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Coronavírus: mas e as crianças?
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16 jun 2020 | Por Sofia Kercher da Silva (sofiakdasilva@gmail.com}

É fato: nós subestimamos o conforto trazido pela razão. Quando o desespero da realidade da Covid-19 vem à tona, há certas coisas que podemos nos dizer para trazer calma e entendimento. A taxa de letalidade é de 5,2% no Brasil, atualizada dia 9 de junho pelo Ministério da Saúde; provavelmente sendo menor devido à quantidade limitada de testes; estando em casa a probabilidade de se contaminar beira a zero e todas as precauções – tais como lavar as mãos, passar álcool em gel, cobrir as vias respiratórias com máscaras e usar luvas quando se está fora de casa – estão sendo tomadas. Além da compreensão básica acerca do que é um vírus, como funciona, e o porquê de ser tão importante tomar as medidas citadas. Mesmo que esteja no grupo de risco e saindo de casa, a irracionalidade pode ser canalizada e contida: lave as mãos, use máscara, não toque no rosto. Ficará tudo bem. Pelo menos é o que pensamos. Mas e as crianças? 

Quando uma situação inédita como essa acontece em um mundo globalizado como o nosso, crianças são diariamente expostas a uma carga pesada de informações, conversas, notícias e morte. Em artigo publicado, a diretora-executiva da UNICEF, Henrietta Fore, afirma: “99% das crianças e dos adolescentes em todo o mundo (2,34 bilhões) vivem em um dos 186 países com alguma forma de restrição de movimento devido à COVID-19”. É difícil saber como essas milhões de crianças lidam com tudo isso e processam o que lhes beira o incompreensível. Bom, conversei com algumas delas para entender um pouco sobre a perspectiva que têm do momento, e, juntamente com Lilian da Silva Alves Domingues, educadora infantil há 23 anos, psicóloga e psicopedagoga e Samara Cunha Pacheco, psicóloga e psicopedagoga, analisar como esse marco histórico afeta e afetará sua saúde mental, bem-estar e memória. Suas vidas.

Crianças usando máscaras pelas ruas de Hong Kong. [Imagem: AFP]

Panorama da Situação

Primeiro, busquei ver se as crianças estavam cientes dos acontecimentos e entendiam o que está ocorrendo  mesmo que brevemente  ou se isso foi evitado pelas famílias por completo. Clara, de 7 anos, ao tentar explicar o porquê de estarmos todos em casa, diz: “Por causa da quarentena, ué. Por causa do coronavírus . Tem um monte de vírus, mas esse é um pouco pior. Acho que não vai durar nem mil dias, mais do que mil”. Quarentena. Coronavírus. Termos chaves da pandemia. Maia, de 8 anos, respondeu de modo similar: “Porque não pode sair de casa pelo Coronavírus, porque todo mundo pode ficar doente e ir pro hospital”. Novamente, Coronavírus. Hospital. Doente. Mesmo que seja improvável um aprofundamento, é bom ver que elas entenderam que é perigoso e é preciso ficar em casa. E isso se deve muito pela comunicação dos pais, que é tão crucial nesse momento. Samara, ao analisar alguns desenhos feitos pelos pequenos entrevistados, diz que “o adulto precisa ‘emprestar’ seu cérebro maduro para ajudá-la a compreender os fatos e resolver problemas”.

 

Escola e Rotina

Maia, que viajou ao interior assim que a pandemia irrompeu no Brasil devido aos seus problemas respiratórios, sente que está de férias (tirando, claro, as aulas virtuais). Nicolas, de 11 anos, por outro lado, diz que não. Ele tem os dois pais saindo para o trabalho diariamente, sua mãe trabalhando na indústria e seu pai com assistência social. Ele passa a semana toda afastado deles. Clara também pontua: “parece…, mas muito férias” referindo-se ao fato de estar, de acordo com ela, um tempo exagerado nessa situação. A resposta varia drasticamente conforme as mudanças nas rotinas das crianças e, principalmente, conforme sua condição social.

Além disso, recebi um par de sonoros nãos! ao perguntar se as crianças sentiam falta da escola. Nenhuma sente. Dos amigos e das brincadeiras, contudo, não deixaram de citar. Clara diz: “Eu sinto falta de muitas coisas… de ir no parquinho, de dormir na casa das minhas amigas e outras coisas assim… da escola não”. Para essa reação, Samara explica: “A ideia de escola está vinculada a cobrança. Criança não gosta! O excesso de atividades propostas nas escolas deixa-as cansadas, saturadas!”.

Independente da opinião das crianças acerca do tópico, a escola é para onde todas elas retornarão. Em entrevista à TV Cultura, a cofundadora da ONG Todos Pela Educação, Priscila Cruz, traz uma análise sobre a volta às aulas pós-pandemia. Ela afirma que, dentro desse contexto, não podemos considerar esse retorno como uma volta de férias. As crianças voltarão com inúmeras questões psicológicas, sendo possível terem lidado com morte, fome, violência e estresse tóxico. Lilian também reflete: “Acho que a longo prazo vai ter todo tipo de problema. Eu como professora fico pensando quando eu voltar para sala de aula, como essas crianças voltarão. Comunicação, socialização e aprendizado, esse período de isolamento ele vêm com as crianças de uma forma diferente”. 

É importante termos isso em mente: só porque uma criança teve uma experiência saudável, não significa que todas terão. Não somente isso, como nem todas tiveram acesso a aulas remotas, elas voltarão em níveis diferentes, e o cuidado e comunicação com as famílias precisará ser redobrado. Lilian também mostra as complicações com a falta de didática e paciência dos pais: “Os pais não dão conta de ajudar numa atividade simples. Eu percebo que até essa tarefa cansa muito os pais, eles não dão conta, e eles reclamam”. Também mostra que o tratamento psicológico precisará mudar de foco: “Os pais precisam ser olhados, porque não vai adiantar tratar a criança a ponto de fortalecê-la, ela conhecer os próprios limites, como aquela emoção se dá no corpo dela, como ela tem que agir naquele momento, se seus pais descontroem tudo o que ela conseguiu construir. Hoje eu vejo que são os pais que precisam ser acolhidos”. Posteriormente, Lilian explica exatamente esse acolhimento: trata-se da psicoeducação, para construir um aprendizado de como lidar com essas crianças e, ao invés de apontar os erros, promover incentivos. Tanto no contexto da pandemia quanto depois dela, isso é fundamental para o seu desenvolvimento saudável.

desenho do coronavírus feito por uma criança

Desenho de Clara representando o coronavírus

O que você está sentindo?

Gabriela, de 6 anos, manhosa, responde: “Eu sinto falta de estudar, abraçar as pessoas, beijar as pessoas, olhar pras pessoas com aqueles olhares assim… pra gente brincar, pra gente sorrir…. fazer várias diversões”. Clara, por sua vez, suspirando: “Eu tô cansada de ficar na quarentena… saudade de tudo”. Nicolas, muito pontual: “saudades dos meus amigos, família e rotina agitada” e Maia, simples assim: “Estou com medo e triste”.  Todas as respostas, apesar de serem formatadas de diferentes maneiras por causa das personalidades tão distintas, mostram temas em comum: saudades, tristeza, ansiedade. Como nós, adultos, sentimos. Para isso, Samara diz: “Seria bom que os pais, independente de condição financeira, tentassem acolher essas crianças. Vejo que muitas delas não tem suas emoções levadas em conta. Elas também sofrem. Brincar, abraçar, olhar nos olhos, é de suma importância.”. Lilian, por sua vez, conta de sua própria experiência. Diz que recebe relatos de crianças desenvolvendo TOC, ansiedade, pânico, tiques nervosos. Ela busca orientar aos pais que mudem sua maneira de abordar qualquer tópico, seja escolar ou não, com a criança. Afinal, comunicação assertiva, e não agressiva, é chave para que esse período não traga danos ao aprendizado e psicológico dos pequenos.

Mãe protegendo o filho

Mãe ajuda filho a colocar máscara no aeroporto de Kuala Lumpur, na Malásia 04/02/2020 [Imagem: REUTERS/Lim Huey Teng]

A Morte

Apesar de não ter entrevistado nenhuma criança que perdeu algum parente próximo, todas elas estão sendo expostas indiretamente ao assunto. Com os óbitos em larga escala e a banalização da morte, nem todos têm a habilidade necessária para tratar do tema. Samara explica que, quando o luto não é falado ou vivido, as lacunas que permanecem podem ser severamente danosas ao psicológico da criança. Para evitar que isso aconteça, ela sugere que, conforme as crenças da família, elas possam se reunir para dizer adeus. “Pequenos rituais de passagem, como sentarem juntos e verem fotos, lembrar do tempo feliz que viveram, orações… É preciso falar sobre o que dói”, diz ela.

Olhar para o passado também pode auxiliar na compreensão do futuro. Alan Geraldo, historiador com pós-graduação em gestão educacional, explicou um pouco sobre a pandemia da Gripe Espanhola, que durou de 1918 a 1920, e as consequências que uma geração negligenciada pode trazer. Alan ressalta que a preocupação com os cuidados da infância é algo contemporâneo. No século 20, ainda mais em um país rural como o Brasil, as crianças eram desprovidas de vontades, personalidade e necessidades. Isso é comprovado pelas estatísticas: a mortalidade infantil, tanto urbana quanto rural, era altíssima, afirma. Não só pela falta de hábito e cuidados, mas também pela falta de estruturas. Em épocas como a Primeira Guerra Mundial e a pandemia da Gripe Espanhola, nenhum cuidado a mais foi dado para essas crianças.

Alan nos conta: “A visão das crianças, a relação delas com aquela realidade é uma coisa muito interessante. Elas tinham muito mais proximidade e vivência com a morte, com a perda. Temos uma geração de órfãos que foi se reconfigurar com um trauma muito grande”. As consequências, nós conhecemos: “é justamente essa geração, que passa a infância assistindo a Primeira Guerra e depois a epidemia, que é a geração que fica adulta na época dos totalitarismos. Essa geração que teve um trauma de infância. É uma coisa que precisa ser explorada”. Ditadores e fascistas foram eleitos por crianças que cresceram nesse contexto, genocídios e violência foram relevados por elas. Claro, não afirmamos que nada como isso acontecerá no futuro. Mas é uma situação extrema para exemplificar a seriedade das consequências da negligência infantil. A frase “as crianças são o futuro” deve sempre ser levada em consideração: o dia de amanhã a elas pertence, e isso traz aos adultos uma grande responsabilidade com elas, especialmente no cenário atual.

Gráfico do IBGE abordando a mortalidade infantil, de 1930 a 1980

Futuro Incerto

Criança ou não, todos podemos concordar: é uma situação assustadora. É um momento raro na história e um do qual todos lembraremos, mas a nossa memória é constituída de maturidade e racionalidade, desenvolvendo-se conforme os anos passam. Não ter essas características em qualquer outro momento é uma vantagem, a ingenuidade e leveza de ser criança invejadas por todos. Mas não agora.

Não podemos, contudo, tratá-las como se, subitamente, precisassem fazer essa transição para entender o que está acontecendo nesse mundo tão complexo e nessa situação tão delicada. Precisamos, como disse Samara, emprestar nossos olhos, mas não conseguimos emprestar nossos anos de vida e experiências a mais. Como extensivamente dito pelas nossas especialistas, comunicação é essencial, e adaptar a conversa de maneira que elas consigam compreender também. Juntos, protegermos as Claras, Gabrielas, Nicolas e Maias de formar memórias negativas que impactarão suas vidas para sempre, e sim uma experiência diferente e positiva, uma “mudança de rotina” que só acontece uma vez no século.

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COMENTÁRIOS
Jorge Coelho
Excelente reportagem sobre um tema muito importante.
18 jun 2020
 
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