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A imortalidade da imagem: 10 anos da morte de Michael Jackson
Escuta Aí
25 jun 2019 | Por Beatriz Carneiro (beatriz.carneiro2020@gmail.com) e Edson Júnior (edsonjuniormcz@hotmail.com)

Hoje, dia 25 de junho de 2019, completam-se 10 anos da morte de Michael Jackson. A figura emblemática, que revolucionou a indústria da música pop, dividiu e divide opiniões ao redor do mundo. Sem dúvidas, ele foi responsável por salvar a vida de uns e destruir a de outros. Sua imagem permanece imortal, tanto por seus fãs como por seus críticos. 

 

Michael na indústria fonográfica e na vida 

A indústria fonográfica surgiu ainda no século XIX e veio a se popularizar entre os jovens depois da Segunda Guerra Mundial. Trabalha com a comercialização, produção e venda de músicas nas formas de CD, fita cassete, disco de vinil e distribuição digital. Segundo o professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV (CTR) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA – USP), Eduardo Vicente, essa indústria sofria recessão econômica e envelhecimento do público consumidor durante os anos 70.

Nos anos 80, começam as apostas na música disco, oriunda dos clubes voltados   para negros, latino-americanos e gays, mas o crescimento continuava lento. Quem diria que uma figura que estava prestes a mudar esse cenário apareceria? Ainda mais vendendo mundialmente e alavancando o mercado da indústria fonográfica, tudo isso por meio da transformação da música em arte visual com a produção de videoclipes. A figura emblemática é Michael Jackson, que ficaria conhecido como “Rei do Pop”. Quando tinha apenas 6 anos, ele começou a carreira na banda Jackson five com seus quatro irmãos, já configurando um sucesso desde os anos 60. Destacava-se por ter uma voz afinada e por seus passos de dança de autoria própria. O professor, Eduardo Vicente, afirma que o cantor foi essencial para a salvação da indústria fonográfica no mercado.  

A inovação na forma de construir videoclipes, com uma pesada produção, rendeu bilhões para a indústria que, na época, se encontrava em crise. O cantor era dono de várias habilidades que iam desde intérprete e dançarino a compositor. Foi com este gingado que o primeiro homem afro-americano e negro ostentava os maiores índices conhecidos de vendas de discos e quebra de barreiras raciais. 

Por trás do músico que revolucionou a forma de produzir e sacudiu vendas, existia uma criança que foi explorada pelo pai. Michael Jackson, na infância, era exposto a muitas formas de violências físicas e psicológicas, um tipo de domesticação para o sucesso conduzido por Joe Jackson, seu pai. É nesse ambiente da palmatória e da exploração infantil que o cantor cresce, desenvolvendo futuramente o saudosismo de uma infância não vivida. A carreira e a vida pessoal da estrela foram um verdadeiro reality show de acusações polêmicas e sucesso estonteante.  

Com interpretações perfeccionistas e recheadas de batidas dançantes, Michael Jackson se consolidou no mundo da música, influenciando muitos artistas como Justin Timberlake e Britney Spears. A hipnotização do Moonwalk, passinho de dança para trás enquanto parecia caminhar para frente, e álbuns como Thriller concretizaram o nome de Michael no espaço da música pop.  

 

Grandes Clipes

Com suas inovações e altos investimentos, os clipes do “Rei do Pop” são memoráveis até hoje. Eduardo Vicente também comenta sobre a universalização das músicas e clipes, visto que não eram produzidos somente para o mercado norte-americano e britânico, mas para o mundo. Os temas eram os mais diversos possíveis, tratando de paz mundial, igualdade racial, preservação do meio ambiente e até ficções fantasiosas. Isso fez com que uma grande massa de fãs de todos os gêneros,raças e outras pautas identitárias se identificassem com suas letras.

Um dos maiores clipes já feitos na história foi Thriller. A produção audiovisual conta com uma equipe de atuação e recursos inimagináveis a os anos 80. A narrativa, contada durante 13 minutos, ficou mais marcada do que a música em si. A maioria das pessoas já viu a cena memorável de Michael maquiado de zumbi. Com referências ao gênero de terror, um enredo cativante e efeitos especiais poderosos, o vencedor do Grammy de melhor vídeo musical longo em 1985 é um marco na indústria musical.

[Imagem: Reprodução]

“Michael, eles não ligam pra gente”.  Esta célebre frase refere-se ao descaso do governo com a população pobre e está presente no videoclipe de They Don’t Care About Us, gravado em duas favelas no Brasil. O Pelourinho (Bahia) e o Morro da Santa Marta (Rio de Janeiro) foram os palcos da produção. A letra e o clipe têm como tema os problemas sociais enfrentados pelos moradores de comunidades, em sua maioria negros. A gravação ainda conta com a apresentação do grupo baiano Olodum. Uma das fãs chegou a invadir a área destinada apenas para Michael, cena presente na versão final. A música também conta com outra versão, gravada em uma prisão americana, tendo como mais uma de suas críticas o encarceramento em massa.

Giovanna Lima, grande fã do cantor, comentou em entrevista para o Sala33 que seu clipe preferido é Black Or White, por mostrar a diversidade e ser criativo. Realmente, a diversidade é essencial para o sucesso da produção, contando com cenas em meio a uma tribo indígena na floresta e a um palácio russo. O single do álbum Dangerous traz uma mensagem de aceitação e igualdade racial:

 But, if you’re thinkin’ about my baby 

It don’t matter if you’re black or white” 

(Mas se você quer ser minha garota

Não importa se você é negra ou branca)

O vídeo ainda conta com a participação ilustre de Macaulay Culkin, ator famoso pelo filme Esqueceram de Mim, e sua continuação Esqueceram de Mim 2. Os efeitos de Black Or White também impressionam. Há a presença de uma tecnologia de mudança de face entre várias pessoas, em que o rosto de um “se transforma” no rosto de outro sendo inovador em 1991, ano em que foi lançado.

Michael Jackson e Macaulay Culkin [Imagem: Reprodução]

Muitos outros nomes se destacam, como Heal The World e Bad. O comum entre todos eles está na visão do astro em entender a forma da produção de seus clipes, contando com a parceria de grandes diretores em alguns deles, como Spike Lee (diretor do longa Malcolm X, de 1992) e Martin Scorsese (diretor de Taxi Driver, de 1976) Todos esses videoclipes citados representaram um marco do audiovisual dentro da música pop.

 

Polêmicas

Jackson teve uma carreira conturbada, que se estendia para os mais diversos âmbitos de sua vida. Seus traumas vividos na infância corroboraram a personalidade mais reclusa que o caracterizava.O astro se comportava de forma esquisita, concedia poucas entrevistas e teve poucos relacionamentos amorosos. 

O saudosismo de uma infância não vivida criou a dicotomia do homem-criança. Pode-se dizer que Michael Jackson se comportou como “criança na pele de adulto”. Ele sempre era visto rodeados de jovens em shows, clipes e na vida privada.  O Rancho de Neverland, localizado na Califórnia, propriedade dele, abrigava um zoológico e um parque de diversões que recebiam muitas crianças.

Rancho de Neverland [Imagem: Reprodução]

Em 1993, Michael foi acusado de casos de abuso sexual envolvendo menores. Jordan Chandler, um menino de 13 anos e seu  pai o acusavam de tal atrocidade. O pai do garoto percebeu que o astro dormia na mesma cama do filho e outras crianças. Fato que é, no mínimo, estranho para um adulto. Não demorou muito tempo para que casos iguais surgissem: Gavin Arvizo, também garoto, acusava-o da mesma ação. Com depoimentos de outros jovens a favor de Jackson – a exemplo de Macaulay Culkin – e a desigualdade dada às vozes dos dois lados – já que o astro tinha poder jurídico por conta de seu sucesso e sua fortuna– ,os casos não foram comprovados e o acusado foi absolvido em 2005. 

No ano de 2019, os casos de abuso sexual voltaram  tona com o documentário Deixando Neverland (Leaving Neverland), da HBO. James Safechuck e Wade Robson (crianças de 7 e 10 anos na época) afirmam e contam com detalhes os abusos sexuais que sofreram na mão da celebridade. Os mesmos, em julgamentos anteriores negavam essas acusações. Já no longa, afirmam que, na época, não entendiam  o abuso sofrido e tinham medo da repercussão negativa que as acusações poderiam gerar.

Wade Robson e James Safechuck [Imagem: Reprodução]

As polêmicas não param. A mudança de cor gerou críticas, acusando-o de não aceitar sua pele negra, visto que  Michael mudou de uma pele negra para uma extremamente branca. No programa da apresentadora Oprah Winfrey, em 1993, o cantor disse que a mudança foi provocada por vitiligo, uma doença que ataca as células que produzem o pigmento que nos dá cor. 

Entre desastres, em 1984, o cantor teve queimaduras de segundo e terceiro grau adquiridas durante uma gravação comercial para Pepsi. Esse incidente o levou a uma dependência em analgésicos, presentes em sua vida até sua morte.

[Imagem: Reprodução]

Fontes próximas ao cantor afirmam que, já em seus últimos anos de vida, o vício em remédios se fazia cada vez mais forte. Michael tinha dificuldades para dormir, e tomava doses pesadas de medicamentos para adormecer. Algumas plásticas mal sucedidas mostravam suas consequências, como seu nariz extremamente fino. Todos esses fatores corroboraram a fraqueza da saúde física e mental do astro.  

 

Morte e imortalidade da imagem

Em 5 de março de 2009, em Londres, centenas de fãs e repórteres esperavam Michael Jackson para um grande anúncio. Sumido dos holofotes havia alguns anos, todas as polêmicas que envolviam o cantor provocavam uma divisão de opiniões em relação ao seu estrelato. Além disso, ele passava por problemas financeiros devido ao seu luxo exacerbado e vivia sob constante ameaça de morte. Mas, neste dia, o mundo voltou a falar o nome do cantor. Ele anunciou sua grandiosa e última turnê, This Is It. O projeto era ambicioso, contando com 50 apresentações entre julho de 2009 e março de 2010.

Porém, todo o trabalho teve de ser cancelado 18 dias antes da primeira performance. No dia 25 de junho daquele ano, uma notícia movimentou os telejornais da época. Era confirmada a morte do “Rei do Pop”, de apenas 50 anos. Muitos fãs se comoveram com o fato, sem acreditar que aquilo realmente teria acontecido. Até hoje, a morte do astro é uma das maiores polêmicas da história. 

Relatórios oficiais contam que Michael teve uma parada cardíaca provocada pelo uso demasiado de remédio na noite anterior, dia 24. Seu médico, Conrad Murray, foi condenado à prisão, em 2011, por homicídio culposo, era responsável por medicar o cantor e o havia feito um dia antes.

[Imagem: Reprodução]

Desde então, diversas teorias da conspiração trazem outra versão da história. Elas contam que o astro teria forjado a própria morte para fugir da mídia e dos holofotes que o perseguiam nos últimas décadas em vida. Matilde, fã do cantor desde os primórdios de sua carreira, afirma acreditar que elas possam ser verídicas. “Ele não morreu e pode, a qualquer momento, aparecer vivo e triunfante! Gostaria que fosse real essa teoria! Ia alegrar o mundo!”

A dualidade de sua imagem sempre andou junto com o sucesso de sua carreira. Mesmo dez anos depois de seu falecimento, ele ainda divide opiniões. Entretanto, é indubitável que sua imagem ainda é viva na memória da música. Giovana Lima diz que, “na memória das pessoas, acredito que ele ainda vive, por conta de sua influência tão grande na indústria da música e por sua personalidade incrível, que a vida toda procurou apoiar causas e ajudar aqueles que precisavam.”

Michael ainda contou com muitas pós-produções, principalmente de músicas gravadas que não foram lançadas em vida. Em 2014, saiu o álbum XSCAPE, que conta com oito músicas inéditas, sendo uma delas uma parceria com Justin Timberlake.

Após dez anos de sua morte, não ficou clara a personalidade da celebridade. Responsável por salvar a vida de uns e destruir a de outros, a vida conturbada de Jackson nunca será desvendada por completo. Mas é evidente a revolução que Michael Jackson causou na forma de produzir canções, vídeos e como se comportar em cima do palco. Com certeza, a imagem de Michael marcou a história.

Sala 33
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