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Tóquio 2020 | Em prova histórica, Alison dos Santos quebra tabu brasileiro e conquista a medalha de bronze em Tóquio

Com confiança e alegria, Malvadão mostrou durante a Olimpíada as habilidades que adquiriu em sua carreira meteórica

ARQUIBANCADA
03 ago 2021 | Por Murillo César (murillo.cesar@usp.br)

Carismático. Fenômeno. Histórico. Alison dos Santos é o que todo atleta sonha em ser, e faz tudo isso com facilidade. Ao conquistar a medalha de bronze nos 400 metros com barreira, o atleta coloca definitivamente seu nome entre as lendas do Atletismo brasileiro e, pode-se dizer, mundial. 

Desde o início de sua carreira, Piu — apelido que recebeu ainda na adolescência — mostrou que era questão de tempo para alcançar a glória olímpica. Sua marca de 46,72 segundos alcançada em Tóquio, além de impressionante, é a recompensa por uma vida cercada por esforços, trabalho, vontade e, acima de tudo, alegria. 


Um menino de São Joaquim da Barra
 

À primeira vista, por conta de uma queimadura na cabeça, Alison aparenta ser muito mais velho do que seus 21 anos. Em decorrência de um acidente doméstico, ocorrido ainda na infância, Piu teve de ser internado por dois meses, além de sair do hospital com cicatrizes na cabeça e, um pouco menores, em seu corpo.  

Essas marcas foram, num primeiro momento, motivo de vergonha para o menino de São Joaquim da Barra, pequena cidade do interior de São Paulo. Quando criança, Alison era muito tímido, muito por conta dessa sua aparência. Por meio do esporte, o medalhista olímpico aprendeu a vencer os obstáculos da vida — e das pistas. 

Ao superar as barreiras do atletismo, Piu teve uma ascensão meteórica no cenário. Iniciando sua trajetória no esporte com 14 anos. Em apenas duas temporadas, já estava competindo entre os adultos — e os vencendo. 

O desempenho de Alison nos 400 metros proporcionou, com a maioridade, disputar torneios internacionais, apresentando-se assim ao mundo. Em 2019, conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos de Lima e um sétimo lugar no Mundial de Atletismo de Doha. 

Os resultados não pararam por aí. Semelhante aos 91,4 cm das barreiras nas pistas, a pandemia não foi um obstáculo para Piu. Sob treinamento do Esporte Clube Pinheiros, o atleta conseguiu, em um espaço de três meses, quebrar cinco vezes o recorde sul-americano em sua modalidade. 

Seus retrospectos e números o consolidaram como um dos favoritos da delegação brasileira — e do Atletismo — para conquistar uma medalha. E Alison, como em toda sua vida, não decepcionou. 


Um Malvadão em Tóquio
 

Alison dos Santos em uma de suas eliminatórias [Imagem: Reprodução/Time Brasil]

Espontaneidade e tranquilidade. Esse é o resumo da participação de Alison dos Santos na Olimpíada, que conquistou o coração de milhões de brasileiros em menos de uma semana, sempre com um sorriso no rosto. 

Desde o primeiro dia na Vila Olímpica, Piu buscou manter a concentração, a fim de alcançar seu melhor desempenho. Em entrevista, o atleta afirmou que buscava “levar a competição na maior leveza possível, para não deixar o nervosismo ficar à flor da pele e atrapalhar o resultado”. Para isso, contou principalmente com músicas. 

Em sua primeira eliminatória, já em Tóquio, Piu mostrou uma tranquilidade invejável minutos antes da prova. Sorridente, com seus fones de ouvido, dançava ao som da música “Chamo teu vulgo Malvadão”, que até lhe rendeu o apelido e conversas bem humoradas com a imprensa. 

Esse funk foi a trilha sonora e motivação durante sua trajetória. Correndo por música, Alison passou com tranquilidade para as finais. Além disso, se classificou com mais um recorde sul-americano e com o segundo melhor tempo geral, de 47,31 segundos. Fenômeno. 

Alison dos Santos mostrando um semblante de tranquilidade, diferente de seus adversários [Imagem: Reprodução/Flickr Breno Barros]

Ao mesmo tempo que a competição chegava a sua reta final, o Malvadão passava cada vez mais confiança. Desde o sorriso, poses e danças em suas apresentações para as corridas, tudo indicava um ótimo desempenho nas pistas. Dentro delas, passava pelos obstáculos com facilidade, demonstrando habilidade em pulá-los com ambas as pernas — qualidade invejável para os atletas.  

Com toda essa bagagem que trouxe para a corrida, sua velocidade e, acima de tudo, confiança, parecia que nada poderia tirar Alison do pódio. Nem mesmo a final mais difícil da história dos 400 metros com barreira.  

Sem uma largada exuberante, Alison conseguiu manter o ritmo com seus adversários diretos, acompanhando-os até os últimos metros. Ao mesmo tempo, transpareceu uma tranquilidade que não refletia a dificuldade de uma prova que observou a quebra do recorde mundial — por duas vezes.  

Karnsten Warholm e Rai Benjamin, medalhistas de ouro e prata, ultrapassaram o tempo de 46,70 segundos, recorde até então. Alison também ficou próximo dessa marca, ao terminar apenas dois centésimos de segundos acima — o que significou mais uma quebra de recorde sul-americano. Mas nem esses fatores foram obstáculos para seu tão sonhado pódio e bronze. 

Para o Brasil, sua conquista representou o fim de um jejum histórico: há 33 anos, desde a prata de Joaquim Cruz em Seul, nenhum brasileiro medalhava nas pistas do atletismo. Coube ao Malvadão acabar com esse estigma. Alisson dos Santos, o Piu, nosso mais novo ídolo! E como o próprio disse: “Eu não sei o que aconteceu, se aconteceu eu não tô sabendo. Só sei que isso aqui é Atletismo”. 

Alison dos Santos, o Piu, com a bandeira do Brasil

Piu: o mais novo medalhista olímpico [Imagem: Reprodução/Time Brasil]


*Imagem de capa: Alison e seu sorriso: indissociáveis durante toda sua trajetória [Reprodução/@JogosOlímpicos]

Tóquio 2020 rebeca

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