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À beira do centenário, história do Cruzeiro vai de mal a pior
ARQUIBANCADA
16 out 2020 | Por Sarah Lídice (sarahlidice@usp.br)

“Jamais, jamais, jamais”. É com a repetição dessa palavra que a Caroline, 20, mineira e torcedora apaixonada do Cruzeiro Esporte Clube, enfatiza como nunca imaginaria que seu time fosse chegar aonde chegou. Em seus quase cem anos de existência, a Raposa se orgulhava da primazia de pertencer ao seleto grupo da elite do futebol brasileiro – junto com Santos, São Paulo e Flamengo – que sentira somente o gostinho da série A. 

Hoje, o time azul celeste de tantos títulos vive uma situação complicada. Com sua cor enfraquecida e vulnerável, uma das certezas é a de que o Cruzeiro vai cantar os parabéns do centenário (em janeiro de 2021) na mesa da série B. Nos últimos anos, o clube mineiro vem acumulando dívidas exorbitantes e problemas jurídicos que não foram freados pela gestão. Muito pelo contrário. As gestões cruzeirenses contribuíram para que a situação do time se tornasse insustentável financeira, administrativa e esportivamente. 

Serviu, também, para escancarar alguns dos problemas estruturais da gestão do futebol brasileiro. E como em uma cascata, os dramas do extracampo foram se estendendo aos pés dos jogadores até chegar, inevitavelmente, ao coração da torcida. Neste momento, rebaixados estão tanto o Cruzeiro quanto o espírito do torcedor.


Preliminares

O Cruzeiro ia bem. Paradoxalmente, talvez fosse esse um dos principais problemas. O histórico do time ao longo de sua existência não carrega marcas de grandes instabilidades políticas na administração. A atual década, por sua vez, trouxe grandes títulos e incrementos de receita para o time. Em 2014, o Maior de Minas — como batizado pelos torcedores — consagrou-se tricampeão do Brasileirão; em 2018, ao levar pela sexta vez a taça da Copa do Brasil, tornou-se o maior vencedor desse campeonato.

Mas esses títulos, por si só, não fechavam as contas. Enquanto as vitórias cresciam e a vitrine celeste mostrava-se gloriosa, crescia também a distância entre as receitas de faturamento e de endividamento do time. Sendo que estas últimas começaram a ocupar vertiginosamente o ponto mais alto dos balancetes.

Desde a gestão de Gilvan Tavares, dirigente que assumiu a presidência do clube durante dois triênios (entre 2012 e 2017), as contas começaram a apresentar desbalanços. No período em que estava no comando, as dívidas cruzeirenses passaram de 120,3 a 363,1 milhões, um aumento de 202%. Isso marcaria o início de um abismo, principalmente com o próximo corpo gestor que viria.

Em parte, esse desequilíbrio inicial da situação financeira do time pode ser explicado por uma certa lógica na gestão de clubes: “quebrar” para ser campeão. Segundo o Ivan Furegato, mestre em gestão esportiva pela USP, essa prática, marcada por um ciclo que envolve contratações caras de grande elenco, conquista de títulos e acumulação de dívidas, é cultural e extremamente recorrente na estrutura do futebol brasileiro.

“Antes, os clubes conseguiam antecipar receitas de televisão de dois, três anos a frente. Com esse dinheiro, montavam uma ‘seleção brasileira’ e ganhavam com esse elenco. Acabava o mandato da dirigência e a dívida ficava para ser paga por alguém depois”, diz. 

Ele também menciona que hoje já existem leis que proíbem clubes de antecipar receitas futuras, mas “é um processo ainda, está longe de ser uma situação ideal de controle, de clube europeu de controle, ou de um próprio fair play financeiro”.

No caso específico do Cruzeiro, a bola de neve de déficits financeiros já estava posta no fim do mandato de Gilvan, mesmo sem muita visibilidade. Em 2018 e 2019, nos dois primeiros anos da conturbada gestão comandada por Wagner Pires de Sá, ela aumentaria bruscamente de tamanho e tornaria insustentável a situação do time. 


No interior da Toca

Como a maioria dos times brasileiros, a Raposa é um clube associativo, sem fins lucrativos, formado por sócios que participam politicamente das decisões do grupo. Os órgãos do Cruzeiro, como consta em seu Estatuto, são a assembleia geral, os conselhos (deliberativo, fiscal e diretor) e a presidência e vice-presidência. 

O time é gerido, então, por uma diretoria executiva que tem como base seus conselheiros — os quais não devem, também de acordo com o Estatuto, ser remunerados como funcionários. O controle do andamento financeiro do time, por exemplo, é feito pelo conselho fiscal, um de seus principais órgãos, responsável por fiscalizar as receitas do clube. Essa estrutura do time, porém, dava sinais de instabilidade ainda em 2016, quando se aproximava a eleição para novos dirigentes que se daria no ano seguinte.

Reunião do Conselho Deliberativo do Cruzeiro, em Belo Horizonte, 11/02/2019

Reunião do Conselho Deliberativo do Cruzeiro, em Belo Horizonte, 11/02/2019 [Imagem: Vinnicius Silva/Cruzeiro]

O jornalista e setorista do Cruzeiro, Tiago Mattar, que tem acompanhado a situação do clube desde 2016, conta que por muito tempo o time viveu um embate político entre dois grupos bem divididos, divergentes em relação ao apoio para candidatos na eleição. Naquela época, ele diz que “qualquer coisa que acontecia nos bastidores era amplamente difundida por conselheiros e a mídia recebia muita informação dos clubes”.

Em 2017, marcando contraste com as últimas eleições que marcavam vitórias com grande diferença de votos, Pires de Sá foi eleito pela Assembleia Geral com apenas 30 votos de diferença do candidato oposto, Sérgio Rodrigues, e assumiu com um apoio muito restrito do conselho. 

Ao assumir, a nova gestão procurava formas de aglutinar o máximo de apoio possível no conselho, se aproximando dos líderes da campanha de Sérgio Rodrigues. “Ele começou a empregar uma série de conselheiros. Não sabíamos [os jornalistas] que eles eram remunerados. Essas informações nunca eram divulgadas de forma oficial, os contratos sempre eram muito sigilosos”, conta o setorista em entrevista. “As aparentes irregularidades começaram a partir desse momento”, finaliza.

Com esse apoio dos conselheiros, conseguido através dessas remunerações, ele conseguiu uma certa tranquilidade na gestão do clube. “O Itair Machado era vice-presidente de futebol e percebemos, ao longo do tempo, que ele era mais presidente do que o próprio Wagner. Tomava diferentes tipos de decisões sobre o Cruzeiro, de esfera administrativa, financeira”, comenta Mattar, remetendo a uma situação de falta de controle e de governança ativa no clube.

Wagner Pires de Sá em coletiva de imprensa

Wagner Pires de Sá em coletiva de imprensa [Imagem: Vinnicius Silva/Cruzeiro E.C.]


Aumento de gastos

Outro ponto crítico dessa gestão foi o aumento dos gastos com fatores externos ao futebol, revelando um certo patrimonialismo. Uma série de reportagens exclusivas do jornal O Estado de Minas mostram que o cartão corporativo, entregue aos dirigentes para uso em questões relacionadas ao clube, foi usado em contextos particulares, como compras em loja de departamento e serviços de entretenimento adulto em Portugal. As finanças, que já estavam ruins, ficaram em situação ainda mais delicada. 

Em 26 de maio de 2019, uma reportagem no Fantástico produzida pelos jornalistas Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo, denunciou supostas irregularidades na gestão de Pires de Sá, o que abalou ainda mais as estruturas toca da Raposa. Mattar, que vai semanalmente ao centro do clube, conta que o ambiente mudou na Toca a partir daquele dia.

“Percebemos claramente uma mudança de ares. Era uma coisa muito mais pesada. Parecia que, a partir daquele momento, a gestão Wagner precisaria começar a esconder tudo o que havia feito no ano anterior. Isso, evidentemente, influenciou muito dentro de campo”, acrescenta. 

Com as denúncias, que envolviam a cessão de direitos esportivos de maneira ilícita, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro, a situação do clube celeste ganhava atenção nacional. Ao longo das investigações, o contingente de dívidas trabalhistas e fiscais ia sendo atualizado e aumentado. Hoje, o Cruzeiro acumula uma dívida quase impagável, que chega a quase um bilhão de reais.


A queda do Cabuloso

“Rebaixamento não é demérito para time grande, mas no caso do Cruzeiro doeu pela forma como tudo aconteceu”, diz Samuel Oliveira, mais um dos torcedores apaixonados pelo clube. No mineirão, o jogo contra o Palmeiras de 8 de dezembro de 2019 marcaria de fato a história do time celeste. Herbert, mineiro e também torcedor de longa data, estava viajando e fez questão de adiar em um dia seu retorno para não viver tão de perto aquele dia: “Eu sentia que seria triste”. 

Torcida cruzeirense no jogo contra o Palmeiras que marcou o rebaixamento do time celeste

Torcida cruzeirense no jogo contra o Palmeiras que marcou o rebaixamento do time celeste [Imagem: Vinnicius Silva/Cruzeiro]

E acabou sendo, para aqueles que acompanham o time. “Acreditei até o último segundo, mas foi inevitável”, comenta a torcedora Yasmin. Aquela partida talvez tenha mostrado em campo, de forma decisiva, as implicações da crise que impregnava a Toca. O Cruzeiro não só perdeu a partida por 2 a 0, como também perdeu seu lugar na série A do Campeonato Brasileiro. Marcaria ali o final de um ano que, a princípio, não havia começado tão mal para o futebol cruzeirense.

Apesar de criticado pela estratégia reativa e pouco amistosa de jogo — que dependia do avanço do time rival para alavancar um contra ataque —, o técnico Mano Menezes, que acompanhava o time desde o final de 2016, teve uma campanha no começo de 2019 que resultou em um bom desempenho no Campeonato Mineiro e nas fases classificatórias da Libertadores (campeonato que acontece entre clubes da América Latina). 

As tensões que extrapolavam as quatro linhas, contudo, foram marcando bola adentro. O time tornava-se cada vez mais desfalcado, seja pela venda de jogadores importantes, seja pelos pagamentos atrasados de seus atletas. Além disso, em meio ao mau desempenho em sucessivas partidas, sem vitórias no Brasileirão, e eliminado da Libertadores, o então técnico Mano Menezes foi demitido.

Depois da saída de Mano e até o momento do rebaixamento, de agosto a dezembro, três novos técnicos passaram pelo Cruzeiro: Rogério Ceni, por 53 dias, Abel Braga, por 60 dias, e Adilson Batista, que assumiu no fim de novembro até março de 2020. 

Essas mudanças no corpo técnico em um curto espaço de tempo não conseguiram deslanchar um bom desempenho em campo e o que era mais temido aconteceu: o Cabuloso, um dos apelidos do Cruzeiro, caiu. “Aquele jogo [contra o Palmeiras] foi só o choque de realidade que a gente precisava para acordar”, destaca o torcedor Matheus.


Reações

“Minha preocupação hoje é se [o Cruzeiro] vai subir um dia”. Essa é a opinião apreensiva da marianense Laura, que integra uma família de torcedores do cruzeiro. “É um sentimento muito ruim, saber que o clube passa por uma situação de quase falência, e não poder fazer nada”, complementa o Pedro, mais um do time dos torcedores que acompanham com pesar essa fase delicada da Raposa.

Com o rebaixamento, a situação financeira se complica mais ainda, sem contar a desvalorização geral dos jogadores e da marca Cruzeiro. A grande perda de bilheteria no contexto de pandemia, que impossibilita o acesso dos torcedores aos estádios, e ausência dos jogos clássicos, por exemplo, contribuem para a diminuição da receita. 

Na série B, a renda de transmissão na televisão também é bem menor. Se na primeira divisão ela gerava em torno de cem milhões, na segunda, produz uma receita próxima de seis milhões. E em função de uma dívida do passado, o não pagamento do empréstimo feito em 2016 do volante Denilson, com o time dos Emirados Árabes, o time começaria a segundona com menos seis pontos no placar. Corre risco ainda de cair para a série C se não pagar essa pendência milionária até o fim de 2020.

No caos interno da Raposa, o então dirigente Wagner de Sá Pires acordou uma renúncia da gestão do clube no final de dezembro, mês do rebaixamento. Assim, o Cruzeiro passava a ser administrado definitivamente por um conselho gestor. Em junho de 2020, Sérgio Rodrigues, aquele que havia sido derrotado por Pires de Sá nas eleições de 2017, assumiu o clube rebaixado.


Futuro

Essa nova administração vem com objetivos diferentes. A estratégia é de não mais gastar milhões para a contratação de jogadores de primeiro nível, e sim pagar as contas e organizar a situação do clube. 

O setorista Tiago Mattar destaca que o mais importante para o Cruzeiro, atualmente, é o extra-campo. “[O clube] tem que se organizar e ter mentes criativas. O Sérgio conseguiu formar uma equipe de profissionais do mercado que aparentam conseguir, com criatividade, aumentar a receita do Cruzeiro em um período tão complicado para os clubes”, em referência à pandemia do coronavírus.

Encontro do presidente Sérgio Santos Rodrigues com o elenco cruzeirense, na Toca da Raposa 2, em Belo Horizonte

Encontro do presidente Sérgio Santos Rodrigues com o elenco cruzeirense, na Toca da Raposa 2, em Belo Horizonte [Imagem: Gustavo Aleixo/Cruzeiro]

O desafio agora é a capitalização de recursos neste momento de crise profunda. Os torcedores são alguns dos atores que podem ajudar o clube, afinal, apesar do anúncio de novos patrocínios, o produto é vendido para o torcedor. 

Dentro de campo, mesmo que a configuração atual do time não permita aos celestes vibrarem por uma vitória na Copa do Brasil – como estão acostumados – a esperança é a construção de um time competitivo para subir de divisão, dentro das possibilidades da Raposa. Essa responsabilidade, no início de 2020 centrada nas mãos do técnico Emerson Moreira, passou para Ney Franco, que assumiu a Raposa no começo de setembro. Em outubro, a missão foi transferida para um novo técnico, Felipão, que acertou com o clube até o fim de 2022.


Repensando a gestão no futebol

O Cruzeiro de 2019 foi o resultado de uma década. O enredo dramático de turbulência, absoluta instabilidade política, má gestão financeira e pouco retorno esportivo, colocaram o time em uma das situações mais delicadas de sua história. “Dos grandes clubes, algum tinha que ser”, afirma o gestor Ivan Furegato. 

A situação do clube mineiro trouxe à tona a urgência de se repensarem as questões extra-campo. O pesquisador acredita que o Cruzeiro vai ser um marco de virada para que o futebol brasileiro rompa com essa cultura da “vitória a qualquer custo”, podendo servir também para acelerar projetos de transformação dos clubes em empresas.

“Existem projetos de lei para tentar incentivar essa transformação [de clubes associativos] em empresas. É uma coisa que deve acontecer muito em breve, porque existem muitos investidores que têm interesse em entrar no Brasil, investir em clubes”, sugere Furegato, marcando um processo lento que demanda muita organização. 

Mas clubes associativos podem ser muito bem geridos e dar resultado. Para que isso aconteça, Furegato acredita que a profissionalização de todos os níveis da cadeia gerencial e a remuneração dos diretores executivos é essencial. Os clubes são organizações sérias, que geram receitas milionárias, daí a importância de tratar essas questões com a devida seriedade.

“Quando se profissionaliza toda essa cadeia, a indústria do futebol também se profissionaliza e há menos prejuízos nessas situações. Dívidas sempre vão existir. Há clubes com dívidas que são totalmente equacionadas, a médio, longo prazo”, afirma.

O torcedor belorizontino Raphael Muniz também pensa assim: “Enquanto não houver uma profissionalização dos gestores, em que eles comecem a responder pelos seus atos, o futebol sempre terá irregularidades, pois envolve muito dinheiro e paixão”. E põe paixão nisso.

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