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Observatório I A corrida pela vacina: lições da imunização no Brasil e pelo mundo

Com vacinação lenta, Brasil ultrapassa 500 mil vítimas da Covid-19, enquanto países como EUA e Israel estão com número de mortes despencando devido à alta cobertura vacinal  

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27 jun 2021 | Por Bianca Camatta (biancacamatta@usp.br) e Fernando Cardoso (fernando.cardoso3801@gmail.com)

No sábado, 19 de junho, o Brasil ultrapassou a marca de 500 mil mortos pela Covid-19. Em 29 de abril, o número era de 400 mil. Em menos de dois meses cerca de 100 mil vidas foram perdidas. Junto a isso, o ritmo de imunização no país ainda é tímido, tendo apenas cerca de 11% da população totalmente vacinada, segundo o Our World in Data.

A pressão diante da velocidade da vacinação no Brasil surge devido ao avanço da imunização em outros países. Antigos e atuais aliados do governo de Jair Bolsonaro, como os EUA e Israel, flexibilizaram medidas de restrição desde março, após terem registrado progresso na vacinação da população.

 

Como chegamos a essa marca?

Em março de 2020, quando o coronavírus já mostrava sua rápida propagação em países da Europa, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em pronunciamento nacional criticou as medidas sanitárias recomendadas e se referiu à doença como “gripezinha”, levando à população uma minimização da gravidade da situação.

Para o professor de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Alcides Miranda, a tentativa de Luiz Henrique Mandetta — até então Ministro da Saúde — de uma atuação “minimamente responsável” no início da pandemia se tornou inviável diante da aposta presidencial de que a imunização ocorreria naturalmente pela infecção do vírus.

Com essa discordância entre Ministro da Saúde e presidência, o cargo já teve três trocas de titulares, o que gera instabilidade na gestão da crise sanitária. Isso é apenas “mais um sintoma de efeito colateral da parte de um governo que optou deliberadamente por negligências intencionais e, em decorrência, por omissões criminosas”, comenta Miranda.

Ocorreu, ainda, o incentivo de medicações ineficazes como forma de tratamento precoce. Só na divulgação desses remédios, o governo gastou cerca de 23 milhões de reais, segundo documento enviado à CPI, enquanto a propaganda da vacinação intensificou-se apenas em abril deste ano. 

 

E as vacinas?

Em agosto de 2020, 70 milhões de doses da vacina Pfizer foram oferecidas ao Brasil, que recusou a compra. Segundo a farmacêutica, a entrega dessa oferta ocorreria em dezembro, o que permitiria a antecipação da imunização em cerca de um mês. 

Para Jair Ferreira, professor de epidemiologia da UFRGS, havia duas possibilidades de erro: comprar e, posteriormente, não ter a aprovação do imunizante ou não comprar e ter um atraso no processo de vacinação. Já para Miranda, a Anvisa deveria ter agilizado as questões burocráticas. Ele explica que, pela análise da mudança do perfil de letalidade em decorrência da cobertura vacinal, é possível dizer que a medida teria evitado milhares de óbitos e contido a circulação de novas cepas. Ele ainda lembra que a falta de aprovação não foi um problema na compra da Covaxin por preço superfaturado.

Chegada do primeiro lote da Pfizer no Brasil apenas em 29 de abril [Imagem: Ailton de Freitas/MS]

A falha na divulgação da vacina também prejudica o processo de imunização, pois gera medo à população quanto à efetividade e aos efeitos do imunizante. Nesse contexto, Ferreira ressalta que as vacinas contra o coronavírus podem causar reações, assim como qualquer outra, o que não deve ser um empecilho para o indivíduo, visto que a medida é essencial.

Em meio a essas questões, um pouco de esperança surgiu entre os brasileiros quando alguns governos estaduais  anteciparam a vacinação dos adultos. Entretanto, para Miranda, mesmo que exista uma expectativa quanto ao cumprimento dessa previsão, é preciso ter cautela. Ele explica que o discurso da mídia se baseia nas iniciativas de aquisição, que se diferenciam da real disponibilização, gerando uma falsa impressão de que as vacinas já estão no país. 

 

A imunização ao redor do mundo

Nos EUA, o esforço na busca de um imunizante começou ainda nos primeiros meses da pandemia. O governo de Donald Trump, mesmo desprezando o vírus e descumprindo protocolos de saúde, investiu na descoberta de uma vacina ainda em maio do ano passado. A Operação “Warp Speed”, iniciativa lançada pelo poder federal, repassou bilhões de dólares para empresas do ramo farmacêutico com objetivo de auxiliar em um processo de testagem e manufatura mais dinâmicos.

As primeiras compras de imunizantes ocorreram em julho, quando Trump confirmou a compra de 100 milhões de doses da vacina da Pfizer/BioNTech, antes mesmo da aprovação do profilático. Ao final do ano, já eram 500 milhões de doses adquiridas, entre os imunizantes da Pfizer/BioNTech e da Moderna. A vacinação se iniciou ainda no governo do republicano.

Quando o democrata Joe Biden tomou posse em janeiro, o ritmo da imunização foi acelerado. Repassou-se mais recursos para estados e outros pontos de vacinação foram abertos. O congresso de maioria democrata também aprovou um pacote de medidas estratégicas, o “American Rescue Plan Act”, para direcionar o país na recuperação econômica após a crise.

Outro país que obteve sucesso na vacinação foi Israel. O governo de Benjamin Netanyahu garantiu vacinas da Pfizer/BioNTech antecipadamente ao comprar os imunizantes por preços acima do mercado. Uma medida polêmica adotada pelo primeiro-ministro israelense foi o fornecimento de dados de saúde dos vacinados para estudos da empresa norte-americana. A decisão colocou Israel no topo da lista de prioridades da Pfizer.

O país também contou com seu sistema de saúde universal e integrado para distribuir as vacinas entre a população. A união das entidades de saúde pública israelenses foi determinante para estabelecer um controle sobre os dados de contaminação e vacinação dos israelenses. As eleições legislativas de março deste ano foram a principal razão pelo esforço de Netanyahu na imunização rápida do país. 

Primeiro-ministro israelense comemora 1 milhão de doses aplicadas ainda em janeiro [Imagem: Haim Tzach / GPO]

Apesar do êxito na vacinação, EUA e Israel foram alguns dos países a receberem críticas pela falta de cooperação com nações mais pobres. Para Vinícius Rodrigues, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Oxford e pesquisador na área, o cenário não é de surpreender: “É a lógica da auto ajuda. Os países vivem em um mundo hobbesiano, onde não há nenhuma autoridade acima deles. Para sobreviver, eles só podem confiar em si, portanto acabam tomando atitudes egoístas. É um mundo que já vinha se esboçando antes da pandemia, devido ao declínio na cooperação internacional”.

Na direção contrária de EUA e Israel, e semelhante a situação brasileira, a Índia é um dos países que sofre com a vacinação lenta. O governo de Narendra Modi também menosprezou a Covid-19 e promoveu aglomerações durante os primeiros meses deste ano. 

Com o aumento da contaminação, o subinvestido sistema de saúde indiano sofreu para conter a onda do vírus. No país, há apenas 8 leitos para cada 10 mil pessoas. O poder federal adquiriu somente 350 milhões de vacinas até o mês de maio. A população do país é de 1.3 bilhão de indianos.

A situação se agravou quando Modi abandonou os estados para negociar a compra de doses adicionais e permitiu que metade dos imunizantes fosse para hospitais privados. Com a falta de concorrentes na venda, os hospitais cobraram preços até cinco vezes maiores que o da compra. Em maio, adultos entre 18 e 44 anos foram autorizados a se vacinarem, o que causou  a escassez de doses.

A solução de Modi para controlar a situação foi o anúncio do dia 21 de junho, de que o governo passaria a financiar a compra de 75% das doses adquiridas pelo país, além de garantir a distribuição gratuita das vacinas. Após a decisão, a Índia bateu o recorde de doses aplicadas em um dia, superando a marca de 8 milhões de imunizações. A compra de mais imunizantes ainda é necessária.

 

*Imagem de capa: [Reprodução/Pixabay]

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