rufus Sewell) e das cuidadoras Laura (Imogen Poots) e Catherine (Olivia Williams). O genro protagoniza momentos de impaciência e até eventos de maus tratos, sejam eles reais ou não, enquanto as cuidadoras utilizam uma abordagem mais amena, mas quase infantil, ao lidar com as confusões de seu paciente. 

Como a produção reflete cruamente medos e dores reais, é difícil classificá-la como drama, suspense ou um daqueles filmes que nos assombram por semanas, ainda que não sejam de terror. Seja qual for a classificação escolhida, a obra é, acima de tudo, um retrato universal de como somos um grande emaranhado de memórias, sem as quais só nos resta perguntar: “Quem sou eu, exatamente?”. 

Indicado a seis categorias do Oscar, incluindo melhor filme, Meu Pai se junta a Amor (Amour, 2012) no panteão de produções belas, tristes e inesquecíveis sobre o cotidiano da senescência. 

A estreia brasileira do filme está prevista para 09 de abril, por meio das plataformas digitais Now, Apple TV e Google Play. Confira o trailer legendado

*Imagem de capa: Reprodução/YouTube/California Filmes

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