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Observatório | A saída de Nelson Teich e o Brasil no olho do “furacão coronavírus”
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24 maio 2020 | Por Camila Paim (camilapaimf@usp.br) e Maria Luísa Bassan (marialuisaobassan@gmail.com)

Na manhã do dia 23 de maio, Nelson Teich recusou o convite para ser Conselheiro do Ministério. O ex-ministro da saúde publicou no Twitter agradecendo o convite, mas afirmando que “não seria coerente ter deixado o cargo de Ministro da Saúde na semana passada e aceitar a posição de Conselheiro na semana seguinte.” O Ministério da Saúde está sendo comandado no momento pelo general Eduardo Pazuello, interino. 

“A vida é feita de escolhas e eu hoje escolhi sair.” Foi com essas palavras que Nelson Tech iniciou o pronunciamento anunciando sua demissão do cargo de ministro no dia 15 de maio. Após 29 dias no cargo, sucedendo Luiz Henrique Mandetta, que foi exonerado pelo presidente, Teich afirma ter auxiliado estados e municípios que passaram por dificuldades, ajudando UTIs com respiradores e EPIs (equipamentos de proteção individual). Além disso, foi construído um programa de testagem pronto para ser implementado.

Profissional de saúde realizando testes

Profissional de saúde realizando testes [Imagem: Reprodução/AFP]


Como fica a saúde?

Nesse período, a sociedade médica tem se pronunciado sobre possíveis medicamentos para tratamento de infectados pelo coronavírus. A cloroquina e hidroxicloroquina são drogas que tem gerado muita discussão. Alguns presidentes como Donald Trump, Nicolás Maduro e Jair Bolsonaro mostraram-se a favor do uso da substância. 

O novo protocolo para tratamento de pacientes do coronavírus indica o uso do medicamento para casos leves e graves. No Brasil, a discussão em torno da cloroquina parece ter tomado um rumo mais político do que científico. Para o cientista político Ernani Carvalho, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a politização do uso da cloroquina é “lamentável, pois estamos tratando de vidas humanas”.

Em manifesto, a Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) afirmou que “ainda é precoce a recomendação de uso deste remédio no tratamento da COVID-19, visto que diferentes estudos mostram não haver benefícios para os pacientes que utilizaram hidroxicloroquina. Além disto, trata-se de um medicamento com efeitos adversos graves que devem ser levados em consideração.”

A vice-presidente da SBI, Karina Bortoluci, em entrevista para o Observatório, afirma que a sociedade prefere não se pronunciar em relação às mudanças políticas do Ministério, mas que, individualmente, ela enxerga que é um período em que “a população precisa de uma liderança e de um posicionamento claro e nós estamos passando por um momento de muita insegurança.”

Além disso, Bortoluci reforça a importância do isolamento social como a única solução, atualmente, para controlar a subida exponencial da curva de casos. “Infelizmente não temos uma vacina, droga ou pílula mágica para nos proteger dos efeitos adversos da COVID-19. É necessário, de fato, o isolamento social. Não é todo mundo que consegue fazer esse isolamento, mas quem pode tem uma obrigação civil com o cidadão, de fazer isso por ele, pelos dele e por todos aqueles que não podem.” 

A SBI afirmou estar absolutamente a favor da medida como único recurso. “Eu, como cientista e pessoa, também sou a favor do isolamento social, e do distanciamento social para aqueles que trabalham na linha de frente, ou em alguma atividade que não pode ser suspensa nesse momento”, completa.


Mudanças no ministério e impacto na crise sanitária

A saída de Nelson Teich não foi a perda mais recente do Ministério da Saúde. Wanderson Oliveira, secretário de Vigilância em Saúde e membro do Ministério, anunciou que deixará o cargo nesta segunda-feira. Ele é um dos principais responsáveis pelas estratégias de combate ao coronavírus, e havia pedido demissão primeiramente em abril – a qual foi negada por Luiz Henrique Mandetta, Ministro da Saúde à época.

“A breve permanência de Teich à frente da pasta não permite uma reflexão sobre sua influência no cargo”, aponta Ernani Carvalho. Suas ações se basearam em tentar alinhar o Ministério da Saúde com as determinações do presidente Jair Bolsonaro, sobretudo quanto ao uso da cloroquina – um embate já enfrentado pelo seu antecessor no cargo.

O general e ministro interino Eduardo Pazuello

O general e ministro interino Eduardo Pazuello [Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress]

O ministro interino, general Eduardo Pazuello, nomeou cerca de nove outros militares para o segundo escalão, nenhum deles da área médica. Jair Bolsonaro já sinalizou que Pazuello irá ficar “por muito tempo” no Ministério da Saúde.

Ernani Carvalho explica que o Brasil vive atualmente um momento de dificuldade em termos de coordenação de políticas públicas na área de saúde. A discrepância de organização entre os próprios estados é evidente, mas a nível nacional, a situação é alarmante. “A coordenação nacional está aí para recompor e complementar as ações dos estados”, ele afirma.

Segundo Ernani, a partir do momento em que há uma falta de alinhamento entre o presidente e seu braço operacional, o Ministério da Saúde, torna-se difícil a passagem de mensagem tanto para as unidades da burocracia pública da Saúde, as secretarias dos estados, como para a própria população. “Essa ausência de alinhamento provoca uma confusão generalizada e tem rebatimento claro na qualidade do serviço prestado, a nível nacional e subnacional”, ele completa.


O Brasil e o mundo: que imagem estamos passando?

O nome do Brasil vem ganhando cada vez mais espaço nos principais veículos ao redor do mundo, não por motivos positivos. A saída de Nelson Teich repercutiu no jornal inglês The Guardian, com a manchete “Brasil perde segundo ministro da saúde em menos de um mês enquanto as mortes pela Covid-19 crescem”; o Diário de Notícias, de Portugal, publicou “Brasil perde segundo ministro da saúde durante a pandemia”, e o espanhol El Mondo apontou que “Jair Bolsonaro fulmina segundo ministro da Saúde em menos de um mês”. Internacionalmente, a figura do presidente Bolsonaro é associada como uma das principais responsáveis pela crise sanitária e política que o país enfrenta.

No dia 22 de maio, a Organização Mundial da Saúde declarou que a América do Sul é o novo epicentro da pandemia do coronavírus e que o Brasil preocupa por ser o mais afetado. Os vizinhos brasileiros já adotam uma série de medidas para conter a influência do Brasil, bem como a de Jair Bolsonaro.

Capa de jornal paraguaio, cuja manchete diz “Brasil é a principal ameaça na luta contra a pandemia”

Capa de jornal paraguaio, cuja manchete diz “Brasil é a principal ameaça na luta contra a pandemia” [Foto: Reprodução]

O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, fechou as fronteiras com o Brasil no final de março, e declarou em 8 de maio que “nem passa pela cabeça reabri-las”. Luis Lacalle Pou, presidente do Uruguai, aumentou o controle sanitário na fronteira brasileira, como forma de preservar o sistema de saúde do país, que não está saturado. Alberto Fernández, presidente da Argentina, mostrou-se preocupado com o Brasil, cujo “governo não está enfrentando o problema com seriedade”.

“O Brasil era uma referência internacional com o Sistema Único de Saúde (SUS), elogiado e adaptado por alguns países às suas realidades”, explica o cientista político Ernani Carvalho. Outros destaques na área da saúde, como o tratamento da Aids, tornaram o país conhecido e elogiado internacionalmente. 

Ernani expõe que “a atual gestão tem passado uma imagem de descoordenação e um certo despreparo para tratar questões relativas às perdas das vidas, e sobretudo a ausência de um alinhamento com as políticas que vêm sendo desenvolvidas pela OMS”. Para o cientista político, a imagem do Brasil sai arranhada com essa ausência de gestão da pandemia.

 

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