Moda e política estão entrelaçadas de maneira tão indissociável que a relação consciente entre as duas pouco ocorre de imediato. O vestuário, da mesma forma que produtos de beleza como maquiagem e perfumes, são peças únicas, mesmo que por vezes produzidas em massa. Cada indivíduo toma as peças para si, transforma-as no que bem entender, uma jaqueta jeans deixa de ser apenas isso e se torna o que o indivíduo queira. Logo, nada mais natural que, ao utilizar da vestimenta para se expressar, as pessoas acabem imprimindo também suas visões políticas e sociais.
Política pelo consumo
A manifestação do casamento entre a expressão da política e da moda se inicia logo pelo seu consumo: o que o consumidor decide comprar, onde e de quem. Nos últimos anos a conversa sobre sustentabilidade e consumo ético vem crescendo nas redes sociais, com o surgimento de influencers como Nátaly Neri, que falam especificamente sobre esse assunto. Assim como marcas vêm tentando se adaptar à nova exigência dos consumidores quanto à produção ética e sustentabilidade. Desde 2018 a Amaro tem instituído iniciativas e medidas para melhorar a sustentabilidade, acompanhada das fast fashions brasileiras C&A, Riachuelo, Renner e diversas outras marcas ao redor do mundo.
A escolha da compra de itens produzidos por empresas de acordo com os ideais do consumidor sempre existiu, mas recentemente ganhou mais força e relevância com marcas sendo “canceladas” nas redes sociais pelas denúncias de trabalho escravo. “Se uma empresa tem uma reputação de exploração de trabalho infantil, matériais antiéticos e demonstra constante repúdio contra a comunidade LGBTQIA+, eu imediatamente deixaria de consumir seus produtos”, relata Tanya, estudante no ensino médio e amante da moda.
![Trabalho escravo para confecção de roupas. [Imagem: Repórter Brasil/Senado Federal]](http://jornalismojunior.com.br/wp-content/uploads/2020/12/trabalho-escravo-roupas.jpg)
Merchandising e protesto
A ligação entre moda e política não termina nos hábitos de consumo. A vestuária é comumente utilizada para a retratação mais clara da posição política, serve como merchandising para partidos e figuras políticas, e se torna símbolos icônicos como o boné Maga (Make America Great Again) e a camisa com a estampa do rosto do presidente Bolsonaro.
O uso da vestimenta para identificação de orientação ou partido político não é algo novo. Na história há a presença de vestuários notáveis como o uniforme do exército nazista, facilmente identificável pelas cores e as suásticas nos braços, e do Exército Vermelho da União Soviética, com suas budiónovkas (tipo distintivo de chapéu utilizado pelos miltares russos). A relação se aprofunda ainda mais com a participação de grandes designers em tais grupos militares, como Coco Chanel (fundadora da grife Chanel, que agiu como agente nazista) e Hugo Boss (fundador da grife Hugo Boss, que fez o design dos uniformes do exército nazista).
Mensagens e ícones em merchandising se estendem também para os movimentos sociais, onde cresce a polêmica de empresas fazendo uso de tais mensagens para obter lucro. Com o estouro do movimento Black Lives Matter (BLM, Vidas Negras Importam) nos Estados Unidos, muitas marcas passaram a vender itens de roupa com o nome do movimento, as hashtags BLM , Acab (All Cops Are Bastards, Todos os Policiais São Bastardos), CAP (Cops Are Pigs, Policiais São Porcos) e também itens com a imagem das vítimas de brutalidade policial, como Breonna Taylor e George Floyd.
![Camisa utilizada em protesto dos jogadores da NBA em apoio ao Black Lives Matter, com as últimas palavras de George Floyd antes de ser assassinado pela polícia. [Imagem: Icon Sports Wire/Slam]](http://jornalismojunior.com.br/wp-content/uploads/2020/12/lebron-i-cant-breathe.jpg)
No entanto, os símbolos do Black Lives Matter, assim como muitos outros, foram usados em roupas e acessórios como forma de protesto em situações nas quais discrição era necessária. O uso da vestimenta como protesto se deu pelos jogadores da NBA, que boicotaram os jogos e vestiram camisas do movimento em demonstração de apoio. Assim como Lewis Hamilton usou um óculos de sol de Black Lives Matter na Fórmula 1, após o veto de camisetas para evitar protestos.
Em 2020 muitas marcas lançaram camisetas e máscaras com a palavra “vote” a fim de incentivar o registro de novos eleitores para a eleição estadunidense que ocorreu no início de novembro. Mais notoriamente a camiseta Model Voter, usada por diversos modelos e influencers no Instagram, que faz parte do projeto Fashion Our Future, uma iniciativa para conscientizar jovens eleitores.
![Supermodelos Tyra Banks e Martha Hunt nas camisetas do projeto Fashion Our Future. [Imagens: @tyrabanks/Instagram e @marthahunt/Instagram]](http://jornalismojunior.com.br/wp-content/uploads/2020/12/tyra-banks-and-martha-hunt.png)
O casamento histórico entre a moda e a política
A ligação entre moda e política ocorre há décadas. Desde a Idade Média até a Era Moderna, quando a aristocracia utilizava vestimentas com os tecidos e materiais mais caros, que faziam com que as peças se destacassem não só pelo formato como também pela qualidade. A moda, feita para os ricos e somente acessíveis para eles, distinguia a classe política — a elite — dos demais.
A identificação da classe política pelas vestimentas hoje não é tão relevante. As grandes grifes ainda existem com seus preços exorbitantes, mas seus itens são muito mais discretos e difíceis de serem reconhecidos por aqueles que não estão mergulhados no mundo da moda. Isto é, quando não se utilizam das logos de suas marcas para demonstração de soberba.
O vestuário, assim como tudo na vida, é política. Seja no seu consumo, na sua produção, na sua representação ou uso, a indústria da moda consciente e inconscientemente se liga aos nossos ideais. Roupas, acessórios e produtos de beleza são parte do dia a dia de qualquer cidadão, tomam forma e significado de acordo com cada indivíduo.
A indústria, no entanto, por maior e mais influente que seja, não tem uma missão para influenciar as massas sobre questões ou movimentos políticos. As marcas dentro desta indústria, que carregam o rosto e nome de pessoas reais, têm o poder de levar essa influência, como citado pela professora Cláudia. O exercício da influência das marcas a favor de causas políticas e sociais é cada vez mais cobrado por consumidores, exigência que vem sido adotada e se torna cada vez mais transparente em marcas emergentes.