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Questão de tempo: acontecimentos históricos que paralisaram o esporte
ARQUIBANCADA
23 jun 2020 | Por Mariana Catacci (mariana.catacci@usp.br)

A pandemia do coronavírus impactou diversas atividades desde meados de fevereiro, e o esporte não ficou de fora: eventos adiados ou cancelados, corte das verbas, salários atrasados, jogos sem público; estes são alguns exemplos dos efeitos gerados pela transmissão acelerada do vírus. Mas essa não foi a primeira vez que um acontecimento global virou o cronograma do mundo esportivo de ponta cabeça. O Arquibancada selecionou os eventos históricos mais marcantes que fizeram a bola parar de rolar, confira!

 

Jogos Olímpicos

As Olimpíadas são, com certeza, finalistas entre os eventos com o maior número de cancelamentos ao longo da história. Contabilizando apenas os impactos gerados por guerras, já se somam três. 

Em 1916, devido à Primeira Guerra Mundial, os Jogos Olímpicos, que seriam sediados em Berlim, na Alemanha, foram cancelados. A guerra começou no ano de 1914 e provocou a suspensão de campeonatos menores em países europeus até 1918, já que muitos dos jogadores tiveram que servir em combate e grandes estádios foram usados como depósitos de munição.  

As Olimpíadas de 1940 também sofreram alterações. A princípio, a sede dos jogos seria Tóquio, no Japão, mas estes tiveram de ser realocados para a capital finlandesa, por conta do início da Segunda Guerra sino-japonesa em 1937. No entanto, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o campeonato precisou ser cancelado de uma vez por todas. As Olimpíadas seguintes (1944) tiveram o mesmo destino, e a capital inglesa só pôde sediar o evento no ano de 1948.

Poster dos primeiros Jogos Olímpicos pós-guerra

Crises econômicas também assolaram os jogos: em 1976, as Olimpíadas de Inverno aconteceram na Áustria, mas a sede original era Denver, nos Estados Unidos. Mesmo quatro anos antes do evento, a cidade já passava por uma recessão econômica, decidindo renunciar aos Jogos por meio de uma consulta popular.

 

Copas do Mundo

As queridinhas brasileiras também fazem parte do time afetado pelo contexto histórico de guerras. Em 1939, enquanto o Presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA) escolhia entre o Brasil e a Alemanha para sede da Copa do Mundo de 1942, o evento precisou ser cancelado, resultado do início da Segunda Guerra Mundial. Como o conflito se estendeu até o ano de 1945, a Copa de Mundo de 1946 também não aconteceu. 

Segundo Celso Unzelte, jornalista esportivo e integrante dos programas “Bate-Bola Debate”, da ESPN, e “Cartão Verde”, da TV Cultura, a principal diferença da magnitude dos eventos do século 20 para o século 21 é a globalização. Mesmo os eventos mais abrangentes, como uma Guerra Mundial, não atingiam uma proporção tão grande quanto atualmente: “A Copa do Mundo de 1942 parou, mas não pararam os campeonatos, aqui continuou tendo Copa América, por exemplo. É a primeira vez que temos isso globalizado dessa forma”.

A Copa do Mundo de Futebol Feminino, contudo, passou por algo similar ao que vivemos hoje com o coronavírus. Em 2003, o evento foi transferido da China para os Estados Unidos, devido à epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). O número de infectados e de casos letais, no entanto, foi muito menor do que os crescentes índices da Covid-19. Como indenização, a FIFA pagou US$ 1 milhão à China e a colocou como sede do evento em 2007.

Seleção brasileira na Copa do Mundo de Futebol Feminino, em 2007 [Imagem: Getty Images]

Campeonato Paulista

O chamado “Paulistão” é, definitivamente, o campeão no torneio dos cancelamentos, contabilizando dois vírus, duas revoluções e dois casos de tribunal.

A primeira suspensão aconteceu no ano de 1918, por conta da Gripe Espanhola, que deixou cerca de 35 mil vítimas fatais no Brasil, incluindo o presidente da época, Rodrigues Alves. A história desse Paulistão se assemelha a da edição atual, ainda suspensa pela pandemia, mas Unzelte aponta algumas diferenças, ressaltando que impactos atuais são muito maiores no âmbito esportivo: “O futebol daquela época era amador, não tinha rebaixamento, contrato com a televisão, nada disso era discutido. Hoje, é absolutamente impensável retomar só os jogos essenciais, porque isso gera um buraco financeiro”.

A segunda paralisação do Campeonato Paulista aconteceu durante a Revolta Paulista de 1924. O conflito teve seu ápice durante o bombardeio da cidade de São Paulo, fazendo com que o torneio fosse interrompido por dois meses. A Revolução Constitucionalista de 1932 foi ainda mais complexa, e o Paulistão foi paralisado por mais tempo. Com apenas metade das rodadas previstas, o Palestra Itália ganhou a competição, gerando reclamações por parte do São Paulo, que poderia virar o jogo em um segundo turno.

O Campeonato Paulista foi um dos principais esportes paralisados

Campeonato Paulista de 1924 – 2º Turno – Última Rodada [Imagem: Timoneiros]

Ocorridos como esses confirmam a opinião de Unzelte de que é muito ruim para o futebol brasileiro não continuar o que já começou. “A questão do rebaixamento pega muito, a maior tendência para o momento é congelar como está”. Por isso, o jornalista diz que os campeonatos mais afetados em termos esportivos são os estaduais, apesar de o Campeonato Brasileiro movimentar mais a economia, com um maior número de rodadas.

Já os conflitos de instância judicial e órgãos reguladores do Paulistão aconteceram na segunda metade do século. Em 1952, o Jabaquara, já rebaixado no ano anterior, apelou para o Conselho Nacional de Desportos (CND), que regulava o esporte na época, burlando o modelo de rebaixamento da Federação Paulista de Futebol (FPF). O trâmite judicial que garantiu a readmissão do time, por sua vez, atrasou o campeonato por muitos meses. 

No ano de 1979, o Corinthians levou um conflito para a Justiça: o então presidente do time, Vicente Matheus, considerou injusta a divisão das cotas de uma rodada dupla transmitida na televisão com os outros três times participantes, alegando que a torcida corintiana era a maior. Como retaliação, ordenou que o time não entrasse em campo. A decisão final do tribunal demorou meses, paralisando o Campeonato Paulista antes das semifinais.

 

Atrasos e cancelamentos pelo coronavírus

Sobre a situação atual, Celso Unzelte, que também é especialista na história do futebol, ressaltou alguns pontos interessantes. O jornalista enxerga os indícios de retomada do futebol brasileiro: “Às vezes, o futebol se acha à parte do mundo… e não é. Estamos vivendo uma questão de vida ou morte”. Para ele, isso é uma consequência da influência econômica sobre o esporte, que transformou o futebol em “um show que não pode parar”.

Unzelte destaca que a principal consequência da pandemia para os campeonatos esportivos será a questão do público, que, em sua opinião, só voltará aos estádios quando houver uma vacina para o coronavírus. “Os esportes vão voltar pra salvar a televisão, o que talvez exija uma democratização”. Ele cita o exemplo da Inglaterra, onde o governo condicionou a volta dos campeonatos à liberação dos jogos na TV aberta, para estimular os espectadores a acompanhar o futebol de maneira remota. “Esse ano muito dificilmente vai ter público no estádio”, diz Celso. O futebol na Inglaterra voltou no último dia 17.

Por último, o jornalista conclui que não é possível falar sobre esporte sem pensar em economia, política, saúde e sociedade: “Não existe ‘esporte por esporte’. Isso é coisa de gente alienada ou mal intencionada, é querer jogar as mazelas para baixo do tapete. Nunca vai ser ‘só esporte’, eles jamais podem estar desassociados”.

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