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A cultura do estupro e o estupro na cultura
Controle Remoto
28 set 2016 | Por Jornalismo Júnior

Estamos sempre ouvindo por aí o quanto a nossa sociedade é contrária ao estupro, como este é considerado um dos piores crimes que podem acontecer à alguém e que ele deve, portanto, ser condenado por todos. O discurso é tão replicado que tendemos a acreditar em sua veracidade e nos fortalecer na ideia de que, se algo do tipo acontecer conosco, teremos um amplo espectro de pessoas crentes na nossa palavra.

Mas, na realidade, vivemos sob uma esfera de aceitação, legitimação e conivência à invasão e violação dos nossos corpos, que se reflete nos meandros do nosso cotidiano, através do julgamento da vítima, por vezes mais forte do que o destinado ao criminoso, e também por meio da produção artística e cultural. À este padrão se dá o nome de cultura do estupro. “A ‘cultura do estupro’ é um conceito que se refere as práticas sociais que reproduzem e legitimam a violência sexual contra as mulheres ou que de alguma maneira incentivam e são o fundamento dessa violência”, explica Izabel Solyszko, doutora em serviço social e pesquisadora de violência de gênero e feminicídio.

A cultura do estupro é um mecanismo invisível que tem raízes no patriarcado e se fundamenta à partir de uma sociedade extremamente desigual e violenta que enxerga a mulher como um sujeito de segunda categoria, um objeto que deve ter sua sexualidade, liberdade e independência controlada. “O estupro é uma das expressões mais brutais da violência de gênero praticada contra as mulheres, mas ele só é possível numa sociedade desigual, e portanto, violenta”, diz Izabel.

À partir deste pano de fundo, há a permissão à difusão de dúvidas sobre o consentimento nas relações sexuais, questionamentos sobre a vestimenta e o nível de embriaguez da vítima e do horário em que o crime ocorreu, em uma clara culpabilização da mulher pela agressão, além do silêncio institucionalizado que aparece na não-denúncia dos estupros, na interrupção de investigações e na descrença da palavra da vítima por parte de autoridades competentes. Para além da violência sexual, a cultura do estupro legitima ainda toda uma sorte de microviolências, tais como o assédio na rua e as agressões físicas. “Estamos falando de corpos invadidos e violados, de um tipo de violência brutal que encontra no corpo das mulheres um território para representar o poder e a barbárie do patriarcado. Apresentar as mulheres como objetos sexuais, como objetos de desejo e para o prazer do outro é extremamente nocivo para uma sociedade que simplesmente nega a humanidade e a individualidade como sujeito de metade da sua população”, revela Izabel.

Ilustração com alguns dos discursos difundidos pela sociedade na ocorrência de um estupro, na ocasião do estupro coletivo de uma menina no Rio de Janeiro, em maio. Reprodução. Imagem: Blog O Dia

A arte e o estupro

“Numa sociedade patriarcal, a produção cultural sempre refletirá valores patriarcais e isso significa discursos machistas e misóginos, violentos e discriminadores do corpo e da vida das mulheres, em geral estereotipados e desvalorizados”, conta a pesquisadora de gênero Izabel. De fato, consideradas como manifestações dos princípios e pensamentos de uma organização social, as artes expressam os julgamentos morais de seus criadores e do contexto em que estes se enquadram, e, desta forma, contribuem para a manutenção do machismo, da cultura do estupro e dos esteriótipos de gênero. Para Izabel, “são numerosos os exemplos em que somos sempre um ser calado, um ser invisível ou um ser para o outro, nunca um ser autônomo e criativo.”

Uma das manifestações culturais que mais claramente reproduz o machismo em suas criações é a publicidade. De mentalidade retrógrada, muitas peças refletem um pensamento preconceituoso, destilando as pseudoideias da mulher para o outro, como satisfação e objeto do homem e como um ser inferior.

As campanhas de cerveja são as mais comentadas e difundidas quanto ao seu caráter machista. Uma série de propagandas da cerveja Itaipava, por exemplo, traz uma mulher chamada Vera em situações constrangedoras, tais como em posição de garçonete, usando roupas curtas, com homens olhando seu corpo e bradando “vai verão, vem verão” e segurando uma lata e uma garrafa da cerveja, com os dizeres “faça sua escolha” e 300mL, 350mL e 600mL, em alusão ao silicone em seus seios. A propaganda do carnaval de 2015 da Skol, também, explicita a ideia de o consentimento pouco importar, induzindo que homens não tem controle.

Legenda: Propagandas de caráter machista das cervejas Itaipava e Skol. Reprodução. Fontes: Studio2fm e ClicRBS

Também, outras peças publicitárias de diferentes produtos trazem ideias estigmatizantes. Produtos de limpeza, por exemplo, constroem a posição das mulheres como donas do lar e únicas responsáveis por seus cuidados. Já propagandas de absorventes (com o sangue representado por um líquido azul) e aparelhos depiladores (com as mulheres sem pelos), por sua vez, reproduzem esteriótipos de gênero, tal como a perfeição inerente do sujeito feminino. Este tipo de publicidade constitui uma das faces das microviolências que se inserem no cotidiano feminino e mantém viva a cultura do estupro.

Campanha do produto de limpeza Mr.Músculo, o qual diz que o produto foi inventado por um menino para que sua mãe tivesse mais tempo para ele. Reprodução. Imagem: MiracleStudios

Para além da publicidade, que apresenta uma mensagem mais explícita, outras manifestações artísticas se inserem em nosso cotidiano, muitas vezes de maneira menos perceptível, e, do mesmo modo, ajudam a perpetuar a cultura do estupro. Tal comportamento aparece bastante em músicas, de diversos gêneros.

Há a difusão da ideia de que a cultura do estupro é a cultura do funk. De fato, este gênero musical apresenta várias letras que refletem a ocorrência de uma violência sexual, tal como ocorre com um dos últimos sucessos, “Malandramente”, onde MC Nandinho canta que “na hora de ganhar madeirada, a menina meteu o pé pra casa”, em uma alusão ao ato sexual não consentido. Entretanto, outros títulos, da MPB à música pop, apresentam este padrão.

Chico Buarque, um dos maiores nomes da música brasileira, canta sobre violência sexual em “Se eu fosse seu patrão”, canção na qual diz que “Se eu fosse teu patrão, eu encurralava, te dominava, te violava no chão, te deixava rota, morena”. E, em “Mulheres de Atenas”, reforça os esteriótipos de gênero, da mulher para o outro, ao cantar “mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas, vivem para os seus maridos, orgulho e raça de Atenas”.

No rap da música U.O.E.N.O, Rick Ross fala claramente sobre estuprar uma garota, no trecho em que diz que colocou droga na champagne da menina, “levou-a para casa e gostou disso, e ela nem vai saber”. Já Justin Bieber, em seu sucesso “What do You Mean?” levanta a ideia de que a mulher é indecisa e não consegue transmitir corretamente seus desejos, podendo levar à um questionamento à sua negação, em uma letra que pergunta “o que você quer dizer, quando você balança sua cabeça em sim, mas você quer dizer não, o que você quer dizer, quando você não quer que eu me mova, mas você diz para eu ir”. E, em um dos casos mais comentados sobre arte e cultura do estupro, a música “Blurred Lines”, de Robin Thicke, celebra linhas tênues em torno do consentimento, ao cantar sobre como ele sabe que, mesmo sem as palavras, a garota o quer, já que “pelo jeito que você me agarra, você deve querer fazer sacanagem”. Os próprios vídeos de Blurred Lines, com garotas desfilando sem sutiã em frente aos cantores, e de What do You Mean, com Justin Bieber no papel de um namorado que forja o sequestro da garota para levá-la à uma festa explicitam a cultura do estupro.

Os programas de televisão, de seriados internacionais à novelas, também podem reproduzir a cultura do estupro. Uma das séries mais aclamadas da atualidade, Game of Thrones choca pela quantidade de cenas de violência sexual e causa polêmica especialmente por algumas sequências serem exclusivas do seriado, uma criação de roteiristas e produtores, sem respaldo nos livros, em uma clara espetacularização do programa. O estupro é, ainda, usado como plot device em várias destas cenas, ou seja, apenas como um mecanismo para causar a continuidade da estória, colocadas no roteiro sem menções às consequências psicológicas e sociais do estupro.

No Brasil, a minissérie Ligações Perigosas, exibida no começo do ano pela Rede Globo, também gerou polêmica nas redes sociais com a cena em que Cecília é estuprada por Augusto. Na sequência, além de a garota não dar seu consentimento, a minissérie romantizou a violência sofrida, dando à entender que a negação de Cecília era um capricho, visto que ela teria aceitado e até mesmo gostado do ato sexual.

Resistências

Existem diversas experiências de resistência de mulheres na arte, na música e na literatura, tendências que apresentam as mulheres como protagonistas, como inteligentes e capazes de pensar sua própria vida além de um sonho de casamento e filhos, sem o sofrido anseio de reproduzir a estética ideal. Mas, infelizmente, ainda são experiências minoritárias frente ao conjunto hegemônico que nos coloca como esposas, mães ou putas (com todo respeito as putas), sempre com um sentido de viver para o outro. A cultura hegemônica não oferece lugar e voz para essas mulheres porque são incompatíveis com a proposta patriarcal para as nossas vidas

Isabel Solysko

Em meio à cultura hegemônica que reproduz esteriótipos e o estupro como regra, algumas iniciativas tentam pensar a mulher na arte para além de seu viver para o outro, como um ser individual e consciente das questões de gênero. É o caso, por exemplo, do grupo de publicitárias que, inspiradas pelas propagandas machistas, decidiram criar a Cerveja Feminista, uma bebida que traz no rótulo a definição de feminismo, e na propaganda, o slogan “para mulheres e homens”, em uma tentativa de trazer a discussão de gênero para a mesa de bar.

Também, algumas propagandas dos últimos tempos tentam reverter a visão esteriotipada das mulheres. A marca britânica de absorventes BodyForm, por exemplo, lançou em abril um comercial sem o líquido azul e as roupas brancas recorrentes na publicidade deste produto. Nele, mulheres praticam esportes e vivem o slogan: Nenhum sangue pode nos parar.

https://www.youtube.com/watch?v=8Q1GVOYIcKc

A ONU Mulheres, por sua vez, criou a campanha Autocomplete Truth, uma série de fotografias que traz as respostas do mecanismo de sugestão de busca do Google para as pesquisas “Mulheres não podem”, “Mulheres não deveriam”, “Mulheres deveriam” e “Mulheres precisam”, na tentativa de explicitar a mentalidade geral da sociedade e conscientizar a população, visto que este mecanismo é formado através das pesquisas mais feitas para determinados termos.

Legenda: Duas das fotos da campanha Autocomplete Truth, da ONU Mulheres, com respostas como “Mulheres precisam ser colocadas em seus lugares” e “Mulheres deveriam ficar em silêncio”. Reprodução. Fonte: Dandad

A plataforma “Músicas de Violência” também é um ótimo exemplo de resistência. Parceria entre o jornal O Estado de São Paulo, o Disque Denúncia do Rio de Janeiro e o aplicativo de reconhecimento de músicas Shazam, a plataforma se estabelece da seguinte maneira: quando um usuário busca uma das mais de 300 músicas selecionadas, que traz, em sua letra, algum exemplo de violência contra a mulher, o aplicativo gera um alerta ao tipo de violência e mostra o depoimento em aúdio deste tipo de abuso sofrido por uma mulher.

Por fim, outro bom exemplo  foi a apresentação da música “Till it Happens to You”, de Lady Gaga, no Oscar deste ano. A faixa, do documentário “The Hunting Ground”, sobre estupros nos campus de universidades americanas, foi indicada à premiação como melhor música original.

A cantora trouxe ao palco, no fim da apresentação, uma série de vítimas de abuso sexual que, com palavras como “Sobrevivente” escritas no corpo e de mãos dadas, mostraram ao público uma cena comovente e dolorosa, de luta e resistência, e que deixou ainda mais claro porque devemos, mais do que nunca, lutar contra a violência sexual e a cultura do estupro.

 

Por Victória Martins
victoria.rmartins19@gmail.com

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