Home Cultura Observatório | Incêndio na Cinemateca mostra o descaso da cultura no atual governo
Observatório | Incêndio na Cinemateca mostra o descaso da cultura no atual governo
JPRESS
08 ago 2021 | Por Gabriela Lima (gabi.lima2711@usp.br) e Rebeca Alencar (rebs.alencar@usp.br)

Dia 29 de julho foi um péssimo dia para o patrimônio cultural nacional. Um dos anexos da Cinemateca Brasileira, localizado na Vila Leopoldina, Zona Oeste da capital paulista, sofreu o quinto incêndio de sua existência. Considerado o maior acervo audiovisual da América Latina, o local armazenava parte de arquivos da instituição, constituídos por mais de 250 mil rolos de filmes com cem anos de história.

 

[Imagem: Reprodução/TV Globo]

A emergência foi acionada por volta das 18h daquele dia, e as chamas foram controladas cerca de uma hora depois. Imediatamente após isso, a Polícia Civil assumiu as investigações em relação às causas do incêndio. No entanto, a responsabilidade foi passada para a Polícia Federal a pedido da Secretaria Especial de Cultura, responsável pela administração do anexo. O motivo era a categorização da Cinemateca como uma responsabilidade do Governo Federal, que também deveria tomar a frente do processo.

Segundo o Corpo de Bombeiros, o fogo teria iniciado devido à manutenção de um ar-condicionado do local. Durante uma das etapas, o equipamento teria soltado uma faísca que deu início à tragédia e fugiu do controle da equipe responsável. Ainda no dia 29, a Secretaria de Segurança Pública afirmou que o espaço possuía o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), que reconhece a existência de aparelhos adequados para o controle de possíveis incêndios, mas a Defesa Civil negou a afirmação.

Não foi o primeiro… será o último?

É a quinta vez que a instituição é atingida por uma destruição desse porte, fora a inundação ocorrida em 2020. Em vista da sequência de tragédias quase sempre no mesmo padrão, há de se questionar: o que há de errado com a Cinemateca?

Fechada há mais de um ano, seus funcionários foram demitidos pela falta de pagamento, além do atraso em contas de água, energia e serviços de manutenção. Tamanho foi o descaso que, em 2020, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação contra o Governo Federal pelo abandono da instituição cultural. Em maio deste ano, a ação foi suspensa após a União se comprometer a resolver o problema em 45 dias, esse prazo venceu no início de julho e o incêndio no final do mesmo mês revela que nada foi feito.

De acordo com Fabián Núñes, professor do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense, a ausência de funcionários para cuidar do espaço indica sérias falhas administrativas. “É importante ressaltar que sem trabalhadores não existem arquivos. Preservação não é apenas manter um prédio com as condições supostamente mínimas de conservação, mas sim um conjunto de atividades realizado de modo contínuo e constante, como higienização e catalogação, o que exige uma mão de obra qualificada atuando de modo sistemático”, explica.

Fabián ainda ressalta que a preservação nunca foi parte das políticas públicas do audiovisual. “Por lei, uma parte da verba arrecadada pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) deve se destinar para a preservação, o que jamais foi feito”, critica. Ex-funcionários da Cinemateca também alertavam que o espaço não se encontrava em boas condições e precisava de maior atenção das autoridades.

 

Arquivos destruídos dentro da Cinemateca após o incêndio do dia 29 de julho. [Imagem: Reprodução/Fotos Públicas/Corpo de Bombeiros PMESP]

A instituição não sofre apenas com a falta de trabalhadores especializados, a sua própria gestão passou por turbulências ao longo dos anos. Durante o governo Temer, em 2018, a administração da Cinemateca passou para a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), contrato esse que terminou em 2019. Em 2020, a Secretaria de Cultura do governo Bolsonaro prometeu que selecionaria uma nova organização para ficar responsável pela Cinemateca. No entanto, essa promessa também não foi cumprida.

Todos os problemas que a Cinemateca vem enfrentando desde 2018 corroboraram, de alguma forma, para a tragédia do dia 29 de julho. Principalmente no que se diz respeito ao papel do governo, que segurou investimentos. O professor Rafael de Luna, coordenador do Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da UFF (LUPA), conta que a Cinemateca começou como uma instituição privada. Em 1984, ela entrou para o governo e foi quando recebeu maiores investimentos e uma melhoria na infraestrutura. Quando esses recursos são diminuídos radicalmente, o resultado são tragédias como a de 2000, 2016 e, agora, 2021. “O incêndio, algo tão avisado por profissionais do setor, ocorreu sem maiores surpresas, pois todos nós sabíamos dessa trágica possibilidade”, complementa Núñes.

O que isso diz sobre a valorização da cultura no nosso governo?

O desprezo por instituições culturais no Brasil não é nenhuma novidade. Os incêndios no Instituto Butantã em 2015, no Museu da Língua Portuguesa — que está sendo reinaugurado esse ano — também em 2015 e aquele que devastou o Museu Nacional em 2018 apenas confirmam essa ideia. Em 2019, o governo Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura e reduziu os orçamentos na área cultural, continuando a política de depreciação da cultura.

 

Fachada da Cinemateca Brasileira em São Paulo [Imagem: Clara Angeleas/MinC]

“Salta aos olhos, mesmo durante o hoje tão propalado ‘período áureo’ da Cinemateca Brasileira nos anos 2000, a quantidade ínfima de recursos destinados à CB”, destaca Fábian. A surpresa vem da negligência das autoridades em função do patrimônio audiovisual do país, que carrega uma importante bagagem histórica-cultural.  Segundo ele, conhecer o “cinema do passado” nos mostra quem somos, para que, com isso, consigamos projetar nosso futuro. “A questão é que hoje em dia perdemos a nossa memória e o nosso futuro foi sequestrado”, afirma.

Para que esse cenário mude, o professor destaca a importância da comunidade cinematográfica “furar a bolha” e chamar a atenção da sociedade para a relevância da Cinemateca como uma instituição coletiva, não apenas do interesse de cineastas e pesquisadores. Restringir a responsabilidade da preservação apenas ao Governo Federal também não é ideal, já que, segundo Rafael, a produção da sétima arte está espalhada por todo o país e deve ter uma gestão mais detalhada. “A cinemateca brasileira é uma instituição grande, mas ela não dá conta, ela nunca vai dar conta de todo patrimônio audiovisual brasileiro”, afirma. 

O professor Fabián complementa que a Cinemateca é um interesse de todos, e é necessário dialogar com as autoridades para demandar melhorias. Ele ainda cita a existência do Plano Nacional de Preservação Audiovisual (PNPA), desenvolvido pela Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA). Esse documento é um guia de propostas políticas para ajudar a pensar a preservação audiovisual no Brasil. “Infelizmente, vivemos em tempos obscuros, quando se rasga constituições, nega-se o acesso e se distorce as informações, além de minguar recursos, drenando-os para os interesses privados”, finaliza Núñes.

J.Press
A J.Press é uma agência de grandes reportagens que procura novas perspectivas de mundo. Com forma e conteúdo plurais, quer explorar assuntos a fundo, mesmo sabendo não ser possível esgotá-los. Em nossa agência, questões de interesse público ganham novos ares. Todos os textos da J.Press começam com uma pergunta, mas não pretendem chegar a uma única resposta.
VOLTAR PARA HOME
COMENTÁRIOS
Dani Alvarenga
Incrível como as jornalistas relacionaram o ocorrido com a falta de interesse governamental. É bom saber também que nem sempre foi assim, então ainda temos esperanças de um dia isso melhorar. Infelizmente, essas tragédias em instituições tão importantes não são acidentes, mas sim um projeto político.
20 ago 2021
 
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*