Home Na Estante “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” – A mulher que poderia ter sido
“A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” – A mulher que poderia ter sido
Na Estante
18 jun 2016 | Por Jornalismo Júnior

A vida invisível de Eurídice Gusmão. Este é um livro sobre uma mulher. Este é um livro sobre mulheres. Este é um livro para mulheres, mas é também um livro para homens. É um livro para quem quer ver nas páginas um retrato da situação da mulher numa época em que muitas não foram o que poderiam ter sido, impedidas pela sociedade patriarcal de então, que ainda mostra resquícios na atualidade.

Eurídice e Guida, as irmãs Gusmão, foram criadas para serem esposas perfeitas, preocupadas com o marido, filhos e com o lar, assim como todas as moças “de respeito” do Rio de Janeiro do começo do século XX. Mas seguiram caminhos diferentes. Guida fugiu de casasem deixar nenhum recado, fazendo com que  pais e irmã ficassem arrasados. Eurídice, pelo contrário, para agradar os pais e atender as expectativas colocadas sobre ela se tornou o que todos queriam que ela se tornasse: uma boa dona de casa. Ambas as escolhas foram frustrantes.

Guida pensou que estava fazendo o certo quando fugiu de casa, seguindo o seu coração, mas a vida nem sempre acontece como se imagina. Logo a realidade bateu na porta e ela se viu sozinha e com vários problemas. Sempre determinada e orgulhosa ela conseguiu vencer muitos dos obstáculos, no entanto, ainda assim olhares tortos, violência e várias dificuldades fizeram parte dos seus dias.

“Às vezes a gente acha que está fazendo tudo certo, mas quando se dá conta descobre que estava com os olhos tapados e não consegue acertar de jeito nenhum.”

Eurídice, por sua vez, poderia ter sido muito mais. Isso mesmo, no futuro do pretérito. Ela não foi. Inteligente desde pequena, ela tinha capacidade para ganhar o mundo, mas seus sonhos, assim como o de muitas outras garotas, foram podados pela moral machista. Casou, teve filhos e cuidou da casa. De tempos em tempos a verdadeira Eurídice vinha à tona em projetos promissores para ocupar seu tempo e acabar com o tédio, mas como sempre, era silenciada. Suas ideias e pensamentos, que transgrediam as regras de seu tempo, eram invisíveis aos olhos das pessoas.

“Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar.”

Mas a história não gira apenas em torno de Eurídice e Guida.  A autora Martha Batalha constrói uma narrativa espetacular, onde todos os personagens apresentados possuem uma história própria, com seus dramas, momentos felizes e tristes, complementando o cenário da classe média dos anos 40 e 50. Nenhuma figura é desperdiçada e isso faz com que você não consiga parar de ler. Tudo está tão bem amarrado que a leitura flui.

A história também não possuí uma atmosfera pesada, apesar de tratar de assuntos sérios como opressão e injustiça. A autora prefere utilizar um humor crítico, capaz de revelar os aspectos daquela sociedade dominada por homens, mas sem sobrecarregar a leitura.

O livro, enfim, conta a história que poderia ter sido de nossas mães, avós e bisávos, vivendo em um tempo onde a invisibilidade era algo constante na vida das mulheres e o protagonismo de suas vidas era roubado pelos pais, maridos e irmãos. É um livro capaz de gerar revolta em quem lê ao ver a marginalização das mulheres, a violência e injustiça com que eram tratadas, e um aperto no coração ao perceber que situações como essas, em menor grau, ainda são possíveis de serem observadas na sociedade atual, mesmo com os diversos avanços que foram conquistados. Mostrando que a luta pela igualdade de gêneros, apesar de longa, infelizmente ainda está muito longe do seu fim.

Por Beatriz Arruda
beatriz.arruda12@gmail.com

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COMENTÁRIOS
Camila Oliveira
Muito boa a resenha, o livro parece espetacular. Parabéns!
18 jun 2016
 
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