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A quebra de paradigmas na volta de “Anne with an E”
Controle Remoto
16 jul 2018 | Por Jornalismo Júnior

A segunda temporada da série original Netflix Anne with an E, lançada no início de julho na plataforma, continua encantando o público, como fez a primeira – lançada em 2017, onde o público foi apresentado a Anne e seu novo lar. Anne Shirley, vivida pela atriz Amybeth McNulty, é uma órfã de 13 anos, tagarela e de imaginação extremamente fértil que, apesar de toda as dificuldades e amarguras vividas durante toda sua vida, é genuinamente alegre e possui um jeito singular e inspirador de encarar a vida.

A história começa quando Anne é, por engano, enviada a um casal de irmãos solteiros, – Matthew e Marilla Cuthbert – que percebem as limitações da idade chegando e precisam de ajuda para realizar os cuidados da fazenda onde moram, a encantadora Green Gables. Então, resolvem adotar um garoto, mas ao invés disso, recebem uma magricela de cabelos cor de fogo. Matthew logo se encanta pela garota, mas Marilla é relutante de início. Aos poucos, Anne conquista a mulher, trazendo cor e poesia à sua vida, e provando, com seu feminismo descomplicado e, aparentemente nato, que poderia sim ajudar nas tarefas da fazenda, mesmo sendo uma menina.

Ao longo da primeira temporada, Anne Shirley torna-se Anne Shirley-Cuthbert, e a partir de sua chegada ao novo lar, Avonlea – uma vila rural fictícia -, temos o prazer de desbravar o mundo através de sua perspectiva: carregada de sensibilidade e poesia, que em cada simples canto da natureza ou palavra difícil, enxerga encanto e glória. A protagonista também está explorando cada vez mais o mundo dos sentimentos e é graciosa e intensa ao conhecer cada um deles. Anne é um indivíduo apaixonado – pelo mundo, pelas palavras, pelas pessoas – e ao mesmo tempo, apaixonante. Na segunda temporada, a trama – em essência – é a mesma, mas as descobertas e aventuras só aumentam e novos personagens e temáticas são adicionados ao roteiro. Já na forma de contar essas histórias, a série continua tendendo para a dramaticidade, mas a receita que perfeitamente resulta numa trama equilibrada, simples, e ao mesmo tempo profunda e deliciosa de assistir, conta também com uma pitada generosa de humor.

A história, baseada no romance Anne de Green Gables (Anne of Green Gables,1908), escrito pela autora Lucy Maud Montgomery,  se passa no fim do século 19. Os amantes de histórias de época certamente irão se deleitar com a fotografia estonteante dessa série que, além de tecnicamente perfeita, possui uma ótica delicada que se aproveita bem da locação já naturalmente tão bela – a província de Prince Edward Island, no Canadá, lugar que proporciona aos telespectadores as mais lindas paisagens.

A beleza estética não é a única qualidade técnica da produção canadense, que é perfeita em sua execução e encanta desde a abertura – feita com uma arte linda e uma música que, em canto e melodia, resume bem nossa protagonista: “you are ahead by a century” (você está à frente por um século). Além disso, os figurinos são impecáveis e toda a trilha sonora é linda e tocante. O elenco, tanto os atores mais velhos quanto os mirins, convence em atuações que entregam sentimento. Além disso, o roteiro, escrito pela premiada Moira Walley-Beckett (produtora e roteirista de Breaking Bad), é pra lá de maravilhoso, e de mãos dadas com a direção (diferente em cada episódio), prima pelos detalhes, tanto na estética quanto no desenvolvimento dos personagens e suas relações. A sensação é que estamos lendo um livro da mais excelente literatura, riquíssimo em detalhes. Isso pode acabar irritando os menos pacientes ao longo desses 10 episódios – 3 a mais que a primeira temporada -, mas encanta os mais sensíveis.

 

Novos personagens

Ao longo da segunda temporada, Anne expande seus horizontes e suas visões de mundo por meio de novos personagens. Somos apresentados a Sebastian (Dalmar Abuzeid), o primeiro personagem negro a ter uma história desenvolvida na série, e a tia Josephine (Deborah Grover) – uma mulher progressista, conhecedora do mundo e das artes que, em um dos melhores episódios da série, inspira Anne ao dar uma festa em sua casa, reunindo pessoas que, assim como ela e nossa adorável protagonista, estão à frente de seu tempo. Com esses novos personagens e através da mentalidade transgressora de Anne, a série aborda diversos temas importantes – como fez na primeira temporada -, como o racismo e a homossexualidade, sem perder o charme da narração leve e encantadora.

 

Bullying e Amizade

Cole Mackenzie (Cory Gruter-Andrew) é colega de classe de Anne na escola e, nessa temporada, a amizade entre eles se desenvolve de maneira especialmente bonita. Cole é frequentemente perturbado de diferentes – e cruéis – maneiras pelo professor e pelos colegas, que não o aceitam, julgando sua personalidade diferente, por ser sensível e mais reservado. O personagem é também uma agradável surpresa ao público ao se descobrir um artista nato e, desenhando ao longo dos episódios, se desenvolve e se aprofunda em sua arte; mas para seus colegas na trama, este fato é apenas mais uma de suas estranhezas e, por isso, era ainda mais perturbado. É em Anne que Cole encontra acolhimento e os dois desenvolvem uma confiança rara um no outro. Assim, ambos se acolhem por suas peculiaridades numa amizade que emociona.

 

Mulheres ocupando mais espaço na sociedade

A série se passa numa época em que a sociedade era estratificada, na qual homens e mulheres tinham papéis definidos desde o nascimento, não sobrando muita margem para escolhas. Se você era uma menina, era certo que iria se casar, ter filhos e cuidar da casa. A série está situada exatamente no período em que as coisas começam a mudar. Prova disso é quando, já no fim da trama,  – deixando uma pista para uma possível terceira temporada – somos apresentados à Senhorita Stacy (Joanna Douglas), a nova – e primeira – professorA. Mulher viajada, tendo estudado em Paris (tendo que se fingir de homem para tal), já chega transgressora: numa bicicleta a motor, não veste um corset, mas sim uma calça. Invade a pequena escola com aulas diferenciadas, práticas, participativas e envolventes, inspirando o senso crítico das crianças e provocando o conservacionismo dos adultos.

 

Autoestima e padrões de beleza

A questão da autoestima e dos padrões de beleza é recorrente em alguns episódios. Anne se considera feia por causa de sua magreza e seus cabelos ruivos. O público pode cair no erro de contra-argumentar mentalmente – já que hoje os cabelos cor de fogo e corpos magros e esguios são adorados e almejados -, reforçando a efemeridade dos cruéis padrões estéticos e dando força ao objetivo da narrativa, que é apontar a estupidez dos modelos de beleza e dos preconceitos.

Questão racial

Um dos mais carismáticos novos personagens é Sebastian. Vindo de terras longínquas, é o primeiro personagem negro recorrente na série. Chega até Avonlea através de sua amizade recente com Gilbert – que ao longo dos primeiros episódios está trabalhando num navio – e é bem bem acolhido por Anne, sua família e a maioria de seus amigos. Apesar disso, a história de Sebastian se desenvolve mostrando a dificuldade em ser aceito pela comunidade, em geral ainda muito preconceituosa – mas sempre contando com o apoio de pessoas à frente de seu tempo.

Homossexualidade

O tema da homossexualidade é muito bem explorado por perspectivas diferentes, através  de três personagens: um que entende sua sexualidade e a aceita apesar das dificuldades da época, outro que está em processo de autoconhecimento e aceitação, e ainda outro que, por não aceitar sua sexualidade, oprime pessoas que considera também “diferentes” – trazendo a reflexão: odiamos nos outros o que, no fundo, somos?

Os irmãos Cuthbert

A primeira temporada não nos dá muitas respostas a respeito da vida de Matthew e Marilla, os irmãos que adotam Anne. Até então, através de pistas, percebemos que são pessoas um tanto quanto amarguradas, tendo tido uma vida desprovida de muitas alegrias e possibilidades, marcados pela dor de perdas irreparáveis. Enxergamos o casal de irmãos como pessoas tão solitárias que nunca perceberam sua solidão, pois a companhia nunca foi ao menos uma possibilidade – até que chega Anne, uma alegre companhia que, com sua tagarelice constante, rompe a vida silenciosa que tiveram até então.

Nessa segunda temporada, temos o prazer de conhecer um pouco mais sobre a história, o relacionamento e o passado dos Cuthbert, através de flashbacks e conversas entre os irmãos, que nos explicam inclusive um pouco sobre o fato de ambos não terem se casado – algo incomum na sociedade da época. O premiado ator R. H. Thomson dá vida à Matthew, que na primeira temporada, apesar de melancólico, já se desmanchava pelos encantos de Anne. Dessa vez, aparece cada vez mais doce em seus olhares e gestos, inspirado pela menina a viver uma vida mais leve e enfrentar seus medos. Também mergulhamos um pouco mais a fundo na personagem Marilla – vivida pela atriz inglesa Geraldine James – , que se desenvolve cada vez mais, expandindo seus relacionamentos externos e internos, e descobrindo sua voz ativa tão tardiamente – inspirada, certamente, por Anne, que sempre fala o que pensa – e se desvencilhando pouco a pouco de sua característica expressão dura, dando mais espaço a seu olhar que antes, sempre timidamente e por descuido dela, já se desmanchava em algumas cenas e transbordava sentimento, apesar de suas tentativas de esconder-se por de trás da dureza da vida.

A temporada se conclui, mas deixa espaço para continuidade, já que no último episódio a protagonista faz uma decisão importante a respeito de seu futuro, escolhendo o que deseja ser profissionalmente. Outros personagens, como o encantador Cole, também deixam o público sedento por mais desenvolvimento e possuem espaço de sobra para uma maior exploração. Além disso, como os livros de Lucy Maud Montgomery acompanham Anne até a fase adulta, a falta de histórias não é um problema. Nos resta cruzar os dedos e torcer por uma terceira temporada que continue contando sobre a menina amante de palavras difíceis. Essa temporada, assim como fez a primeira, apresenta uma produção que é profunda, sensível, simpática, divertida, dramática e muito inteligente, tudo ao mesmo tempo.

A mensagem da série – que devemos saborear as amarguras e doçuras da vida – pode soar demasiado simples, mas é tão bem sustentada por meio de cada recurso técnico, empregado por mãos delicadas em cada episódio, que não deixa absolutamente nada a desejar, criando uma atmosfera linda, onde cada sensação é percebida e sentida por quem está assistindo. Anne With An E é uma série carregada de doçura, delicadeza, reflexões e encantamento – e assim como Anne encanta e derrete o coração dos personagens de Green Gables, Anne With An E é com certeza uma boa pedida para aquecer o coração da audiência nesse inverno.

Por Giovanna Stael
giovannastael@usp.br

 

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