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A Verdadeira História do Barão: da metalinguagem à reflexão
Em Cena
31 ago 2019 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

A peça, estreada para o público geral no dia 17 de agosto, acontecerá aos sábados e domingos às 14h no Teatro do Centro Cultural FIESP, e estará disponível até o dia 24 de novembro. O tempo de duração é de aproximadamente 1h. A entrada é gratuita e a classificação, livre. Ou seja, é para todo mundo!

Produzida pela Companhia Cênica Nau de Ícaros, a qual completa 27 anos de experiência, a peça procura contar a história do Barão de Münchhausen de maneira fantasiosa e criativa, incentivando a reflexão sobre a criatividade, o conceito de verdade, a importância da perseverança e, sobretudo, do teatro para o indivíduo.

Nesse sentido, um panorama da vida do barão pode ajudar a entender a história. Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen foi um militar alemão do século XVIII, cuja história ficou conhecida mundialmente graças aos livros do bibliotecário Rudolph Erich Raspe, que, ao ouvi-las, resolveu registrá-las. As aventuras do Barão são fantásticas, surpreendentes e fora da realidade com a qual estamos acostumados, o que as torna interessantes para serem encenadas.

A primeira impressão que se tem ao ver os atores no palco é de que será uma peça infantil, apenas de caráter lúdico e sem nenhuma profundidade psicológica. Mas se engana quem pensa assim. Logo nas primeiras cenas, percebemos que a obra se trata de um recurso linguístico bastante utilizado por autores como Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade: a metalinguagem. 

Essa figura consiste no uso da linguagem para falar da própria linguagem. Neste caso, os atores utilizam o teatro para refletir sobre o “fazer artístico” de uma peça teatral. Encenam um ensaio correspondente a um dia anterior à apresentação, demonstrando as dificuldades tanto dos atores para expressar as emoções das personagens quanto da diretora para guiar as cenas e falas dos artistas.

Para compreender as cenas, é essencial usar a imaginação, pois o cenário é simples. O cavalo utilizado pelo Barão, por exemplo, não passa de uma vassoura com algumas modificações. Os animais não passam de pessoas fantasiadas. Mas esses detalhes não tornam a peça menos interessante – pelo contrário, são  o que melhor capta a nossa atenção e nos faz querer assistir até o final. 

Um efeito muito importante foi o jogo de luz e sombra. O contraste entre claro e escuro e as diversas cores de luz foi essencial para a narrativa. O figurino representou bem a época do Barão e as diferentes personagens da história. A trilha sonora também foi imprescindível, ao apresentar não só músicas, mas também sons  do cotidiano nos quais raramente reparamos.

Todos esses recursos, desde os técnicos até a atuação em si, tiveram uma intenção principal, já mencionada: refletir sobre o fazer artístico e o cotidiano dos artistas. Assim, mencionam-se muitos questionamentos, como qual é a importância da arte cênica, por que não se pode desistir, por que precisamos sonhar e se o teatro é uma mentira, pelo fato de ser uma invenção. 

Diante disso, os autores refletem: qual é a diferença entre mentira e verdade? Afinal, tudo é uma invenção. Por fim, comentam sobre o valor do teatro e da arte em geral: “sem isso, a vida não teria graça”. E, de maneira sutil, critica-se a desvalorização dos artistas, pelo simples fato de irem além da verdade. Novamente, refletem sobre a vida e os sonhos: “O que é a vida? Só uma história. Toda ela é sonho.”

No final do espetáculo, os atores comentam como a criatividade e a imaginação são revolucionárias, o que os motivou a encenar a história do Barão de Münchhausen. Terminam dizendo como a liberdade intelectual é imprescindível para a produção artística. Isso não poderia ser mais atual: com o descaso governamental à cultura e as tentativas de impor censura a projetos artísticos, é preciso valorizar cada vez mais essa maneira de expressão humana.

[Imagem: Chris Von Ameln]

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