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Livros de vestibular: visões sobre a obrigatoriedade

Como a exigência dessas obras influencia no leitorado jovem

JPRESS
15 out 2019 | Por Bruno Militão (brunomilitaog@gmail.com)

Chega, enfim, o Ensino Médio. Já é cobrada dos jovens a escolha por uma carreira. Direito, Engenharia, Medicina, são essas as mais queridas pelas famílias não necessariamente dos estudantes. Escolher apenas uma em um mar de opções é complicado. Mais complicada ainda é a etapa que separa o aluno da universidade: o vestibular. 

Cansaço, estresse, noites mal dormidas, tudo isso pode ou não ter feito parte da rotina de um vestibulando. Há uma situação, no entanto, que é comum a muitos estudantes que prestam vestibulares: a leitura de obras da literatura de língua portuguesa. Você pode ter passado ou estar passando por isso, assim como os repórteres e diretores da Jornalismo Júnior

“A minha experiência foi boa, já que sempre gostei de ler, desde pequena”, comenta Amanda Mazzei, primeiranista do curso de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP). “Foi algo incentivado pela minha família, não via isso como uma obrigação, via mais como um prazer, mesmo.” Ela diz que acabou gostando de todos os livros da lista da Fuvest — vestibular para ingresso na USP —, em contrapartida dos colegas, que os consideravam chatos. “Eu tinha preconceito por livros clássicos, e comecei a ler na época do vestibular. Me surpreendi!”

Segundo o professor José Alves de Freitas Neto, coordenador executivo da Comvest, órgão responsável pelos vestibulares de ingresso da Unicamp, esse é o objetivo que buscam na escolha dos livros da lista do vestibular: conquistar os alunos pela leitura. Além de dialogar com a educação básica, a escolha visa a “pluralidade para estimular a descoberta de novos autores”. 

Algumas das obras pedidas pela Comvest e Fuvest contemplam escritores e períodos com os quais as Bases Curriculares brasileiras não estão acostumadas. São elas que determinam quais obras serão trabalhadas em sala de aula, no caso da disciplina de literatura. Os autores a serem estudados foram publicados até aproximadamente a década de 1960, ou seja, há pouca literatura contemporânea. É o caso de Terra Sonâmbula, do moçambicano Mia Couto, e Mayombe, do angolano Pepetela, que não estavam presentes nos currículos do ensino básico.  


Estudantes fazendo prova de vestibular [Imagem: G1/Reprodução]

Segundo Paulo Ferrarezi, professor de ensino médio e cursinhos pré-vestibulares e coordenador do curso de Letras do Centro Universitário de Votuporanga (Unifev), a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — o novo currículo a ser implantado — parece contemplar a literatura contemporânea,  mas, atualmente, não o faz. “Além da literatura africana de língua portuguesa, em teoria, parece incluir também a literatura indígena. Mas de modo geral, a não ser que seja uma escolha do próprio professor, nem mesmo a literatura contemporânea brasileira ou as mais antigas que não são consagradas é contemplada nos currículos atuais.”

Para Ferrarezi, uma leitura mais acessível na dimensão linguística pode auxiliar o aluno: é assim com a literatura contemporânea, mais próxima da atualidade. “As obras normalmente utilizadas como obrigatórias, geralmente canônicas [clássicos que são referência em um certo período], são arcaicas, têm uma linguagem arcaica”, diz ele. Isso geraria um confrontamento entre a vida real do estudante, e a vida que ele vê nessas obras. “Mesmo a linguagem na ponta da língua ainda são duas, como disse Drummond”, afirma o professor em referência ao distanciamento entre a escrita e a fala, ainda maior quando se trata de obras de séculos passados.  

O professor do curso de Editoração da USP José de Paula Júnior concorda com Ferrarezi no que diz respeito à obrigatoriedade dessas leituras. Para ambos, tudo aquilo feito como uma obrigação tende a ser desagradável e desinteressante. “Exigir que alunos leiam obrigatoriamente uma determinada obra pode provocar um efeito aversivo. Mas a coerção não se dissocia da educação. Essa sensação pode mudar radicalmente, de acordo com o modo pelo qual tal obra é apresentada pelo professor”, declara de Paula. 

Ferrarezi comenta que, em diversas situações em sala de aula, após contar o enredo de certas histórias, os alunos lhe perguntam sobre as obras. Ou seja, há um interesse, mas a questão da linguagem ainda pesa. “Quando na sala de aula, nós, professores, temos um filtro de adequação de linguagem e vocabulário para os dias de hoje.”

Talvez esse seja o exemplo do professor “movido por legítima paixão e proficiente conhecimento”, como define De Paula, que consegue apresentar essas obras de forma a estimular o aluno. Mas independente das dificuldades na leitura, para ele, entrar em contato com a nossa literatura e analisar a história da língua “contém a possibilidade de entendermos melhor a nós mesmos, à nossa cultura, aos nossos hábitos e valores contemporâneos. Afinal, somos seres que se configuram, entendem (ou desentendem) e se expressam historicamente”.

Uma maneira de facilitar a compreensão dessas obras seria o contato com outras disciplinas, interdisciplinaridade. “Aprendi muito sobre a África e sobre Angola lendo Mayombe, fazendo com que me interessasse mais pela história desse país”, comenta Amanda Mazzei. Depois de ler a obra de Pepetela, foi buscar mais informações sobre a África, já que os currículos hoje não contemplam sua história. 

O mercado editorial no Brasil fatura cerca de 4 bilhões por ano, uma cifra expressiva em valor absoluto, mas não muito quando considera-se que mais da metade trata-se de livros didáticos, além da grande expressão de livros religiosos e de auto-ajuda. Ainda assim, a média é de que o brasileiro lê 2,5 livros por ano, um número muito baixo quando comparado com outros países. “Se a educação de qualidade, do ensino fundamental ao segundo grau, realmente fosse implantada em todas as escolas de todas as regiões do País, o leitorado poderia ser ampliado de modo admirável”, aponta De Paula, o qual também comenta dos problemas que acarretam esse quadro, como a desvalorização do magistério. 

Ferrarezi conclui dizendo que outra maneira de se aplacar os problemas com a linguagem dos livros é o dialogismo. Isso se refere à promoção de um diálogo entre o chamado cânone — obra consagrada — e outras que, hoje, são de conhecimento geral dos jovens. Invocando essas obras e colocando-as lado a lado “recupera-se a produção com mais intensidade. Se me interesso pelo assunto no presente, consigo resgatar o passado”. 

 

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