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120 anos da poetisa Florbela Espanca
Na Estante
04 dez 2014 | Por Jornalismo Júnior

Poetisa portuguesa, considerada feminista para os padrões de sua época, Florbela Espanca completaria 120 anos em 2014. A escritora, contudo, suicidou-se aos 36, em 1930.

Florbela encarava sua vida com certo tom de drama – característica muito presente em suas composições. A poetisa nasceu em 1894, em Vila Viçosa, e, apesar de ter sido criada por seu pai, não foi reconhecida e registrada por ele em vida, só foi reconhecida 19 anos após sua morte, quando instalado um busto em sua homenagem em Évora, cidade onde a poetisa morou. Florbela concluiu o curso de Letras, e frequentou Direito em Lisboa, casou-se três vezes. Tentou três vezes o suicídio, era muito próxima de seu irmão mais novo, que, após morrer, deixou a escritora em profunda depressão.

Em 2011 foi lançado o filme sobre sua vida, “Perdidamente Florbela”, dividido em três partes, que tenta retratar sua personalidade, que não se encaixava em seu tempo.

O seu primeiro poema foi escrito quando tinha apenas nove anos, dedicado ao seu pai, chamado “A Vida e a Morte”. Quando estudava no ensino superior, escreveu também para jornais e revistas, como o jornal “Portugal Feminino”. Seus poemas foram quase todos escritos em sonetos, e três de suas obras tornaram-se amplamente conhecidas. Apesar de ser considerada modernista, em sua escrita podem ser identificados traços simbolistas, movimento literário anterior ao efervescente Modernismo da época.

Livro de Mágoas
Publicado em 1919, o livro conta com 32 sonetos melancólicos, que abordam temas como a dor da existência e a mágoa. A obra recebeu muitas críticas em seu lançamento, considerada “licorosa para homens”, escrita por um “Antônio Nobre de saias”. Antônio Nobre, poeta contemporâneo a Florbela, foi uma das influências da escritora, em quem ela deixou clara sua inspiração. A obra evidencia a natureza dramática de sua vida.

“Eu”
“Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…
Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!”

Charneca em Flor
O livro foi publicado postumamente, em 1931, com 56 sonetos, considerados de caráter transgressor, em que a poeta deixou seu feminismo aflorar e refletir na obra. O livro é tido como retrato do amadurecimento da consciência da escritora.

“Amar”
“Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…”

Entre os poemas do livro, há uma série de dez deles, com título “He hum não querer mais que bem querer” que dialogam com Camões. A série inicia tratando da paixão, em que, assim como nos poemas de Camões, há a utilização de elementos da natureza para descrever os sentimentos e a visão de mundo da poeta. Na progressão da série, os poemas passam a abordar com mais furor o amor e a paixão, terminando com o saudosismo, pelo uso de termos que remetem a jornadas marítimas.

No Brasil, Florbela é mais comumente conhecida pelos que atuam nas áreas de artes. A poetisa já foi inspiração para coreografia de dança contemporânea e estudos acadêmicos na área literária. O filme baseado em sua vida, que em 2012 foi a produção portuguesa mais assistida, estreou aqui no Brasil em maio desse ano. Apesar de ter chegado ao Brasil, não foi passado nos cinemas de maior alcance, a maioria das sessões teve lugar em salas de cinema destinadas a produções culturais, que, por não serem tão comerciais contam com um público mais restrito.

Por Roberta Vassallo
robertavassallob@gmail.com

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