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Como era o futebol feminino antes de Marta
ARQUIBANCADA
24 jun 2019 | Por André Derviche e Mariana Carrara (andrederviche99@gmail.com e marianacarrara@usp.br)

Seis vezes vencedora do prêmio de Melhor Jogadora do Mundo, Marta Vieira Floriano, ou somente Marta, sem dúvida está na história como uma das maiores jogadoras de futebol feminino de todos os tempos. Contudo, como toda boa história no mundo das quatro linhas, sempre há um começo. E ele se deu antes do surgimento da jogadora. Talvez Marta tenha sido a grande responsável por estabelecer o futebol feminino da maneira como o conhecemos atualmente, porém, antes dela, outras jogadoras já haviam se destacado para dar continuidade a esse esporte encantador. O Arquibancada traz um pouco mais da história do futebol feminino e as mudanças pelas quais ele passou após o surgimento do fenômeno chamado Marta.

 

Um reino sem a rainha

Se tem uma característica que sempre esteve presente na trajetória do futebol feminino, pode-se dizer que é a sua constante superação. Com a primeira partida disputada oficialmente entre mulheres em março de 1895, na Inglaterra, os primeiros anos de existência desse esporte já proporcionaram a seus entusiastas grandes histórias de triunfo.

Em 1917, por exemplo, foi criada a Munitionettes’ Cup, uma das primeiras competições de futebol feminino da história. O nome do torneio fazia referência às mulheres que, além de atletas profissionais, também trabalhavam em fábricas de munição durante a 1ª Guerra Mundial. Na grande decisão, disputada entre as equipes inglesas Blyth Spartans e Teesside, melhor para os Spartans. Jennie Morgan foi a estrela do jogo, sendo responsável por marcar dois dos cincos gols da equipe vencedora, mesmo após se casar horas antes do jogo.

Mais tarde, em 1920, recordes de público foram batidos em uma partida disputada entre Dick Kerr Ladies e St. Helen’s Ladies. Na ocasião, mais de 53 mil pessoas se reuniram para assistir uma das figuras mais lendárias do futebol feminino da época: Lily Parr, do Dick Kerr, se consagraria ao longo de seus 30 anos de carreira por marcar mil gols antes mesmo de Pelé. Além disso, foi a primeira mulher a ser homenageada com uma estátua no Museu de Futebol de Manchester.

Após poucos anos de modesto estrelato e reconhecimento, muitas jogadoras foram forçadas a abandonar seus sonhos de se tornarem profissionais no futebol. O esporte feminino foi proibido na Inglaterra entre 1921 e 1971 diante da suposta concorrência com a modalidade masculina. Pouco antes, também sofreram com condenações por parte da imprensa e da população, que classificavam o esporte como “muito bruto para mulheres”.

No Brasil, a situação foi bastante parecida. Durante o governo de Getúlio Vargas, mais especificamente em 1941, o país tinha pelo menos dez equipes femininas formadas no Rio de Janeiro e outros núcleos concentrados em São Paulo e Belo Horizonte. Porém, devido à pressão da predominante classe conservadora , o futebol feminino foi proibido, em um decreto informal, por ser “incompatível com as condições da natureza feminina”. A decisão foi oficializada em 1965, durante o regime militar, só sendo revogada em 1979.

“Eram amistosos que ajudaram a divulgar que esse esporte também era praticado por garotas, detalhe que levantou a questão para ser debatida publicamente nos jornais da época. É esse futebol que vai incomodar, a ponto de demandar uma regulamentação do Estado para mulheres, que excluía sua participação em esportes que fossem contra a sua natureza” afirmou Aira Bonfim, pesquisadora do futebol feminino, em entrevista ao Arquibancada.

Acervo de notícia do Museu do Futebol, em São Paulo [Imagem: Roberta Nina/dibradoras]

Ainda assim, no final dos anos 50, as decisões arcaicas do governo não foram suficientes para deter o ímpeto de algumas jogadoras. O Araguari Futebol Clube, de Minas Gerais, por exemplo, reuniu nessa época um grupo de mulheres dispostas a subverter, clandestinamente, o estereótipo de “donas de casa”. “O Araguari FC, como outras tantas equipes da época, representou uma fase de resiliência feminina no Brasil. Mulheres nunca deixaram de jogar bola”, disse Aira Bonfim.

Jogadoras do Araguari Futebol Clube em dezembro de 1958 [Imagem: Antônio Gebhardt]

Com a prática aprovada somente em 1983, o futebol feminino ainda enfrentaria muitos obstáculos para superar as discrepâncias em relação ao masculino. As primeiras convocações para a seleção brasileira não tinham influência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O que de fato aconteceu, foi a liberação de grande parte das atletas do clube carioca Radar, que acabaram jogando as primeiras partidas com o que havia restado dos uniformes masculinos. Foi assim que a seleção brasileira de futebol feminino conseguiu conquistar o bronze em um torneio experimental da modalidade disputado em 1988, na China.

Mais tarde, com 61 anos de diferença em relação à versão masculina, a Copa do Mundo de Futebol Feminino foi criada. O torneio de 1991, também disputado na China, contou com a participação de apenas 12 equipes. Uma delas era a novíssima seleção brasileira. No campeonato, o Brasil perdeu para a Suécia e para os Estados Unidos, que conquistou o mundial daquele ano. Assim, a seleção terminou eliminada logo na fase de grupos.

Vale lembrar que o nível de competitividade dos primeiros torneios de futebol feminino ainda não era alto. A qualidade técnica se concentrava em seleções de países como Estados Unidos, com dois títulos no período, e Noruega, com uma conquista. Muito disso se relacionou aos investimentos que esses países fizeram e ainda fazem no esporte, desde condições de treinamento e formação primária de jogadoras até salários e patrocínios.

 

Um caminho promissor para a seleção

Em 1995, a seleção brasileira feminina conquistaria sua segunda Copa América. A campanha, realizada no Brasil, foi digna de aplausos. As atletas brasileiras aplicaram goleadas marcantes, como um 6 a 1 contra o Chile. Na final, venceu a seleção argentina por 2 a 0. O terceiro título viria em 1998, quando o Brasil derrotou novamente a Argentina na final, dessa vez com um 7 a 1. Naquela edição, Roseli, uma das primeiras jogadoras profissionais brasileiras, foi a artilheira com 16 gols.

Pouco antes, a seleção havia enfrentado um desafio maior. A vigésima sexta edição das Olimpíadas, sediada em Atlanta, nos Estados Unidos, marcou a estreia do futebol feminino no torneio após exatamente 100 anos de existência. A equipe das mulheres que representavam o Brasil em 1996 encontrava-se recheada de destaques. Era o caso da goleira Meg, que com 40 já havia participado das Copas de 1991 e 1995, e da Pretinha, artilheira da competição.

Nesse período, também se evidenciava o futebol da novata Formiga, então com 18 anos. Futuramente, a jogadora se consolidaria como a atleta com mais partidas pela seleção, atuando desde a Copa de 1995 até a edição de 2019, com 41 anos. Jogou sete Copas do Mundo, número recorde entre homens e mulheres.

O Brasil terminou em quarto lugar na competição, após perder a disputa pela medalha de bronze para a Noruega. Apesar disso, aquela edição contou com a participação de uma das maiores jogadoras brasileiras de futebol feminino: Sisleide do Amor Lima, a Sissi, foi uma das pioneiras do esporte no Brasil. Pertencente a uma geração de jogadoras formadas durante o período da proibição, Sissi foi convocada pela primeira vez em 1988, com 21 anos de idade. Depois disso, participou de duas Copas do Mundo (1995 e 1999) e de mais duas Olimpíadas (1996 e 2000).

A meio-campista teve participação importante na conquista da melhor colocação, até então, em Copa do Mundo. A seleção havia superado os rótulos de “amadoras” para chegar ao terceiro lugar no torneio de 1999. A edição foi marcada pela goleada sobre o México, por 7 a 1, e por um empate heroico contra a poderosa Alemanha. O gol de falta marcado por Sissi, artilheira do torneio, sobre a Nigéria nas quartas de final é até hoje lembrado como um dos mais bonitos da história da competição.

Sissi na Copa do Mundo de 1999, em duelo contra Noruega [Imagem: Vincent Laforet/Getty Images]

Nesse mesmo período, além de estrelas como Sissi e Formiga, também havia um outro nome de destaque no futebol feminino brasileiro. Era o de Mariléia dos Santos, eternizada como Michael Jackson pelo icônico narrador Luciano do Valle. A atleta se consagrou por marcar mais gols que Pelé. 

Assim, antes da chegada de “rainha do futebol”, a seleção brasileira feminina conquistou a América três vezes, atingiu a 4ª colocação olímpica e, em 1999, se consagrou no terceiro lugar da Copa do Mundo de Futebol Feminino. Ainda assim, havia um longo caminho, no Brasil, para se chegar aos padrões ideais de desenvolvimento desse esporte.

 

Um esporte sem fronteiras

Marta começou a jogar pela seleção brasileira em 2002, época em que o futebol feminino ainda encontrava dificuldades. Mas antes disso, muitas conquistas do esporte foram celebradas. Não só a Copa do Mundo foi criada em 1991, mas também o Campeonato Sul-Americano. Ainda nesse ano, o Campeonato Europeu passou a ser organizado pela UEFA, apesar de já existir desde 1984. 

O desenvolvimento na Europa foi anterior ao do resto do mundo. Antes mesmo da Marta começar a jogar, o futebol feminino no continente europeu havia atingido um patamar muito superior ao do resto. Por isso, hoje desperta interesse público e comercial, apesar de ainda ser bastante inferior ao masculino. 

Em entrevista ao Arquibancada, Lu Castro, jornalista especializada no futebol feminino, contou que “o caminho tem sido construído de modo paulatino em todos os países. Mas na Europa, o incentivo e a popularidade se destacam em razão das ações da UEFA, que não são de hoje. Há países como a Inglaterra que, antes de qualquer intervenção da FIFA, já fomentavam a formação de uma base nos clubes”.

Outro destaque nessa categoria é o futebol estadunidense. Depois da Copa de 1996, o futebol feminino foi igualado às demais modalidades do país, com os times representando franquias independentes. Nas universidade americanas, por exemplo, ele é mais forte que o masculino. 

 Por ter se consagrado como uma liga grande e estruturada, o futebol feminino nos Estados Unidos consegue atrair grandes estrelas mundiais do futebol, como é caso da Marta. Em 2009, após ser intitulada três vezes Melhor Jogadora do Mundo pela FIFA, a atleta anunciou sua transferência para o Los Angeles Sol. Nos Estados Unidos, Marta também passou pelo FC Gold Pride, Western New York Flash e Orlando Pride, onde joga até hoje. 

A seleção norte-americana é a maior campeã mundial, com três títulos, além de somar quatro medalhas olímpicas de ouro. Antes de Marta dominar a premiação, a americana Mia Hamm ganhou os dois primeiros prêmios de Melhor Jogadora do Mundo, em 2001 e 2002, tendo ficado em segundo nos dois anos seguintes. Até 2013, a norte-americana detinha o recorde de gols feitos, tanto por homens quanto por mulheres, na história do futebol. Hamm acumulou dois mundiais e duas medalhas de ouro e se consagrou como uma das mais importantes figuras femininas no esporte.

Mia Hamm jogando pela seleção dos Estados Unidos na Copa de 1999 [Imagem: Getty Images]

Outro destaque é Birgit Prinz. Depois dos três prêmios de Mia Hamm e antes dos seis de Marta, a alemã ganhou três vezes o prêmio de Melhor jogadora do Mundo, em 2003, 2004 e 2005, além de levar a Alemanha a duas vitórias de Copas do Mundo (2003 e 2007).

Depois de anos de precariedade e luta, é possível perceber a popularização dessa categoria, não só na Europa, mas como também nos Estados Unidos. Na Ásia, o futebol feminino vem conquistando muita qualidade, com métodos de trabalho eficientes, valorização salarial e excelente estrutura. 

No Brasil, porém, a realidade ainda é outra, mas a CBF começou a trabalhar para reverter essa situação. Em 2017, criou o licenciamento dos clubes para a disputa de suas competições oficiais e tornou obrigatório que cada clube que esteja participando do Brasileirão da Série A de 2019 mantenha um time feminino.

Na conquista do vice campeonato mundial, em 2007, jogadoras da seleção brasileira pedem apoio ao futebol feminino do país. [Imagem: Divulgação / Lance]

A jornalista Lu Castro afirmou: “Em termos de técnica, aqui nos sobra, mas falta o incentivo aliado à estrutura e popularidade para alavancar [o futebol feminino], de fato, com consistência, e não apenas em época de Copa do Mundo ou jogos olímpicos”. A popularidade, sem dúvidas, foi um desses fatores que avançou pela contribuição de uma jogadora em específico.

 

Além das quatro linhas

Que a Marta é uma das maiores jogadoras da história todos já sabem. Mas, além de seis vezes vencedora do prêmio de Melhor Jogadora do Mundo e maior artilheira, entre homens e mulheres, das Copas do Mundo, a futebolista não tem destaque somente na técnica. 

Antes dela, o futebol feminino teve grandes nomes, mas era muito precário e quase invisível. Muita luta aconteceu para o futebol feminino começar a ter relevância mundial, e Marta foi extremamente importante. A brasileira, com sua habilidade, driblou suas adversárias e o preconceito, ajudando a popularizar o esporte. 

Na presença dela, a seleção brasileira conquistou os Jogos Pan-americanos de 2003 e 2007, três Copas América, medalha de prata nas Olimpíadas em 2004 e um vice-mundial em 2007. A seleção se tornou mais competitiva, e a popularidade do esporte entre os torcedores aumentou.

Marta afirmou em entrevistas que, quando criança, não tinha referências no futebol feminino. Hoje, é ela quem virou referência – não só no Brasil, bem como no mundo inteiro – para tantas meninas que sonham em jogar bola, como é o caso de Rafaela, jogadora do Complexo Casa Verde, time vencedor da Taça das Favelas São Paulo 2019. 

“As minhas maiores referências no futebol feminino são a Marta e a Formiga, por serem duas campeãs. Não só por serem reconhecidas, mas pela história delas, a trajetória, tudo o que elas passaram. Tudo isso me incentiva a querer ser como elas e um dia, melhor”, afirmou Rafaela.

Marta comemora seu 17º gol em Copas do Mundo no duelo contra Itália, em 2019 [Imagem: Getty Images]

Para a historiadora Aira, “Marta é um exemplo, uma opção de caminho para qualquer criança, brasileira ou não. Quanto mais a imagem dela se populariza, viabiliza que outras pessoas tenham o desejo de se iniciar esportivamente, e o façam. Por gerações, o gênero, a ideia que de uma mulher era incapaz de jogar, afastou uma infinidade de pessoas dos esportes e do futebol”. 

O futebol feminino tem muita história antes da Rainha: a luta contra o preconceito, nomes de destaque, competições e histórias de superação. No entanto, Marta com certeza contribuiu para que não tenha só história, mas também muito futuro.

Arquibancada
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