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A segunda mãe: um retrato das empregadas domésticas no cinema latino
CINÉFILOS
19 dez 2019 | Por Laura Toyama (laura.toyama@usp.br)

Cresci na casa dos meus avós maternos, num bairro nobre da Zona Oeste de São Paulo. Um bairro residencial, um oásis isolado construído pela classe média paulistana. Não havia um sequer ônibus que passasse por lá. Todo dia a mesma cena se repetia: às 6:00 da manhã, uma horda de mulheres carregando bolsas e sacolas subia as ladeiras, a pé, até os grandes sobrados onde trabalhavam. Eram as empregadas, que vinham de longe e que não tinham outra maneira de chegar ao trabalho se não caminhando. Por anos achei isso engraçado, até que um dia a realidade me apareceu e parei de achar graça. As empregadas não eram quem eu pensava.

No Brasil, cerca de 7 milhões de pessoas trabalham como empregadas domésticas. Dessas, 97% são mulheres e 70% são negras. Os dados levantados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) escancaram a realidade brasileira: um país que, apesar dos avanços, ainda aceita os resquícios da exploração que marcou seu passado. Mesmo com a aprovação de leis específicas para essa ocupação em abril de 2013, a chamada “PEC das Domésticas”, 5 milhões dessas trabalhadoras ainda estão em irregularidade, sem direitos básicos como férias e décimo terceiro salário. Esse cenário apenas confirma a luta de classes em sua face mais velada e nos traz à reflexão sobre quem são as reais protagonistas dessa luta.

No cinema, as empregadas domésticas foram representadas com maestria em alguns longa-metragens latinos. Dentre eles, Que Horas Ela Volta? ( 2015), dirigido por Anna Muylaert, e Roma (2019), filme de Alfonso Cuarón, se destacam como produções que marcaram seus espectadores pela dura e próxima realidade que remontam. Com empregadas como protagonistas, em diferentes contextos, conversam muito entre si ao questionarem uma hierarquia de classes encoberta pelo conceito de família. A provocação latente da posição que ocupam essas personagens na casa onde trabalham e servem aos patrões é o tema central dessas obras tão bem construídas, técnica e conceitualmente.


Quem tem medo da filha da empregada?

A diretora e roteirista Anna Muylaert (Durval Discos, 2002 e O ano em que meus pais saíram de férias, 2006) conseguiu representar a sutileza das relações de poder dentro de uma casa da classe média brasileira. Em Que Horas Ela Volta?, acompanhando a rotina de Val (Regina Casé), pernambucana que há mais de uma década deixou sua terra natal para trabalhar na capital paulista, a narrativa fala do verdadeiro papel da empregada: ao mesmo tempo que assume a figura de mãe para Fabinho (Michel Joelsas), filho único de seus patrões, é afastada de sua própria filha. O título “que horas ela volta?” representa a substituição de uma mãe ausente por outra. Em inglês, traduzido para The Second Mother, (a segunda mãe), Val de fato incorpora esse papel da engrenagem fundamental que mantém o sonho da família ideal brasileira funcionando, enquanto a sua própria é marcada pelas consequências de seus sacrifícios e sua ausência.

As cenas silenciosas e vazias, preenchidas hora ou outra pelo barulho do aspirador de pó, ressaltam o isolamento do sobrado onde se passa a história. A distância entre os personagens, mesmo debaixo do mesmo teto, torna visível a forma como enxergam a si próprios e a diferença entre suas realidades, apesar de dividirem o mesmo espaço. Quem criou Fabinho? Quem mora na casa? As provocações vão aparecendo até que se torna insuportável não questionar o que de fato se passa dentro daqueles muros no bairro do Morumbi.

Val e Fabinho, ainda pequeno [Imagem: Gullane Filmes]

A grande virada acontece com a vinda inesperada de Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, já mais velha e recém chegada a São Paulo para prestar vestibular. Pretendendo cursar arquitetura, as noções espaciais da menina vão além de estruturas de concreto. Ela enxerga também as velhas estruturas de uma hierarquia de poder que nunca foram questionadas pela mãe. A subversão das regras sociais transforma a tela num espelho para uma classe média já acomodada com seu prestígio e pouco disposta a perdê-lo, e abala essa certeza de superioridade ao colocar a filha da doméstica sentada na mesa dos patrões e almejando uma vaga na faculdade, de igual para igual, com seus filhos. 

A jovem representa uma classe trabalhadora em ascensão e com consciência da própria importância na sociedade. O discurso da educação como instrumento de mudança é narrativa nova nos cômodos da casa. O estranhamento de Val com o interesse da filha pela faculdade nos sensibiliza pela sua simplicidade ao aceitar sua condição como um destino. Jéssica não se limita a habitar o quartinho da empregada. Ocupa o espaço fisicamente ー nadando na piscina e dormindo no confortável quarto de hóspedes ー e socialmente ー quando se demonstra segura de si e de seus objetivos. Quando sua presença desestabiliza a configuração da casa (e de toda uma formação social), desperta a fúria de Bárbara (Karine Teles), a patroa, e acaba libertando a verdade engasgada sobre a mãe: Val é praticamente da família, desde que conheça seu lugar e se conforme com ele.

A medida que Val assume uma nova posição no lar desequilibrado pela chegada de sua filha, o núcleo familiar se desmantela aos poucos. Em determinada cena, asquerosa de tão realista, José Carlos (Lourenço Mutarelli), o patrão, oferece a jovem vestibulanda um casamento, dinheiro e uma fuga. Uma atitude tão drástica, todavia previsível, tamanha a fragilidade das máscaras que usam os personagens da família perfeita da alta sociedade paulistana. Esses desvios apenas comprovam a importância de alguém marginalizado pelos laços de sangue, as domésticas, na manutenção das aparências de um lar ideal.

A relação de carinho de Val e Fabinho põe em evidência a sua importância para a família e para a criação do menino [Imagem: Gullane Filmes]

O filme carrega consigo essa verdade difícil de tragar. Numa América Latina que se viu envolta em exploração desde seu nascimento, o cinema vem figurando como instrumento de denúncia, e cada vez mais coloca a ascensão das camadas mais pobres no foco de suas lentes. Ao escancarar os privilégios da classe média que se considera merecedora de suas conquistas, Anna Muylaert transforma o filme numa provocação. Ao abrir mão dos cuidados com a própria casa para fazê-los na casa de alguém que paga por isso, o trabalho doméstico, apesar de digno, não pode ser visto como um efeito colateral saudável das questões raciais e de classe que enfrentam os países sul americanos desde sua formação. É necessário questionar. É necessário reconhecer quem são as empregadas que caminham diariamente para manter o arranjo de privilégios e desigualdades que as rodeiam.


Sob olhar silencioso da jovem empregada

Lançado no primeiro semestre de 2019 na plataforma da Netflix, depois da exibição em festivais internacionais, Roma, de Alfonso Cuarón, segue a mesma linha de criticismo que o longa-metragem brasileiro. Apesar de ambientado em um contexto diferente, tem seu toque de realidade pelo tom autobiográfico que assume ao recriar a infância do diretor num tradicional bairro da Cidade do México, que leva o mesmo nome do filme. 

O roteiro é dedicado a Libória Rodriguez, carinhosamente chamada de “Libo” por Cuarón, de quem foi segunda mãe. De origem Mixteca, a vida da jovem empregada é ressignificada aos olhos de um menino que, aos poucos, toma consciência de que ela era mais que a responsável por lavar as roupas e o chão da garagem: tinha voz, tinha história e era mais uma peça nas engrenagens de uma sociedade filha da colonização e da exploração. Nas telas, Libo dá lugar a Cleo (Yalitza Aparicio), uma jovem Mixteca que é uma das empregadas de uma família rica no México dos anos 1970.

O título Roma também pode ser entendido como uma referência a Roma, Cidade Aberta (1944), de Roberto Rossellini, filme neorrealista italiano, que influenciou algumas composições da fotografia do longa mexicano: os quadros em preto e branco, bem abrangentes e nítidos, que nos dão a impressão de uma visão mais ampla sob o contexto e os acontecimentos. Essa toada soa condizente com a mudança da percepção do diretor sob sua própria história e a importante ressignificação da protagonista no decorrer da trama. Quando o homem da casa sai de cena, Cleo é o ponto de apoio das crianças e da mulher.

Cleo segura o filho caçula enquanto a patroa se despede do marido [Imagem: Reprodução/Carlos Somonte]

O México dos anos 1970 é marcado por instabilidades políticas e sociais, que se refletiram também dentro do sobrado, onde agora paira o desconforto e a angústia da ausência do pai. A desestabilização do núcleo familiar e o pilar que a jovem criada se torna falam diretamente com o antecessor Que Horas Ela Volta?. Cleo se vê sob a linha tênue do laço familiar e do trabalho, assim como Val. A hierarquia que antes existia: a empregada é submissa a mulher, que por sua vez é submissa ao marido, é desfeita, e cria, num contexto inesperado, a possibilidade de mudança dos padrões sociais já há tanto consolidados.

No mesmo contexto em que a protagonista vê desmoronar a família para a qual trabalha, a instabilidade também se mescla a suas próprias questões. Enquanto ajuda a juntar os cacos do que restou da casa, engravida e é deixada à própria sorte. Sem condições de enfrentar uma gestação a mercê de suas próprias condições, é amparada pela patroa que vê nela um apoio mútuo para as perdas que sofrem. Por mais distantes que sejam, o confronto desses problemas mostra Cleo como uma parte importante na sustentação do lar onde trabalha. Mais uma vez, a maternidade e a função social têm grande potencial para questionar as estruturas da sociedade. Cuarón e Muylaert exploram o mesmo caminho.

Cleo segura carinhosamente os filhos mais novos de sua patroa, de quem cuida como se fossem seus [Imagem: Reprodução]

A câmera o tempo todo acompanha Cleo e suas percepções dos acontecimentos. Essa perspectiva nos apresenta um México em mudança, mas sem a contextualização explícita para saber do que, de fato, se tratam tais mudanças. Assim, Cuarón retoma a narrativa de uma sociedade ainda pautada por um passado colonial forte e representa, através dos olhos de Cleo, a segregação indígena das revoluções sociais e culturais de seu próprio território. 

Uma cena de destaque que dialoga com essa crítica é o retrato do Massacre de Corpus Christi, um dos protestos estudantis duramente reprimidos na Cidade do México, em meados de 1971. Cleo vê a violência do Estado pela janela de uma loja de artigos de maternidade, incerta das motivações dos lados envolvidos no conflito, alienada frente às revoluções que iniciaram movimentos pela redemocratização do México. No entanto, as transformações políticas e sociais de seu país se alinham à transformações significativas em seu próprio destino e, de certa forma, aproximam ela do contexto em que está inserida.

Cena que recria o Massacre de Corpus Christi, importante protesto estudantil mexicano [Imagem: Reprodução]

As últimas cenas, contudo, são o que há de mais representativo numa sociedade que apoia suas concepções de lar nas costas da classe trabalhadora. Sem muito tempo para se recuperar de uma perda que sofre, viaja com a patroa e os filhos para o litoral e se vê forçada a demonstrar seu lado maternal compulsoriamente. Ao ver a menina caçula se afogar, entra sem pensar duas vezes num mar agitado e imprevisível para resgatá-la. Sem titubear, Cleo reafirma o papel da empregada como mãe, mas de filhos que não foram gerados de seu próprio ventre.


Um espelho de 500 anos

São claras as semelhanças entre os filmes e, principalmente, entre a história comum do trabalho nos dois países onde se passam. Ambos, apesar da simplicidade do roteiro, conseguem fazer gancho para críticas maiores ao seu próprio enquadramento. As cenas são um reflexo do dia a dia de sociedades ainda divididas pelo poder aquisitivo no âmbito dos direitos e da participação do futuro político do país. 

Apesar disso, os países latinos apresentam processos de formação muito distintos entre si. A unidade sul americana é importante para a identidade política do continente, mas é interessante observar suas diferenças e como, curiosamente, culminaram em cenários tão parecidos: a relação entre brancos e minorias continua hierárquica, apesar dos diferentes processos políticos. As particularidades são o que há de mais valioso, mas é a convergência de suas histórias que dão face às organizações sociais.

Cleo e Val se aproximam quando se veem no limiar do trabalho e da família [Imagem: Reprodução | Gullane Filmes]

No caso brasileiro, as relações de poder foram criadas junto com a cultura nacional e o seu povo. Mesmo no período do Império, já se observava a serventia como um pilar central das instituições do país que nascia. Em “A Elite do Atraso” o sociólogo Jessé Souza se propõe a destrinchar a sociedade brasileira desde o ano zero. No livro, ele explica como somos um produto de uma sociedade escravocrata de 500 anos atrás e quais os meios que permitiram que essa estrutura se perpetuasse. A principal herança que nos permeia é a naturalização da pobreza e da desigualdade: ao considerarmos normal o abismo social entre empregados e patrões, entregamos de bandeja o controle de todas as nossas instituições à uma elite que não pretende mudá-las e muito menos perder seu prestígio.


E quem quer falar sobre luta de classes?

Outra característica que aproxima os dois filmes é a origem do discurso. Apesar de provocador, vem de cima e nada mais é que um despertar da classe dominante para a realidade que a cerca. É feito da elite para a elite. Minha própria experiência pessoal com essas questões se une a essa voz distante, que pretende fazer a mudança, mas muitas vezes se esquece de ouvir quem está no coração do problema. A perspectiva de Val e Cleo é remontada a partir da visão de quem tem uma empregada, e não quem a é, e isso por si só já denota as grandes desigualdades que pautam nossas relações. Afinal, a palavra é também um direito a ser conquistado.

A pernambucana Maria Quitéria, empregada doméstica há mais de 20 anos, veio para São Paulo a procura de emprego, grávida de 4 meses de um filho. Trabalha há 17 anos na mesma casa e conta com alegria o privilégio de se sentir parte da família. Ao passar por um difícil divórcio, foi acolhida pela patroa e por suas filhas e sente que isso foi importante para demonstrar o afeto que sentem umas pelas outras. Esse depoimento levanta um importante questionamento sobre a imagem das empregadas sobre si mesmas. Teriam elas a vontade de sair do lugar que ocupam? Estariam dispostas a abandonar uma longa e próxima relação com os filhos que ajudaram a criar para buscar uma “melhora de vida”, que não enxergam nitidamente, mas que tanto prega a classe intelectual que fala sobre condições que mal conhece?

O filho, Ariel, tem a mesma idade que Isabella, filha mais nova de seus patrões. Quando perguntei como se sentia criando uma criança que não era sua filha, enquanto o menino era criado por outras pessoas, responde um curto e pensativo “é difícil”. Mas a intimidade que estabelece com a menina parece ser um alívio para a distância de sua própria cria, e torna mais suportável a realidade de ter de deixá-lo. Fala com carinho de memórias e momentos que não viveu com o próprio filho, mas que mesmo assim a fizeram mãe.

As consequências de uma diferença de classes parecem permanecer veladas, mas algumas perguntas depois me deparo com um gritante indicador da distância entre Ariel e Isabella. O menino, aos 20 anos, abandonou os estudos e procura um emprego para ajudar na casa onde vive sozinho com a mãe. Isabella, por outro lado, estuda num cursinho particular para prestar medicina. As duas ambições são válidas, mas é difícil ignorar a desigualdade de suas finalidades. Assim como Fabinho e Jéssica, não são frutos das mesmas oportunidades. E enquanto o filho da empregada não almejar as mesmas coisas que a filha da patroa, aí reside o grande problema da sociedade brasileira e suas desigualdades.


Quem são as empregadas?

As domésticas são mais que aquelas que caminham, determinadas, carregando seus pertences rumo a casa de alguém. Elas são o retrato normalizado de uma história de exploração e desigualdade que se estabeleceu há mais de 500 anos no continente. A percepção, sempre tardia, de que não são meras serviçais, mas pessoas com histórias ricas e vozes experientes é um choque. Tentamos realizar nosso desejo profundo e velado de poder, recriado na hierarquia das casas de uma classe média que sonha com o privilégio e o prestígio da elite.

Os diretores conseguem passar essa reflexão. Representam um cinema latino crítico, que desponta nas últimas décadas abordando temáticas sociais importantes das sociedades formadas a partir das ruínas da exploração e de regimes autoritários. As questões sociais, o trabalho e a arte caminham juntos na construção de uma visão da América Latina sob si mesma e que caminha para derrubar as correntes que prendem o sonho da igualdade e da liberdade.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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