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Observatório: Cem anos da timidez ousada de Clarice Lispector
Na Estante
13 dez 2020 | Por Pedro Ferreira (umpedroferreira@gmail.com) e Thiago Gelli (thiago.gelli@usp.br)

No dia 10 de dezembro, a escritora e jornalista Clarice Lispector completaria 100 anos de idade. Considerada um dos maiores nomes da literatura nacional, seus textos intimistas perpassam a psique e a experiência humanas com autenticidade própria. Clarice é, também, a escritora brasileira mais traduzida do mundo, com textos publicados em 40 países e disponíveis em 32 idiomas.

Autora de memoráveis obras, seu trabalho transcende as barreiras geracionais ao ser reconhecido e aclamado por admiradores das mais diversas idades. Lembrada pelos jovens vestibulandos como uma vanguardista da terceira fase do movimento modernista; apreciada pelos adultos que se sentiam tocados pela melancolia do árduo processo de viver descrito em seus livros. A sensibilidade de Clarice estava no tato.

Introspectiva, tímida, melancólica e dona de uma atmosfera misteriosa que a circundava. Sua figura no imagético social oscilou por diversas formas, mas jamais deixou de causar reflexão e apreço. A escritora considerada à frente de seu tempo permanece viva através de sua arte imortalizada e é relembrada após um século de existência, antes e depois da morte.

 

“Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado.”

Perto do Coração Selvagem

 

Em honra do centenário de sua figura tão marcante, festividades vêm ocorrendo e sendo preparadas desde o ano passado por todo o Brasil. Dadas as limitações da pandemia, algumas foram postergadas, como a exposição Constelação Clarice, centrada em interpretações visuais de sua vasta produção, organizada pelo IMS Paulista e agora prevista para julho de 2021. 

O Instituto Moreira Salles, mesmo assim, criou um site destinado à comemoração. Disponibilizada ao público em 10 de dezembro, a plataforma junta em design poético escritos raros, registros fotográficos, um campo de estudos e até mesmo um relato de Paulo Gurgel Vicente, filho de Lispector, sobre a relação com a mãe. 

Para quem deseja um panorama mais diverso sobre a vida da escritora, o especial organizado pela TV Cultura no fim de 2019 é uma boa pedida, repleto de depoimentos de especialistas e até trechos de entrevista com a própria autora.

No âmbito acadêmico, o debate segue ganhando novo fôlego. Ricardo Pinto, professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro e organizador da Clariceana — encontro de pesquisadores de Clarice Lispector — conta que a terceira edição do evento, que ocorreu online de 7 a 11 de dezembro, mergulhou no que chama de “oceano inteiro” de sua obra.

Segundo ele, a complexidade e riqueza de seus escritos proporcionaram o debate de “novas” perspectivas. Dentre elas, a renovação do interesse em seu trabalho mais popular em jornais e revistas, ou mesmo em textos encomendados — costumeiramente desvalorizados pela crítica. Análises filosóficas e existencialistas sobre seu trabalho também continuam a ganhar respaldo e diferentes facetas.

Clarice Lispector

Enquanto viva, Clarice chegou a ter 8 romances, 8 coletâneas de contos e 5 livros infantis publicados. [Imagem: Reprodução/ Identificação parcial [Antonio]/ Acervo Clarice Lispector / Instituto Moreira Salles]

“Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor.” 

“Explicação de uma vez por todas”, em Todas as crônicas.

 

Vinda de uma família judia, Chaya Pinkhasovna Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 em Chechelnyk, na Ucrânia. À época, o país era parte da União Soviética, que passava pelos desdobramentos da Revolução Bolchevique. Diante do antissemitismo presente no período, os pais dela decidiram emigrar. Em 1922, chegam ao Brasil e adotam novos nomes. Chaya torna-se Clarice.

A família passou por Maceió e Recife até se estabelecer no Rio de Janeiro, onde Clarice se formou em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durante a graduação, ela trabalhou como repórter na Agência Nacional, dando início à dupla profissão de jornalista-escritora. Publicações de notícias, entrevistas e serviços como ghost writer eram comuns em seu cotidiano, mas os textos literários nunca foram abandonados.

Seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, foi lançado em 1943 e recebeu honrosos elogios da crítica brasileira. Laços de Família (1960), foi o primeiro livro de contos que escreveu e, para Ricardo Pinto, é a melhor introdução para a obra clariceana. “Dificilmente alguém passa pela leitura de textos como ‘Amor’, ‘A imitação da rosa’ ou ‘A menor mulher do mundo’ sem ser modificado”, ele afirma. 

A Paixão Segundo G.H. (1964) e A Hora da Estrela (1977) são as produções mais renomadas e estudadas da autora. Pouco tempo depois da publicação desta última, Clarice sofreu complicações por um câncer de ovário detectado tardiamente. Ela morreu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos. Seu último romance, Um Sopro de Vida, foi lançado no ano seguinte.

“Foi uma vida totalmente entregue à produção textual e, desta forma, inscreveu seu lugar de modo inquestionável no campo literário”, afirma Ana Carolina Abiahy, mestre em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Além dos romances, novelas, contos, crônicas e livros infantis publicados, o legado de Clarice está, também, em seu olhar progressista quanto às desigualdades sociais e, sobretudo, à condição feminina no século 20. 

Clarice Lispector

Já postumamente, quinze obras de sua autoria chegaram às estantes nacionais. [Imagem: Reprodução/ Maureen Bisilliat/ Instituto Moreira Salles]

“Muito antes de sentir ‘arte’, senti a beleza profunda da luta.”

“Literatura e Justiça”, em Todas as Crônicas 

 

Na contemporaneidade, algo que fomenta o interesse pela obra de Clarice é sua experiência da condição feminina e a ótica que desenvolveu quanto a isso na literatura nacional. 

A autora, que começou a escrever ainda na adolescência, estava ambientada em tempos nos quais mulheres necessitavam da permissão escrita por maridos ou pais para trabalhar e viajar, e espaços como a Academia Brasileira de Letras eram restritos a homens. Clarice, mesmo assim, persistiu em nome da disseminação de sua obra com a “timidez de ousada”, que descreveu em entrevista concedida à TV Cultura em 1977, a última que fez. 

Sobretudo, não abriu mão do olhar feminino. Para Lucia Castello Branco, doutora em estudos literários pela Universidade Federal de Minas Gerais, “sua voz se impôs, mas pouca gente sabia ler essa feminilidade na época, e menos ainda os aspectos feministas de sua obra. Hoje, creio, depois de tanto tempo, isso começa a acontecer”.

Um de tais aspectos que cativa debate e intensifica a atemporalidade da obra da escritora é a escrita que “não trabalha com fatos, mas com a repercussão deles no indivíduo”, diz Ana, cuja tese de mestrado foi “Representações da tensão entre o sujeito feminino e a sociedade em Clarice Lispector”. 

Em diversas de suas narrativas, Lispector cria personagens repletas das “angústias das mulheres que foram criadas para corresponder a um padrão do patriarcado, o estigma da mãe-esposa-dona-de-casa exemplar, que começam a perceber rupturas neste perfil e novas possibilidades de existência”, aponta a acadêmica. Personagens essas que se entrelaçam facilmente com a busca atual pela equidade de gênero, a qual confronta pressões irreais e opressões sistemáticas diversas. 

Mariana Bijotti, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, destaca como exemplo o romance de estreia Perto do Coração Selvagem (1943), no qual a autora introduz ao público Joana, protagonista que já quer transgredir as normas sociais do matrimônio e maternidade, semblante da independência carregada por outras de suas personagens e que borbulhava no feminismo da época. 

 

“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”

Perto do Coração Selvagem

 

Um século após seu nascimento e décadas após suas obras mais célebres, Clarice permanece no epicentro da formação intelectual e humanística brasileira. O que deixou a seus leitores foi a busca sem fim pelo inominado.

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