Home Virou História Há um ano, o cabuloso conquistava o hexa e fazia história na Copa do Brasil
Há um ano, o cabuloso conquistava o hexa e fazia história na Copa do Brasil
ARQUIBANCADA
17 out 2019 | Por David Ferrari e Gabriel Guerra (davidwillianferrari@gmail.com e gabriel_guerra@usp.br)

“É HEXA!!!”. Todos os brasileiros queriam ter gritado isso em 2018, porém a seleção brasileira não nos trouxe essa felicidade. Mas sabia que alguns puderam gritar nesse mesmo dia há um ano? Quem gritou foi a sexta maior torcida do Brasil, a torcida do Cruzeiro. Vamos relembrar a trajetória do time que tinha Thiago Neves, Arrascaeta, Barcos e Fábio?

 

 A entrada da raposa nas oitavas da competição 

Desde o ano de 2013, a Copa do Brasil teve uma mudança significativa no regulamento que alterou o rumo da competição a partir das oitavas de final. Antes, os clubes que disputavam a Libertadores não podiam disputar a Copa. Por isso, até o novo regulamento, nenhuma equipe havia conseguido vencer a competição por dois anos consecutivos, já que o campeão tem o direito a uma vaga na Libertadores e, consequentemente, não disputava o torneio no ano posterior. 

Com o novo regulamento, as equipes que disputavam a Copa Libertadores da América começaram a integrar a Copa do Brasil a partir das oitavas de final. Desde então, há a possibilidade das equipes conquistarem o troféu em anos consecutivos. É por isso que a equipe do Cruzeiro entrou nas oitavas da competição de 2018, acompanhada de Corinthians, Flamengo, Grêmio, Palmeiras, Santos e Vasco da Gama.

O setorista do Cruzeiro no Jornal Hoje em Dia, Guilherme Piu, disse que a diretoria montou o elenco buscando títulos, mas a meta não era a Copa do Brasil: “o grande objetivo, o foco do clube era a Copa Libertadores”. Mesmo montando um elenco visando títulos, muitos não colocavam o time como candidato ao título do campeonato nacional. Erick Tiago, torcedor cruzeirense, era um dos que não tinha otimismo no início da competição. “Apesar de ser um time muito bem organizado e com padrão de jogo definido pelo então técnico Mano Menezes, eu não via o Cruzeiro como favorito. Na minha opinião, Grêmio e Flamengo eram os favoritos”. Ele conclui dizendo que o elenco era bom, mas que faltavam peças de reposição.

 

O cabuloso inicia sua trajetória 

No primeiro jogo do cabuloso na Copa do Brasil, não faltou emoção. O time foi até a Arena da Baixada para enfrentar o Atlhetico Paranaense no jogo de ida. Aos 41 minutos da primeira etapa, os donos da casa abriram o placar com gol de falta de Thiago Carleto. Já no segundo tempo, aos 34 minutos, a raposa empatou com um gol de fora da área do volante Henrique. Nesse momento, o resultado já era vantajoso para o Cruzeiro, já que a decisão seria em casa, na cidade de Belo Horizonte. Porém, já nos acréscimos do segundo tempo, a equipe mineira fez o segundo gol com Raniel e, assim, eles levaram a vantagem para o segundo jogo em Minas Gerais.

Jogadores do Cruzeiro comemoram a vitória fora de casa [Imagem: divulgação]

O segundo jogo foi realizado no estádio do Mineirão. A partida foi morna até os 30 minutos do segundo tempo. A partir dos últimos minutos da segunda etapa, as equipes começaram a pressionar e dar maior dinâmica ao duelo. Foi assim que, aos 40 minutos do segundo tempo, Arrascaeta abriu o placar para o Cruzeiro. Em seguida, a equipe paranaense, assim como aconteceu com a equipe mineira na primeira partida, fez um gol nos acréscimos, com Bergson. Com esse resultado, a raposa iniciava a sua trajetória e chegava às quartas de finais da Copa do Brasil. Além do avanço de fase, a equipe também contava com uma nova contratação que foi apresentada no final da partida: Hernan Barcos, o pirata, chegava ao time celeste. 

 

É teste para cardíaco 

Nas quartas da Copa do Brasil, houve a introdução do VAR, sigla em inglês para árbitro de vídeo. Dessa vez, o adversário da raposa era o Santos. O primeiro jogo foi realizado na Vila Belmiro, casa da equipe paulista. O primeiro tempo da partida de ida foi neutro e sem grandes movimentações. Já a segunda etapa teve um dinamismo muito maior, principalmente da equipe santista. 

O ataque do Santos contava com Bruno Henrique, Gabigol e Rodrygo, e o trio elevou o nível da partida no segundo tempo. Porém, como o futebol é uma caixinha de surpresas, os donos da casa não abriram o placar. Pelo contrário, Raniel, que tinha acabado de entrar no jogo, abriu o marcador para o Cruzeiro aos 35 minutos. O gol foi o suficiente para o time mineiro levar a vantagem, mais uma vez, ao Mineirão.

A segunda partida foi muito mais emocionante do que a primeira e proporcionou momentos de tensão para ambas as torcidas. Já na primeira quinzena do jogo, o cabuloso abriu o placar com Thiago Neves e tudo parecia resolvido. Só que, novamente, o futebol é uma caixinha de surpresas. O Cruzeiro atacou mais no primeiro tempo, porém quem balançou as redes foram os visitantes. Aos 41 minutos, Gabigol, com um chutaço de fora da área, deixou tudo igual no jogo. 

Assim acabavam os primeiros 45 minutos: o Cruzeiro se classificava com o empate e o Santos precisava de um gol para levar às penalidades. Na última etapa do confronto, aconteceu o que era esperado: o Cruzeiro começou a recuar em seu campo de defesa, enquanto a equipe da vila avançava. E, aos 38 da segunda etapa, Rodrygo cruzou na medida para Bruno Henrique cabecear no ângulo do goleiro Fábio e virar a partida. Com esse resultado, o jogo foi para os pênaltis. 

Nesse momento, o torcedor cruzeirense afirmou não ter dúvidas que seu time de coração ganharia nos pênaltis. “Fiquei decepcionado com o rendimento do time com a bola rolando, mas tinha certeza que o Fábio faria a diferença”, finaliza Erick.

Nas penalidades, os dois times contavam com grandes pegadores de pênaltis: Fábio e Vanderlei. Lucas Silva converteu a primeira pelo Cruzeiro. O primeiro jogador a cobrar pelo Santos foi Bruno Henrique. Fábio se esticou todo e defendeu a primeira. Raniel acertou a segunda pelo cabuloso. A segunda cobrança santista foi efetuada pela promessa da equipe: Rodrygo. E, mais uma vez, o goleiro cruzeirense defendeu: 2 a 0 para o cabuloso. David bateu a terceira pela equipe mineira e acerta mais uma. Quem partiu para o terceiro chute da equipe paulista foi Jean Mota. O goleiro Fábio defendeu a terceira e garantiu a classificação da raposa para as semifinais. Ele defendeu todos os chutes do Santos e consagrou-se como o destaque da partida. O cabuloso avança mais uma etapa rumo ao hexa.

Fábio, em noite iluminada, pega três penâltis [Imagem: divulgação]

A lei do ex entra em campo

Pela terceira vez seguida, o Cruzeiro jogou o primeiro jogo do mata-mata fora de casa. Dessa vez, o adversário era o Palmeiras. Os donos da casa começaram o jogo no ataque e quase marcaram o primeiro aos 4 minutos. Porém, no contra ataque, os visitantes abriram o marcador com gol de Hernán Barcos, ex-jogador da equipe paulista. O atacante estava há 11 jogos sem fazer gol pela equipe celeste. 

Já a segunda etapa passou a ser mais truncada e com muito bate-boca pelos dois times. O Palmeiras voltou a pressionar quando Edílson, lateral direito da raposa, levou cartão vermelho por reclamação. Apesar do sufoco final, a equipe mineira levou a vantagem, pela terceira vez na competição, para o jogo de volta, em sua casa, o Mineirão. 

No jogo de volta, em Belo Horizonte, a lei do ex falou mais forte novamente. O Cruzeiro usou a estratégia de não se expor para não dar o contra-ataque ao Palmeiras. Aos 26 minutos, Hernán Barcos, numa das poucas chances do jogo, abriu o placar para a equipe cruzeirense. No segundo tempo, o time paulista precisava buscar o resultado para continuar sonhando com o título. E, aos quatro minutos, Felipe Melo, ex-jogador do Cruzeiro, empatou a partida com um gol de cabeça. Após o empate, a raposa administrou a partida e segurou o Palmeiras para conseguir a classificação para a final. Faltavam apenas 180 minutos para o sonho do hexa e do bi consecutivo na competição. 

 

Craques crescem em jogos grandes

O primeiro jogo foi, pela primeira vez na competição, no Mineirão.. Com o estádio lotado, o time mineiro dominou a partida. O Corinthians, em um jogo apático, viu Thiago Neves ser o principal nome do jogo. Todas as principais jogadas iniciaram no pé do camisa 30 da raposa.

O time paulista teve o lado direito de sua defesa – lado esquerdo do ataque cruzeirense – como o principal foco da equipe rival. Egídio avançou muito durante todo o jogo, normalmente fazendo dupla com Rafinha. As jogadas pelo lado representavam, também, a característica do time durante a partida: cruzamento na área. Por ter Barcos, um exímio centroavante e cabeceador, esta forma de jogar era interessante, sobretudo por não ter Arrascaeta para articular as jogadas, pois o uruguaio tinha sido convocado para a seleção de seu país.

Aos 46 minutos do primeiro tempo, nos acréscimos, Egídio recebeu a bola pela esquerda do ataque celeste. Fintou Romero pelo lado do campo, foi para a linha de fundo e cruzou na direção de Barcos. O argentino disputou a bola aérea com Danilo Avelar e ambos não a alcançam. Então, ela sobra para Thiago Neves, sozinho na área, que cabeceia em direção ao gol de Cássio. A bola desvia no zagueiro corintiano Henrique, que impossibilita a defesa do goleiro. Os mineiros abriam o placar.

O alvinegro, mesmo perdendo, pouco atacou. A partida terminou com a vitória pelo placar mínimo do time da Toca da Raposa.

Com o placar da primeira partida, bastava um empate no jogo de volta que o título seria do Cruzeiro. O time mineiro havia vencido todas as partidas fora de casa. Além disso, havia marcado pelo menos um gol em todos os jogos disputados na competição. Já o Corinthians havia vencido apenas uma vez por mais de dois gols de diferença, quando bateu o Vitória, nas oitavas de finais, por 3×1 em casa. 

Escalação inicial dos clubes na final em Itaquera [Imagem: Reprodução Google]

No jogo decisivo, o time da Toca da Raposa começou a partida de forma mais incisiva. Aos 28 minutos do primeiro tempo, após erro do zagueiro adversário, Léo Santos, Rafinha ficou com a bola e tocou para Barcos na entrada da área. O atacante driblou a marcação e finalizou no canto de Cássio. Caprichosamente, o chute bate na trave e, na sobra, a bola fica com Robinho que conclui para o gol. Com o placar agregado de 2 a 0, o time mineiro poderia sofrer até um gol que mesmo assim estaria classificado.

O Cruzeiro reproduziu a tática que deu certo durante o jogo de ida: cruzamentos na área. O time trouxe muito perigo à meta de Cássio, tendo, inclusive, acertado um cabeceio na trave. Porém, os alvinegros começaram a ser mais ofensivos.

Aos dez minutos do segundo tempo, Ralf, em uma de suas raras subidas na área adversária, dominou a bola e sofreu um toque de Thiago Neves. O juiz mandou a partida seguir, mas, quando a bola sai, o ponto no ouvido dele o chama: “Possível lance de penalidade”. Após rever o lance em um pequeno monitor que está ao lado do gramado, a decisão está tomada. Ele faz o sinal característico do VAR e sinaliza o pênalti. Na cobrança, Jadson chutou no lado direito de Fábio, que caiu para o outro lado.Com o apoio da torcida, o Corinthians partiu em busca do segundo gol, que representaria o empate no placar agregado e, consequentemente, a decisão nos pênaltis. 

Em lance controverso faltando 20 minutos para o fim da partida, Jadson recebeu a bola na entrada da área. Ele é bloqueado por Dedé. Há uma mão do corintiano no rosto do zagueiro. Na sequência, Pedrinho domina e finaliza no contrapé de Fábio há mais de 30 metros do gol. A bola entra na gaveta. Com esse placar, o jogo seria decidido nos pênaltis. Mas, novamente, o VAR entra na partida. Dedé poderia ter sofrido uma falta. Todo o rito se repete. O juiz analisa e constata que aconteceu a falta do meia corintiano.

Os minutos passavam e a torcida cruzeirense estava cada vez mais próxima de comemorar o hexacampeonato.

Um minuto antes do lance polêmico, Arrascaeta entrava em campo. Como já dito, o uruguaio não disputou a primeira partida por ter sido convocado para amistosos com a sua seleção no Japão. Depois de ter jogado terça-feira contra a seleção japonesa, iniciou uma corrida contra o tempo: no dia seguinte seria a final. Ele teve pouco mais de 24 horas para chegar a São Paulo e se preparar. Chegou quatro horas antes do início da partida.

Aos 35 minutos do segundo tempo, “Arrasca” recebeu a bola no meio de campo e, sem marcação, chegou cara a cara com Cássio. Com uma cavadinha, a bola cobre o goleiro caído. É gol do Cabuloso, é o gol do título.

Se o Cruzeiro do Sul tem cinco medalhas, o Cabuloso agora tem seis nacionais.O time da Toca da Raposa tornou-se o maior campeão da competição. Para Erick, “é [motivo de] orgulho muito ser o maior campeão da Copa do Brasil”.

 

Raposa de bolso cheio

Em 2018, a Confederação Brasileira de Futebol anunciou que a premiação da Copa do Brasil aumentaria substancialmente. Fruto de um novo contrato assinado com a Rede Globo, grupo que detém os direitos de transmissão, o prêmio dado ao campeão mais do que triplicou: foi de 13,3 milhões de reais pagos ao Cruzeiro no ano anterior para 68,8 milhões.

Essa quantia era superior à paga a qualquer um dos campeões dos torneios disputados por clubes brasileiros, como a Libertadores e o Campeonato Brasileiro. Por conta disso, ser campeão era ainda mais importante ao time mineiro, pois significava a vinda de uma verba extra. Por conta do título, os patrocinadores também pagaram uma determinada bonificação.

 

Do céu ao inferno

No ano do título, o Cruzeiro tinha uma das maiores folhas salariais do futebol brasileiro, desembolsando cerca de R$13 milhões mensais. Ou seja, se fosse utilizada toda a premiação para pagar as despesas salariais dos jogadores, haveria recurso suficiente para custear pouco mais que três meses. Além disso, conforme o balanço financeiro divulgado pelo clube em abril deste ano, entre premiações, bilheterias, patrocínios, direitos de TV e programa de Sócio Torcedor pagas em 2018, o time arrecadou pouco mais de 270 milhões de reais, crescimento de aproximadamente 10% em relação ao ano anterior. Contudo, mesmo com o crescimento da arrecadação, o time da Toca da Raposa está desde 2011 sem fechar o ano em superávit. A dívida do time ano passado era superior a 575 milhões de reais. 

“A diretoria do Cruzeiro agiu de forma temerária, sem levar em conta a realidade financeira do clube. Os investimentos mais vultuosos acabaram se tornando um veneno para o clube, que gastou mais do que deveria e mais do que poderia pagar. A conta é simples, se você ganha 50 não pode gastar 100. E os dirigentes não se preocuparam com isso”, enfatizou Guilherme Piu.

Além disso, problemas administrativos circundam o clube mineiro. Diretores estão sendo investigados pelo Ministério Público, principalmente por lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, há indícios que o Cruzeiro tenha pago quantias a terceiros de forma ilegal, sem a devida prestação de informações, superfaturados ou sem terem prestado serviços a ele. Um dos investigados é o presidente cruzeirense, Wagner Pires de Sá. 

Erick é enfático ao comentar a situação econômica do clube: “A crise financeira do Cruzeiro explodiu em 2019, porém esse problema vem de anos anteriores. Ao meu ver, tudo relacionado à má administração de sua diretoria”.

Um ano do título se passou. Arrascaeta, um dos principais jogadores, foi para o Flamengo. Rodriguinho, que foi trazido para substituir, não conseguiu jogar o quanto era esperado. Mano Menezes, treinador do título, foi demitido. Em seu lugar, veio Rogério Ceni. Ele ficou menos de dois meses no comando. Abel Braga assumiu há algumas semanas. “Você pode ter o melhor elenco do país, mas se faltar uma boa gestão, se faltar dinheiro, você não consegue administrar tantos problemas que são gerados”, sintetizou o setorista.

O time, como um todo, caiu de desempenho. Se há um ano era candidato ao título, hoje a meta é não ser rebaixado. O Cruzeiro foi do céu ao inferno em 365 dias.

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