Por Matheus Ribeiro (matheus2004sa@usp.br)
Na temporada do futebol nacional, o período entre março e abril marca o início do Campeonato Brasileiro – principal competição no Brasil – e o final dos estaduais, modalidade mais antiga e tradicional do esporte no país. Porém, tornou-se frequente notar insatisfações do público e clubes e incoerências com a forma que essas competições são realizadas. O que gerou o debate a respeito do fim definitivo dos estaduais.
Defendido por aqueles que acreditam que esse tipo de campeonato atrapalha o futebol como esporte e produto. E atacado por outros que prezam pela tradição e importância deles a clubes de menor expressão, esse tema passa longe de ser algo raso.
Deve-se ter conhecimento que nenhum estadual é igual a outro, seja em sua organização ou importância. Todos os campeonatos possuem suas particularidades, o que os diferencia ao menos em algumas questões.
Origem dos estaduais
O surgimento dessa modalidade está diretamente ligado à introdução do futebol no país. Ao final do século XIX, em seu retorno ao Brasil, Charles Miller trouxe consigo instrumentos e regras para jogar o Esporte Bretão. Entretanto, havia a necessidade de criar uma competição que possibilitasse pôr em prática aquilo que foi importado pelo Pai do Futebol.
Diferente com o que aconteceu em outros países com forte tradição futebolística, a formação de um campeonato nacional era inviável para a época.
Celso Unzelte, jornalista esportivo e apresentador do canal ESPN Brasil, diz em entrevista ao Arquibancada: “ A gente está falando do final do século passado num país continental. Transporte, comunicação, era outro mundo. O mundo não era globalizado, se quer o Brasil era um país integrado”.
Como solução a esse cenário, foram criadas ligas locais que, primeiramente, limitaram-se a dimensões municipais. “Esse conceito de campeonato estadual, a gente é que revisou isso. Na verdade, o Campeonato Paulista era quase que municipal” explica Celso. Após a fundação da primeira competição de futebol, conhecida atualmente por “Paulistão”, em 1902, surgiram torneios semelhantes em diferentes estados do país. “Todos os estados tiveram seus Charles Miller”, complementa o apresentador.
Charles foi tricampeão paulista pelo São Paulo Athletic Club [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]
À medida em que times começam a disputar campeonatos de outras cidades – como o Santos no Campeonato Paulista –, houve a transição dos antigos torneios municipais às competições estaduais que conhecemos.
Perda de prestígio
Um dos principais pontos que permitiu a fomentação do debate, acerca da extinção dos estaduais, foi a perda de prestígio que esses campeonatos sofreram com o passar do tempo. Mesmo eles sendo uma importante página da história do esporte brasileiro.
Os primeiros questionamentos sobre o seu fim surgiram entre a década de 60 e 70, período em que foram criadas as primeiras competições nacionais. “Com a criação da Taça Libertadores, você tinha que escolher um representante do Brasil, para isso foi criada a Taça Brasil em 1959.”, comenta Celso.
Após a Taça Brasil, surgiram diversos outros formatos de torneios até o Campeonato Brasileiro se tornar o que é atualmente [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]
Esses questionamentos passaram a ganhar mais força a partir da década de 90, em que não apenas os campeonatos nacionais estavam sedimentados, mas também os internacionais. Os quais são mais valorizados por torcedores e clubes atualmente.
A predominância de jogos de baixo nível técnico e disputa entre times de pequena expressão também fazem com que essa modalidade seja pouco chamativa ao público.
Ainda mais ao considerar que, nos dias de hoje, não apenas podemos acompanhar competições nacionais, mas também campeonatos de outros países. Opções que podem ser mais atrativas ao público em detrimento dos estaduais.
Polêmicas
Outro importante fator que serve como pilar à discussão é a existência de inúmeras incoerências na maneira em que se realizam os estaduais atualmente. Aspecto que gera polêmicas não apenas entre torcedores, mas, principalmente, entre clubes e seus diretores, agitando os bastidores do futebol.
Lotação de calendário e desgaste de atletas
A maior parte dos estaduais são disputados ao longo do primeiro quadrimestre do ano (janeiro até meio de abril). O que sujeita o Campeonato Brasileiro a ser realizado em, no máximo, nove meses (fim de abril até dezembro). Todas as edições do “Brasileirão” são compostas por 380 partidas, disputadas por 20 times e dividido em 38 rodadas.
Isso, aliado às outras competições: Libertadores, Copa Sul-Americana, Copa do Brasil e torneios regionais; expõe a escassez de tempo para disputar os principais torneios e a sobrecarga no calendário futebolístico.
Por conta da disputa do “Super Mundial”, que acontecerá no meio do ano, o calendário brasileiro se tornou ainda mais justo. Os estaduais foram disputados em um período menor que o comum, o que reduziu o intervalo de repouso aos atletas [Imagem: Reprodução/X: @FIFACWC]
Esse calendário enxuto faz com que o futebol brasileiro não ofereça alguns benefícios aos clubes, nos quais estão presentes em outros países em que há uma forte tradição do esporte. O principal exemplo disso é a inexistência da “Data FIFA” no Brasil, período em que há a paralisação dos campeonatos para que ocorram jogos entre seleções.
Nesse cenário, é comum ver situações em que times têm que disputar partidas importantes desfalcados de seus principais jogadores, por eles terem sido convocados para representar seu país. O que dá o parecer de que as equipes podem ser prejudicadas por um bom desempenho de seus atletas na temporada.
O elevado números de jogos também causam uma sobrecarga nos próprios atletas. Por estarem submetidos a disputar inúmeras partidas, os jogadores tendem a atingir um nível de desgaste físico e mental intenso ao longo da temporada.
Esse esforço excessivo e as poucas e pequenas janelas de tempo disponíveis para que o elenco possa repousar, os expõem a um grave, e quase constante, risco de lesões, que podem atrapalhar tanto suas carreiras, quanto suas vidas fora dos campos.
Diversas personalidades do futebol mundial já expressaram publicamente o descontentamento com o excesso de jogos que é observado no calendário futebolístico [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]
Celso concorda que os estaduais são um agravante ao cenário, mas adianta: “Eles não são os principais culpados. Isso é um problema mundial. Tem futebol demais. Times europeus também têm problemas de calendário, Tirar os estaduais não vai resolver isso”.
O jornalista acrescenta: “Agora reconheço que temos um fator a mais: os estaduais ocupam datas que o resto do mundo não ocupam. Aí sim cabe a análise”.
Inviabilidade financeira
Para se realizar um jogo de futebol, os times envolvidos devem arcar com custos, principalmente aqueles direcionados à logística e preparação das equipes. Para que a realização de uma partida seja viável, sua arrecadação deve ser maior do que essas despesas. Porém, essa não é a realidade de alguns clubes.
Muitos campeonatos possuem premiações muito pequenas – ou sequer possuem premiações, caso do Carioca, Gaúcho, Mineiro, Paraibano e Sergipano – o que os tornam pouco viáveis aos seus clubes.
Nos onze jogos em que disputou no Campeonato Carioca de 2025, o Vasco teve lucro em apenas três partidas [Imagem: Reprodução/X:@VascodaGama]
Há alternativas para essa escassez de prêmios, como a venda dos direitos de transmissões dos jogos desses torneios à emissoras, –verba que é repassada a cada clube, de acordo com o engajamento gerado por ele– ou a receita arrecadada por cada equipe em seus estádios.
Negligência das federações
As federações são órgãos responsáveis por, entre outras funções, organizar os estaduais, sendo que cada campeonato é administrado por uma instituição diferente. Seu envolvimento direto com as competições e as formas que ocorrem as tornam incapazes de as isentar de qualquer crítica.
Logo da Federação Paulista de Futebol [Imagem: Reprodução/X: @FPF_Oficial]
Um ponto que gera grande rejeição ao trabalho desses órgãos é a falta de assistência das federações com os clubes, principalmente no que se trata no oferecimento de recursos para jogar futebol.
Comissões de arbitragem pouco qualificadas, disponibilidade de estádios com infraestrutura precária e péssimos gramados e a ausência do VAR – algo essencial no futebol atual –, são exemplos dessa negligência.
Há também aspectos que geram descontentamento com os torcedores. Na tentativa de fazer com que seus torneios sejam únicos, as federações elaboram regulamentos que, na prática, são confusos. Além de resultarem em muitas regras distintas de um campeonato para outro.
Essa complexidade para compreender o que acontece nas competições, junto da falta de uniformidade, desincentiva os amantes do esporte de acompanhá-los, tornando-os um produto pouco atrativo ao público.
Mesmo com as críticas sobre a forma que os estaduais são realizados, são as federações as responsáveis pela manutenção desse cenário. Essa organização anacrônica permite que esses órgãos acumulem poder político nos bastidores do futebol.
Ao ponto de serem decisivas para determinar o cargo de presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), principal instituição futebolística do país, – até mais que os próprios clubes. O que desencoraja que qualquer medida para rever a situação seja tomada.
Recentemente, Ronaldo Nazário desistiu publicamente da candidatura para ser presidente da CBF por não contar com o apoio das federações estaduais [Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]
As controvérsias a respeito de suas atuações são tantas que geram dúvidas se são realmente necessárias para o ambiente futebolístico. Para Celso, isso é claro: “As federações são cartórios, intermediários, são sanguessugas. Futebol organizado não precisa de federação. Se os clubes soubessem se gerir em ligas que buscassem o interesse comum, não precisaríamos delas”.
Importância dos estaduais
Por mais que sua organização atual seja rodeada de controvérsias, os estaduais ainda apresentam importância em vários elementos do futebol brasileiro contemporâneo.
Um aspecto é sua tradição. Os estaduais foram o primeiro passo do Esporte Bretão em nossa terra. Várias histórias que fazem parte da memória e identidade de milhões de torcedores foram escritas nesses campeonatos.
Até hoje, corinthianos cultuam o título paulista de 1977, palmeirenses, o de 1993. Não há quem não fique impressionado com o gol de falta de Petkovic na final do Carioca de 2001. São contos como esses que fazem com que amantes do futebol tenham apreço por essa modalidade e sejam partidários da sua continuidade.
Mas o fator mais determinante à permanência dessas competições é a sua contribuição aos clubes pequenos. Embora não sejam importantes na história do esporte nacional, eles são essenciais para que o futebol profissional seja praticado.
Allan Brito, jornalista e criador do Última Divisão, perfil nas redes sociais dedicado à cobertura de clubes alternativos, de divisões inferiores, explica melhor essa lógica. “Os estaduais não são um problema aos times pequenos. Na maioria dos casos, eles são a maior fonte de renda ou a única forma de terem algum tipo de calendário, patrocínios. Não dá para pensar em acabar com os estaduais”.
Os estaduais servem como oportunidade de exposição desses times a clubes grandes e ao público em geral, o que é importante para acordos de patrocínios. Além de que ocorra a venda de seus jogadores, transferências nas quais são importantes fontes de renda às equipes.
É a partir deles ainda que os clubes podem garantir suas participações em outros torneios importantes, como a Copa do Brasil, Série D – última divisão do Campeonato Brasileiro –, e torneios regionais (Copa do Nordeste e Copa Verde).
Esse foi o caso do Primavera Atlético Clube, time do Mato Grosso que, ao se classificar à final do estadual, garantiu a vaga à Copa do Brasil e sua estreia na última divisão do Campeonato Brasileiro [Reprodução: Instagram/@primaveraac]
Apesar de ser algo essencial a muitas equipes, as falhas na organização dos estaduais também prejudicam os clubes pequenos. “Eles têm um calendário escasso. O que põe em risco a própria profissão de jogador de futebol, já que cerca de 80% dos jogadores no país ficam sem trabalhar durante o resto do ano por uma questão de organização. É fundamental reestruturar.”, alerta Allan.
Reformulação
Os estaduais ainda possuem certa importância que os impossibilitam de serem descartados. Porém, é notável que sua organização atual prejudica o futebol como um todo. Surge, então, a necessidade de reformulações nesses campeonatos, como forma de, ao mesmo tempo, preservar seu valor e beneficiar os clubes brasileiros.
Uma sugestão de reforma muito comentada na mídia é a criação de regulamentos em que os clubes grandes participem somente nas últimas fases do campeonato. “Assim teria um período de preparação, calendário mais enxugado, jogos parando nas datas FIFA”, explica Celso.
Outra ideia também discutida, mas que propõe mudanças mais profundas, é a criação de novas divisões inferiores. No caso, as últimas “séries” seriam disputadas pelos próprios estaduais em um calendário alongado, evitando que os clubes tenham altas despesas de logística.
A existência de divisões inferiores à quarta é algo comum em outros países com forte tradição no esporte [Imagem: Reprodução/X:@TheVanaramaNL]
Esses novas divisões seriam administradas pelas federações, como forma de evitar uma sobrecarga de custos à CBF – responsável por organizar e oferecer suporte aos clubes participantes de todas as séries do Campeonato Brasileiro.
Assim seria possível não apenas aliviar o calendário dos clubes grandes, mas também prolongar a temporada de times pequenos, resolvendo grande parte dos problemas apresentados.
Allan acredita que essa seja uma boa proposta à questão, mas afirma: “Para acontecer, depende muito que a CBF realize investimentos, melhores ações de marketing para vender seu produto, atrair patrocínios etc. Mas ela não se mostra disposta a fazer isso”.
Foto de capa: [Reprodução: X/@SCInternacional]